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O que as previsões para o El Niño nos obrigam a discutir sobre o campo

Secas, enchentes e estiagens expõem fragilidades históricas da infraestrutura, da logística e da resiliência do agronegócio brasileiro

Vista aérea de um incêndio em Corumbá, Mato Grosso do Sul, em 26 de junho de 2024
incêndio queimada fumaça Brasil Emissões de CO2 efeito estufa El Niño calor seca (AFP Photo)

Vista aérea de um incêndio em Corumbá, Mato Grosso do Sul, em 26 de junho de 2024 incêndio queimada fumaça Brasil Emissões de CO2 efeito estufa El Niño calor seca (AFP Photo)

Instituto Millenium
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Instituto Millenium

Publicado em 9 de junho de 2026 às 13h41.

Impulsionado pelo uso de tecnologias avançadas e pela expansão do sistema de integração de lavoura-pecuária, nos últimos anos, o agro brasileiro acumulou safras com ganhos excepcionais de produtividade. Segundo os dados do IBGE, em 2025 o desempenho da agropecuária na economia representou um terço da expansão de 2,3% que a economia brasileira teve no ano. A produção de milho avançou 23,6%, enquanto a soja apresentou crescimento de 14,6%. A pecuária também contribuiu positivamente para o resultado do setor.

Mas, por baixo dessa robustez, há uma vulnerabilidade setorial que o El Niño expõe sem piedade: o campo brasileiro ainda depende demais da chuva certa na hora certa.

O El Niño é um fenômeno climático decorrente do aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Seus efeitos, no Brasil, são geograficamente assimétricos e devastadores quando coincidem com períodos críticos das culturas. O Sul e o Centro-Oeste tendem a registrar chuvas extremas, enquanto o Norte e o Nordeste podem enfrentar ondas de calor, secas e estiagem. Para um país cuja pauta exportadora é dominada por soja, milho, café, cana-de-açúcar e carne bovina, a falta de água no momento errado deixa de ser um problema agrícola e se torna um risco macroeconômico.

As projeções do Inmet e do Cemaden apontam para desvios significativos na precipitação nas regiões produtoras durante a janela de safra 2025/2026. A soja, principal commodity de exportação brasileira e responsável por uma fatia expressiva das receitas cambiais, é particularmente sensível ao déficit hídrico no período de floração e enchimento de grãos. A cultura do milho, que abastece a cadeia de proteína animal, enfrenta risco semelhante na safrinha, justamente plantada na janela de maior exposição ao fenômeno. O arroz, majoritariamente cultivado de forma irrigada no Sul, historicamente não sofre tanto com os efeitos das variações climáticas, salvo quando as chuvas se concentram no período de plantio.

Justamente por ser um dos motores da economia nacional, os impactos da quebra de safra no agronegócio não se restringem apenas ao lado de dentro da porteira. A diminuição na oferta ocasionada pelo decaimento da produção pressiona a inflação de alimentos, que por sua vez contamina o IPCA e obriga o Banco Central a calibrar a política monetária em um contexto de maior rigidez. Juros mais altos, por sua vez, encarecem o crédito para o produtor rural, comprometem o investimento em tecnologia e reduzem a capacidade de reação para a safra seguinte. Trata-se do legítimo efeito cascata ocasionado pela mão invisível do mercado, que desta vez começa no campo e termina no bolso dos consumidores brasileiros.

Em anos de instabilidade climática, porém, a competitividade do agro deixa de depender apenas do que acontece dentro da porteira. A capacidade de armazenar, transportar e comercializar a produção torna-se tão relevante quanto a produtividade obtida no campo. Quanto maior a vulnerabilidade climática, mais cresce a importância dos elos da cadeia capazes de absorver parte desses choques.

O desafio, portanto, não é eliminar o risco climático, algo impossível em uma atividade intrinsecamente dependente do tempo, mas reduzir sua capacidade de gerar perdas sistêmicas ao longo da cadeia produtiva.

Quando o clima compromete uma parte da cadeia, a reação inteligente é ganhar eficiência nas outras. O investimento em tecnologias de manejo adaptativo, como cultivares tolerantes à seca, plantio direto e até mesmo a utilização de sistemas de irrigação, já demonstrou capacidade de reduzir perdas em cenários de estresse hídrico. Por outro lado, a modernização dos sistemas de armazenagem nas fazendas pode ser também um aliado: segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, quase metade das perdas de grãos no Brasil ocorre na armazenagem, um problema que se agrava precisamente quando a safra se concentra nos meses de maior calor. Produtores que armazenam bem têm mais poder de negociação sobre o preço e mais tempo para escoar a produção em condições favoráveis.

Há mais um ponto da cadeia que há muito é negligenciado, e não pelo produtor rural: a malha rodoviária. País de dimensões continentais, o Brasil tem apenas 12,4% de suas rodovias pavimentadas, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), e o resultado dessa falha basilar de infraestrutura é a perda de cerca de 15% da produção de grãos ao longo da cadeia logística; obviamente, como seria de se esperar em qualquer relação simples de causa e consequência, isso impacta diretamente no preço final do produto. O problema é tamanho que estudos da CNT estimam que o custo de transportar soja brasileira até a China é até US$ 62,50 maior por tonelada do que os custos enfrentados por produtores de Illinois, nos Estados Unidos, por exemplo.

O El Niño tem o potencial de piorar o que já está ruim: quando as chuvas irregulares comprometem estradas não pavimentadas, o custo do frete sobe, o tempo de entrega cresce e a perda de grãos no percurso se multiplica. Uma agenda consistente de concessões e investimentos privados em infraestrutura pode reduzir parte desse gargalo. Experiências recentes em rodovias, ferrovias e terminais portuários demonstram que a participação do capital privado tende a acelerar obras, ampliar a capacidade logística e diminuir custos de transporte, fatores essenciais para a competitividade internacional do agro brasileiro.

Fenômenos meteorológicos como os enfrentados nos últimos anos não criam as fragilidades do agro brasileiro, apenas as tornam mais visíveis. A dependência das condições climáticas continuará sendo uma característica inerente da atividade rural, mas seus efeitos econômicos podem ser mitigados por meio de investimentos em tecnologia, armazenagem e infraestrutura logística, que reduzem o impacto desses eventos sobre a produção, os preços e o crescimento econômico. Em um setor que responde por parcela significativa das exportações e da geração de renda do país, aumentar a resiliência deixou de ser apenas uma estratégia de eficiência: tornou-se uma necessidade econômica.

 

*Nathália Ceolin Vieira é advogada, associada do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) e sócia da Fernandes, Fochesatto, Ceolin Advocacia