Dilma Rousseff: o fim de uma novela triste

Chegamos ao final do processo de impeachment de Dilma Rousseff. A partir da próxima semana teremos finalmente um presidente da República no exercício pleno de sua autoridade constitucional. Se alguém tinha ainda alguma dúvida sobre a legitimidade popular de Michel Temer, a Olimpíada do Rio de Janeiro serviu para eliminá-la. Com toda a visibilidade internacional […]
L
Luiz Carlos Mendonça de BarrosPublicado em 23/08/2016 às 11:52.

Chegamos ao final do processo de impeachment de Dilma Rousseff. A partir da próxima semana teremos finalmente um presidente da República no exercício pleno de sua autoridade constitucional. Se alguém tinha ainda alguma dúvida sobre a legitimidade popular de Michel Temer, a Olimpíada do Rio de Janeiro serviu para eliminá-la. Com toda a visibilidade internacional que este evento teve, a intensidade de manifestações contra o afastamento de Dilma Rousseff mostrou que o apoio à tese de golpe está restrito hoje a meia dúzia de gatos pingados portando cartazes artesanais simplórios.

O PT e seus braços auxiliares já entenderam isto e concentram suas parcas energias em fóruns mais seguros como a ONU e outras organizações políticas nanicas como a UNASUL. As bandeiras vermelhas sumiram das ruas e o Partido dos Trabalhadores voltou à sua luta política no contexto das regras democráticas e eleitorais vigentes. Isto é muito bom para o país. Gostaria de chamar a atenção do leitor do aplicativo EXAME Hoje para este fato, que na minha opinião representa uma vitória extraordinária da democracia no nosso país. Em outras situações de colapso de uma hegemonia política tão longeva como a do PT, a transição vivida foi muito mais conflituosa e difícil para a sociedade e suas instituições políticas. Por isto tenho um sentimento de alívio e confiança no futuro.

Mas como Dilma e o PT hegemônico já fazem parte da história, vamos concentrar nossas atenções no futuro. E o futuro no Brasil — principalmente para a economia — é hoje representado por dois momentos distintos, embora complementares: o mandato do governo Temer e as eleições presidenciais de 2018. A dimensão dos escombros na economia, herdados do período lulopetista, é de tal ordem que apenas um período longo de racionalidade na condução dos rumos do país, de pelo menos dois mandatos presidenciais, pode recolocar o Brasil no caminho do crescimento sustentado.

Esta talvez seja a questão mais importante hoje para encarar os desafios que estamos enfrentando. A reação de parte dos agentes de mercado, principalmente no Brasil, mostra um entendimento totalmente equivocado do caminho que teremos que seguir. Ajustar a agenda de reformas econômicas à realidade política que estamos vivemos será uma obra delicada e que precisará de muita competência na sua condução. Neste sentido, foi muito importante o editorial do dia 21 de agosto de 2016 do jornal O Estado de São Paulo — “Uma visão equivocada” — passando um pito no mercado financeiro e sua posição de cobranças e críticas ao comportamento cauteloso do ministro da Fazenda e sua equipe de auxiliares.

Neste momento o desafio imediato para o governo será o de administrar a recuperação cíclica já em curso e utilizá-la como instrumento de convencimento de que sua perenidade vai depender das reformas já alinhadas pela equipe econômica. Em seguida, com a economia crescendo a taxas mais vigorosas e a sociedade sentindo os efeitos benéficos da nova orientação da política econômica, será mais fácil aprovar uma agenda ambiciosa e profunda de reformas constitucionais e de mudanças no ambiente de negócios via uma legislação mais para o mercado.

Mas será necessário manter o governo Temer sobre pressão para que o alívio da recuperação cíclica, e seus efeitos sobre o apoio ao governo que dela decorrerá, não enfraqueçam os esforços de mudanças necessárias para o futuro mais à frente.

Mendonça de barros