( Xavier Lorenzo/Getty Images)
Colunista
Publicado em 17 de março de 2026 às 22h43.
Atendendo ao pedido do presidente do Banco Central do Brasil e no meu papel de cidadão, decidi repensar os juros altos no Brasil. A provocação de Gabriel Galípolo é emblemática e deveria, de fato, ocupar mais espaço no debate público. Fala-se muito sobre o nível elevado de juros e sobre a atuação do Banco Central, muitas vezes como se houvesse algum tipo de conluio institucional para manter a taxa artificialmente alta, como se juros elevados beneficiassem alguém em particular ou como se existisse uma classe de rentistas organizada, capaz de determinar a taxa básica no país. Essa narrativa é sedutora, mas está longe de ser verdadeira.
Juros não são definidos por vontade, mas por condições macroeconômicas. O juro brasileiro é alto, fundamentalmente, porque a poupança doméstica é baixa e porque o governo gasta muito. A combinação dessas duas coisas é explosiva. Se a poupança é escassa, alguém precisa abrir mão de consumo presente para viabilizar consumo futuro — e isso só acontece mediante remuneração adequada. Essa remuneração é a taxa de juros. Ela será tão maior quanto maior for a demanda por recursos para financiar investimento privado e, sobretudo, quanto maior for a necessidade de financiar o setor público.
Um governo que gasta muito e entrega déficits recorrentes concorre diretamente com o setor privado pelo mesmo volume de recursos. Além disso, ao ampliar a dívida, ele eleva o risco percebido pelos financiadores. E risco maior exige prêmio maior. Quem financia a dívida pública não é uma entidade abstrata: é a própria sociedade, via fundos de investimento, bancos, fundos de pensão e poupadores em geral. Juros mais altos, nesse contexto, não são privilégio de alguém, mas o preço de um desequilíbrio coletivo.
Também é uma falácia imaginar que bastaria reduzir a taxa básica “na marra” para que o equilíbrio da economia permanecesse o mesmo. O Banco Central define a taxa de curtíssimo prazo — a Selic de um dia —, mas os juros relevantes para consumo, investimento e financiamento público são formados na curva a termo, que depende de expectativas de inflação, trajetória fiscal e risco-país. Reduzir a taxa de um dia não altera, por decreto, o juro de longo prazo se os fundamentos não acompanham.
O que temos observado recentemente é ainda mais revelador: tem sido necessário um nível maior de juros para produzir o mesmo efeito desinflacionário. Isso é, em grande medida, consequência do impulso fiscal. Quando o governo expande gastos de forma direta ou indireta, estimula a atividade além do que a economia comporta de maneira sustentável. Na prática, há mais demanda para o mesmo nível de juros, o que obriga a política monetária a ser mais contracionista para controlar a inflação.
E esse impulso não vem apenas do gasto orçamentário tradicional. Ele também aparece em políticas parafiscais, no uso do balanço de estatais, em programas de crédito subsidiado e no chamado crédito direcionado. Quando uma parcela relevante da economia toma crédito a taxas artificialmente menores — por exemplo, ao redor de 11% ao ano — enquanto o crédito livre opera a taxas muito mais altas, reduz-se a sensibilidade da economia à Selic. Parte dos agentes fica menos exposta ao canal tradicional da política monetária. Resultado: para conter a mesma inflação, é preciso um juro básico ainda maior.
No fim das contas, juros elevados no Brasil não são um capricho, nem uma conspiração, nem um erro operacional do Banco Central. São um sintoma. Têm causa identificável. Refletem baixa poupança, elevado gasto público, risco fiscal e distorções de crédito. Discutir juros sem discutir gasto é olhar apenas para o termômetro e ignorar a febre.
Se a provocação do presidente do Banco Central servir para qualificar esse debate, ela já terá prestado um grande serviço. Porque a resposta, gostemos ou não, é simples: juros altos têm origem fiscal. E enquanto não enfrentarmos esse ponto com seriedade, seguiremos debatendo o efeito e poupando a causa. Em economia, atalhos retóricos não reduzem juros — disciplina fiscal, sim.