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O humor sob vigilância Claudio Manoel reflete sobre liberdade, censura e os novos limites do riso

Durante décadas, o humor foi uma das formas mais eficazes de expor contradições, questionar o poder e traduzir o espírito de uma época

Claudio Manoel marcou época quando integrou o Casseta e Planeta (Nando Chagas)

Claudio Manoel marcou época quando integrou o Casseta e Planeta (Nando Chagas)

Instituto Millenium
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Instituto Millenium

Publicado em 25 de março de 2026 às 14h55.

Nesta entrevista ao Instituto Millenium, o humorista Claudio Manoel revisita sua trajetória no Casseta & Planeta para discutir como a tecnologia transformou a produção e a circulação do humor, por que a espontaneidade do riso foi substituída por um cálculo constante e como a pressão por controle — vinda não apenas do Estado, mas também de grupos organizados — redefiniu os limites da crítica. Para ele, o humor não desapareceu, mas se tornou mais fragmentado, menos compartilhado e, muitas vezes, mais cauteloso.

Claudio Manoel será um dos palestrantes do Fórum da Liberdade, nos dias 9 e 10 de abril, quando falará sobre o cenário atual do humor, seus limites e sua relação com a política, temas que ajudam a entender não apenas o riso, mas o próprio estado da liberdade de expressão no debate público contemporâneo.

Confira a íntegra da conversa:

Instituto Millenium: Nos anos 90, o Casseta & Planeta fazia humor com praticamente todos os temas e figuras públicas. O que mudou no ambiente cultural para que hoje haja mais restrições ao humor?

Claudio Manoel: Mudou praticamente tudo, né? E continua mudando. Mudou muito, mudou rápido, e a velocidade não para. Dos anos 90 para cá, mudou principalmente as tecnologias, o acesso às tecnologias. Quando a gente começou, lá atrás, quem não fosse descoberto ou contratado por uma emissora, as suas ideias não circulavam. Hoje, todo mundo é emissor, todo mundo é veículo de comunicação, todo mundo é meio de comunicação. Isso muda todas as relações, desde quem é espectador, quem é produtor, quem é difusor, até forma como o entretenimento - não só o humor – chega a cada um. É uma coisa muito mais nichada. A novela das nove pode ser vista a qualquer momento, e mesmo que seja ainda um produto bem visto, ele não é tão comungado. Por mais compartilhamentos que a gente tenha, somos cada vez mais nichados, a gente vive a revolução dos nichos. Tudo é muito novo, mesmo para quem é novo, e mais ainda para quem não é.

E no ambiente cultural, para que hoje haja mais restrições ao humor, também mudou basicamente tudo, desde a capacidade e velocidade do feedback. Antes, quem reclamava de uma piada tinha que escrever uma carta e colocar no correio. Hoje, o feedback não só é imediato, pode ser até robótico, como também quem emite opinião, pode ser um outro veículo de comunicação, mesmo sendo uma pessoa. A opinião dele também é conteúdo, também entra nessa mistureba toda aí. Então, para você fazer uma piada de longo alcance, como a gente tinha que fazer, ficou muito difícil. A relação com o humor ficou mudada. Hoje, as pessoas têm a convicção de que piada é opinião e risada é aprovação, então você precisa saber se pode rir,

antes de rir, porque depois você não consegue des-rir. A relação com o próprio humor é muito menos espontânea, ela é muito mais passível de investigação, então ela muda. Não é que ela acaba, o humor continua existindo de outras formas, mas a relação com o grande público mudou bastante. Eu costumava falar, muito tempo atrás, que a liberdade de expressão era inversamente proporcional ao tamanho da plateia. Quanto mais gente, menos você podia. E hoje, você nunca sabe qual o tamanho da plateia, tudo pode ser difundido e alcançar milhões de pessoas, até mesmo uma conversa privada.

 

IM: Hoje, como você se define, política e ideologicamente?

CM: Antes de me definir ideologicamente, vejo que isso muitas vezes serve mais para rotular e enquadrar as pessoas em prateleiras, como ativistas ou militantes. Acho que é basicamente um tipo de catalogação criada e necessária mais para quem é da esquerda, porque necessita mais dessas conceituações, como se fosse algo que as pessoas vivessem no dia a dia. Eu sou um radical defensor da liberdade em vários sentidos, em vários usos da liberdade individual, do livre-arbítrio, da liberdade de empreender, da liberdade de possuir, de ter, do direito individual, do direito à crítica, sou civilização ocidental na veia. Eu acho que crítica, pluralidade, direitos individuais, minoria, tudo isso só existe no Ocidente, isso tudo é criação do Ocidente. Então é isso, eu sou um defensor das liberdades do jeito que o Ocidente as concebeu, e que deveria lutar por elas, porque isso só tem aqui.

IM: Você acredita que o humor perdeu espaço como ferramenta de crítica ao poder ou apenas mudou de formato e linguagem?

CM: Bom, depende de onde, né? Onde a gente estava acostumado a consumir humor? Na TV aberta, certamente. O humor que se chama de crítico não era unânime. Alguns praticavam, a gente praticava, o CQC praticava... Atualmente, acho que tem toda uma cena stand-up que é vigorosa, onde o cotidiano é colocado, é discutido, e tem muito alcance. Muita gente tem mais alcance que algumas redes de televisão. Então, acho que tem uma produção vigorosa nisso aí. Os humorísticos da TV aberta é que pertencem - ao que parece - a uma outra época. Mas nesta época tem várias manifestações. Nunca se produziu tanto, até porque nunca se teve tantas possibilidades de produção e tantos criadores que podiam resolver a sua produção sozinhos, com eles mesmos. Então você vê a quantidade, por exemplo, de memes que se recebe, de cortes. A quantidade é avassaladora, é maior, só que ela vem muito mais dispersa, não vem organizada do jeito que vinha. A gente ficou vinte anos no horário nobre, numa coisa que chamava ‘grade de programação’. Só a expressão “grade” já soa algo meio medieval, né? Outros tempos.

 

IM: Em um mundo ideal, quem deveria definir o que pode ou não ser dito no humor?

CM: Não é só no mundo ideal. Acho que no mundo civilizado ocidental, quem define dentro da lei dos adultos, é o consumo do cidadão. O cidadão consome o que ele quer. O que ele não quer, ele não consome. A ideia de que existe crime de fala são de algumas latitudes. Na nossa latitude é, nos Estados Unidos, por exemplo, não é. Então, não é só uma utopia, é uma questão de ter conceitos firmes, como, por exemplo, que a liberdade de expressão é para quem você não gosta, não só para quem você concorda. Dentro disso, quem deve definir o que se fala ou não se fala é basicamente o público consumidor. Eu acho que não sou eu que

sonho com conceitos etéreos de liberdade. Está na Constituição. Em tese, tem diferença entre ação e intenção, ou até pensamento.

Uma coisa é você ter uma opinião ruim, ou tida como mal gosto, que você odeia cinemas e quer que todos os cinemas do mundo peguem fogo. Outra coisa é você gritar “fogo” dentro de um cinema. As pessoas confundam muito essa coisa. “Então, você pode falar o que você quiser?”. Sim, o que você não pode é provocar o que você quiser com a sua fala. Você impedir que alguém fale, que alguém pense, não é só um desejo, uma utopia. É realidade em vários países, onde esses impedimentos acontecem, assim como há outros em que a liberdade acontece objetivamente.

 

IM: O humor sempre teve um papel importante em expor contradições e absurdos da política. Hoje, ele ainda consegue cumprir essa função com a mesma liberdade?

CM: Não, claro que não, por tudo que já falamos. A questão da liberdade não é mais definida só por questões do Estado ou da lei. Também é por demanda, expressões, grupos que se organizam ou vocalizam, e exigem impedimentos, têm demandas por cerceamentos, todos em nome das boas intenções. Nunca existiu um censor que se achou mal-intencionado. Então, acho que a crítica não tem mais o mesmo alcance, porque ela não é propagada de uma forma menos fracionada. Hoje ela chega muito picotada, muito através do algoritmo, para as bolhas, então você ter um alcance grande com o humor é bem mais difícil, como as próprias temáticas. Tem muita coisa que incomoda um lado, qualquer que seja ele, e por causa disso, o incômodo vai para um tipo de reação que não é não gostar da piada, é querer que ela não seja feita. Isso vale para todos os antagonismos, de todas as cores. O trafegar livre da ideia, da piada, da bobagem, já não é mais uma realidade, tem muitos obstáculos. “Por que que você está falando isso?” “Você pode estar falando isso? “, “Quem é você para estar falando isso?”, “Isso causa dor em oprimidos”. Várias questões que impedem que a coisa trafegue livre, leve e solta.

 

IM: No Casseta & Planeta, havia diversidade de visões políticas entre os integrantes, como no caso da sua relação com o Bussunda. Por que esse tipo de convivência parece mais raro hoje?

CM: Eu não faço ideia. Não tenho mais esse tipo de convivência hoje em dia, convivência na criação coletiva. O que a gente tinha, basicamente, era um compromisso com o produto. A gente queria o melhor programa, a melhor piada, independente das opiniões. Aliás, a gente não queria opiniões, a gente buscava sempre a ideia de como agir e não como ter razão, isso nunca foi o objetivo. A gente sempre foi muito apaixonado pela comunicação de massa. Mesmo quando éramos muito underground, a gente, na verdade, almejava ser mass media.

Então, nunca foi uma questão você fazer uma piada sacaneando alguém que você votou ou um parceiro teu fazer uma piada sacaneando alguém que você gosta. Embora isso também não fosse uma questão tão grande, porque boa parte das piadas não eram sobre pessoas, ou sobre opiniões, eram sobre observações do cotidiano. Então, não eram tantos conflitos assim. Mas eu acho que a multiplicidade de visões sempre tende a arejar, e não o contrário. O contrário é necrosar, quando você fica só cercado pelo mesmo coro, pelas mesmas vozes, você quer ouvir a si mesmo o tempo todo.

Sobre os dias de hoje, acho que existe essa questão dos grupos, das turmas — algo que já vinha de antes. Havia um espírito coletivo, visível na turma do Pasquim, no pessoal do Asdrúbal Trouxe o Trombone e nos quadrinistas. Cada grupo funcionava quase como uma pequena “gangue”, e isso, de certa forma, favorecia o encontro entre diferenças.

 

IM: O que a experiência de vocês — com divergências ideológicas convivendo com amizade e produção criativa — pode ensinar para o debate público atual?

 

CM: Ah, acho que nada. Querer ensinar já é meio pretensioso... você querer entender ou resumir o debate público a uma experiência sua de décadas atrás. Eu acho que cada um que procure as suas soluções ou as suas não soluções. Ninguém também é fadado ao sucesso, nós temos várias vezes a opção preferencial pelo equívoco. Então será o resultante das capacidades, das vontades e das faltas de vontade. Acho que não tem muito “mirem-se no nosso exemplo”. Acho que a gente foi um caso exitoso de convívio e criação, mesmo com todos os atritos e questões, mas a resultante foi bastante vitoriosa. Mas não sei se é replicável. Eu acho que cada um que se ache, inclusive o país.

IM: Você acha que o medo de repercussões (cancelamento, boicotes, perda de espaço) tem levado humoristas à autocensura? Acredita que isso ocorre mais com um lado do espectro político do que com outro?

 

CM: Já falei da falta ou diminuição da espontaneidade em relação ao consumo de humor. As pessoas estão mais preocupadas em saber se aquela piada poderia ser rida, se você, ao ter rido, riu corretamente, porque, afinal de contas, aquela piada era malvadinha, ou qualquer coisa do gênero. Então, a questão do cancelamento, dos medos, das rigidezes, obviamente são um desfavorecimento à ousadia. O humor precisava correr riscos, e isso fica cada vez mais complicado.

 

Havia quem achasse que tudo isso encontraria algum equilíbrio. Havia uma expectativa mais otimista de que a chamada agenda “woke” sofreria um desgaste natural, seja pelo exagero de certas posições, seja pelo humor involuntário de alguns comportamentos. Mas eu não sou tão otimista. Tenho a impressão de que o movimento está indo no sentido contrário: está ficando mais 360, mais 3D. Todo mundo está se sentindo no direito de ser woke, independente da sua ideologia. Tem gente querendo cancelar humoristas de esquerda, tem gente querendo cancelar humoristas de tidos como de direita.

 

A demanda pelo cerceamento vira um pouco histérica, e meio democrática. Eu acho que isso também não decreta a morte do humor. Ao contrário, tem muita gente vivendo muito bem dele. Você tem sucessos individuais hoje, de massa, que eram inimagináveis. Antes, não tinha humorista com avião. Hoje tem.

 

Mudou a forma de produzir, a forma de distribuir, a forma de se remunerar. Tudo hoje é conteúdo, tudo hoje é externalizado para um público, ou um possível público. Então, as questões de autocensura, dependem da pessoa. Eu acho que tem, claro, muita gente. Quem não quer causar problema, quem não quer causar incômodo, vai se policiar mais.

Quem quer também viver de causar incômodo, vai chutar o balde. Tudo é nicho, né? As pessoas me perguntam muito sobre a questão do mimimi, do politicamente correto, da culture woke... Eu falo: “você já foi num baile funk? Vai num baile funk e pergunta se alguém já ouviu falar em politicamente correto” Então é isso. Depende de qual fragmento você ocupa ou incomoda.

 

IM: O Casseta & Planeta, em seu formato original, poderia ir ao ar em 2026?

 

CM: Defina formato, porque se você pensar que são esquetes, paródias, comentários sobre o cotidiano, isso pode ir em qualquer época. Mas se formato incluir linguagem, não, porque a linguagem muda. Temas que não existiam, portanto, não eram questionáveis, hoje passaram a existir, e portanto, serem questionáveis. Questões que já foram levantadas, hoje não fazem o menor sentido. As formas de fazer também mudaram, pelas tecnologias... naquela época não tinha rede social, não tinha TikTok, não tinha muita coisa. Várias coisas que a gente se apropriava como pauta, assunto, linguagem, vinham da mídia de massa, que era televisão. Quando o programa que nos sucedeu anunciou que ia ser um novo TV Pirata, eu brinquei que o TV Pirata tinha 30 anos, já não podia ser novo. Até porque o TV Pirata trazia como novidade zoar com a própria televisão. A geração anterior vinha mais da rádio, do teatro, do circo. A televisão já não era mais novidade quando a gente acabou, já teve um intenso declínio. Na época, quando você entrava num apartamento de classe média alta, em cada cômodo tinha uma televisão, na casa do cachorro tinha televisão. Hoje, a televisão está passando na telinha, que o Faustão falava, hoje é no celular.

 

Então não faz sentido fazer o Pasquim de novo, fazer a Revista do Barão de Tararé de novo, fazer o Casseta e Paneta de novo, no sentido de fazer novamente. Agora, você ter programa com esquetes rápidos, a gente foi revolucionário nisso. A gente tinha programas de 26 minutos, 28 minutos e 30 quadros, 40 quadros, quadros de 30 segundos, já era um pouco TikTok. A ideia é tentar fazer o novo, o “de novo” já tem muita gente fazendo.