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O que a revolução cubana nos ensina sobre a prosperidade econômica?

A ciência nos diz é que não é uma boa ideia entregar o futuro de uma sociedade para um ditador

Turistas passam em um auto clássico diante do Castillo del Morro este viernes, em uma rua de La Habana (Cuba). O fim da alta temporada em Cuba tem sido uma nova evidência de que o turismo continua sem levantar cabeça em uma ilha que durante décadas esteve neste setor como motor da economia e fonte fundamental de divisões

Turistas passam em um auto clássico diante do Castillo del Morro este viernes, em uma rua de La Habana (Cuba). O fim da alta temporada em Cuba tem sido uma nova evidência de que o turismo continua sem levantar cabeça em uma ilha que durante décadas esteve neste setor como motor da economia e fonte fundamental de divisões

Claudio D. Shikida
Claudio D. Shikida

Colunista - Instituto Millenium

Publicado em 5 de março de 2026 às 14h57.

Com o fim do petróleo venezuelano para Cuba, os rumores são os de que a economia local, mais uma vez, enfrenta uma crise. Já vimos esta história antes, quando do fim dos subsídios soviéticos com o curto período democrático da Rússia sob Gorbachev (e depois Yeltsin). O regime autoritário sobreviveu, a despeito da morte de Fidel Castro.

Cuba, dizem-nos os dados, antes de Fidel, apresentava alguns bons indicadores sócio-econômicos, até mesmo em relação a outros países da América Latina. Naturalmente, uma pergunta surge: com a ditadura cubana, a situação da sociedade cubana melhorou? A resposta é negativa e aí surgem discussões superficiais - e, portanto, infindáveis - entre apoiadores e opositores do regime implantado por Castro e seus seguidores.

Em 2018, alguns pesquisadores (Hugo Jales, Thomas Kang, Guilherme Stein e Felipe Garcia Ribeiro) publicaram um artigo científico interessante no qual eram apresentados fortes indícios de que a revolução socialista de Cuba não teria colocado o país no caminho da prosperidade. Vale dizer: os opositores de Castro tinham fortes razões para comemorar.

Obviamente, como toda pesquisa, esta também tinha limitações e uma delas era o uso de dados para o PIB cubano medido conforme o sistema soviético de contas nacionais, o que dificulta sua comparação com outros países. Além disso, o artigo não separava eventos como o embargo norte-americano ou os subsídios da URSS à ditadura cubana. Ainda assim, foi um artigo pioneiro que nos deu mais evidências de que o intervencionismo autoritário não funciona.

Recentemente, outros pesquisadores (João P. Bastos, Vincent Geloso e Jamie B. Pavlik) retomaram o trabalho de Jales e associados. Desta vez, separam, empiricamente, três fatores frequentemente confundidos na literatura: (i) a própria revolução e a adoção de políticas socialistas, (ii) o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos a partir de 1962 e (iii) os volumosos subsídios recebidos da União Soviética durante a Guerra Fria.

Uma das principais contribuições do trabalho é metodológica. Dados os problemas da série de PIB geralmente utilizada (afetadas por preços administrados pelo sistema soviético de contas nacionais, sem falar de possíveis manipulações estatísticas, comuns em ditaduras), os autores usam estimativas revisadas de PIB per capita, desenvolvidas por outro pesquisador em artigo de 2021, que reconstrói o produto cubano com base em preços pré-revolução, permitindo comparações internacionais mais confiáveis. Não apenas isto. Estas novas estimativas possibilitam subtrair explicitamente o valor dos subsídios soviéticos, algo crucial para identificar o desempenho “autônomo” da economia cubana.

Os autores usam o método do Controle Sintético - comum a este tipo de análise - que consiste em construir uma “Cuba contrafactual” a partir de uma combinação ponderada de países latino-americanos semelhantes no período pré-1959. Esta “economia sintética” representa a trajetória esperada do PIB per capita cubano na realidade contrafactual de ausência da revolução, do embargo e da ajuda soviética.

A comparação entre Cuba real e seu contrafactual revelou forte descolamento negativo a partir do início dos anos 1960. Usando as séries corrigidas, o PIB per capita cubano aparece cerca de 47% abaixo do contrafactual em 1975 e mais de 44% abaixo em 1989. Quando se desconta a ajuda soviética, a diferença é ainda maior, ultrapassando 50% em ambos os anos, o que indica que os subsídios mascararam parcialmente um desempenho econômico estruturalmente fraco.

O artigo dedica atenção especial ao papel do embargo americano. Para isso, os autores constroem diferentes cenários baseados em dados de comércio exterior e em relações estimadas entre abertura comercial e crescimento econômico. Mesmo adotando hipóteses deliberadamente extremas — que tendem a superestimar os efeitos do embargo — os resultados mostram que sua contribuição para a queda do PIB per capita cubano é relativamente modesta: no cenário mais realista, a ausência do embargo elevaria a renda per capita em apenas cerca de 3% no início dos anos 1970 (nos cenários mais exagerados, esse efeito não ultrapassa 10%). Em todos os casos, o embargo explica apenas uma fração pequena da divergência observada entre Cuba e seu contrafactual.

Ah sim, antes que algum apressado fã de Fidel Castro aponte dedos, lembro que um outro artigo, de 2022, mostrou que Pinochet também teria sido um ponto de retrocesso no Chile. O socialismo cubano ou bolivariano seguem de perto a ideia de que é preciso uma ditadura, embora nem sempre ela seja a do proletariado. Ditaduras - de qualquer espectro ideológico - são sinônimos de forte intervenção na economia e o que a ciência nos diz (como é mesmo que se diz? Ah sim, “Viva a Ciência!”) é que não é uma boa ideia entregar o futuro de uma sociedade para um ditador, por mais longos e belos que sejam discursos…