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A retomada da América para a direita: Trump, Bukele, Milei e os desdobramentos rumo a 2026

A economia deverá ocupar posição central, especialmente em temas como crescimento sustentável, equilíbrio fiscal e competitividade

Javier Milei, presidente da Argentina, durante evento militar em 7 de fevereiro (Sebastián Granata/EFE)

Javier Milei, presidente da Argentina, durante evento militar em 7 de fevereiro (Sebastián Granata/EFE)

Instituto Millenium
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Instituto Millenium

Publicado em 1 de abril de 2026 às 20h23.

Por João Loyola

 

O cenário político recente das Américas revela uma reorientação ideológica em direção a agendas associadas à direita, ao conservadorismo cultural e à redução do papel do Estado na economia, ainda que com variações importantes entre países. Esse movimento não constitui um bloco homogêneo, mas pode ser interpretado como parte de um mesmo momento histórico marcado pela erosão da legitimidade de modelos políticos anteriores. Em diferentes contextos nacionais, amplos setores sociais passaram a perceber esses modelos como incapazes de responder de forma eficaz a problemas persistentes como insegurança, baixo crescimento, inflação, perda de renda, corrupção e distanciamento entre elites dirigentes e a sociedade.

Nesse ambiente, abriu-se espaço para lideranças que se apresentam como alternativas de ruptura, propondo reconstrução da autoridade política e reordenamento das prioridades do Estado. A emergência ou o retorno de figuras como Donald Trump, Nayib Bukele e Javier Milei expressa não apenas vitórias eleitorais isoladas, mas também um reposicionamento mais amplo do debate público em torno de temas como soberania nacional, combate ao crime, reforma do Estado e rejeição ao establishment. O elemento comum entre esses casos está menos na identidade de seus programas e mais na capacidade de canalizar a insatisfação social em projetos políticos que prometem ordem, confronto com estruturas tradicionais de poder e revisão de consensos consolidados nas últimas décadas.

Nos Estados Unidos, Donald Trump consolidou um realinhamento eleitoral iniciado em 2016, baseado na combinação de conservadorismo cultural, proteção à indústria doméstica, retórica nacionalista e ceticismo em relação a instituições multilaterais. Sua trajetória capturou sentimentos de frustração com a globalização, com a perda de competitividade industrial e com a percepção de distanciamento entre o governo federal e a classe média trabalhadora. Mais do que um fenômeno circunstancial, o trumpismo redefiniu a gramática da direita norte-americana, reorganizando prioridades, linguagem e critérios de lealdade dentro do Partido Republicano. Pautas como controle migratório, segurança de fronteiras, reindustrialização e disputa geoeconômica ganharam centralidade.

A questão central deixou de ser apenas o impacto de Trump como indivíduo e passou a envolver o grau em que o trumpismo se tornou estrutural. Evidências indicam que essa inflexão ultrapassou sua figura pessoal e passou a moldar expectativas, estratégias eleitorais e percepções sobre o papel do Estado e da política externa, sugerindo que se consolidou como uma linguagem duradoura da direita nos Estados Unidos.

Na América Central, Nayib Bukele tornou-se símbolo de uma agenda centrada na segurança pública e na centralização decisória. Em El Salvador, seu governo adotou políticas de encarceramento em massa e medidas de exceção no combate às gangues, com amplo respaldo popular. Ao mesmo tempo, essas estratégias tensionam salvaguardas institucionais e levantam preocupações sobre erosão democrática. Para parcelas significativas da população, os resultados na redução da violência justificam tais medidas; para críticos, criam precedentes perigosos de fragilização institucional.

O principal desafio do bukelismo reside em sua sustentabilidade. Resultados rápidos em segurança possuem forte capacidade de legitimação, sobretudo em sociedades marcadas por anos de violência. No entanto, com o tempo, o apoio tende a depender da capacidade de

garantir estabilidade econômica e institucional. O teste será transformar autoridade concentrada em ordem duradoura, sem que a exceção se torne regra permanente de governo.

Na América do Sul, Javier Milei representa uma inflexão ao colocar no centro do debate uma crítica radical ao intervencionismo estatal. Diferentemente de outras experiências de direita na região, sua agenda prioriza o liberalismo econômico, a disciplina fiscal e a redução do Estado. Sua ascensão ocorreu em um contexto de inflação crônica, crise de confiança e desgaste político, convertendo descontentamento social em demanda por ruptura.

O desafio decisivo surge na implementação. A agenda de transformação depende da capacidade de enfrentar resistências políticas e sociais, além dos custos associados ao ajuste econômico. A viabilidade do mileísmo dependerá menos da força retórica e mais da capacidade de estabilizar a economia, recompor expectativas e sustentar apoio social suficiente para evitar frustração política.

Em outros países do continente, observa-se um quadro heterogêneo. No Chile, o avanço conservador reflete fadiga com agendas reformistas e preocupação crescente com segurança e custo de vida. No Peru, a instabilidade política fortaleceu discursos anticorrupção e desconfiança em relação às elites tradicionais. No México e na Colômbia, há reorganização de forças de direita e centro-direita em reação a agendas progressistas, com foco em estabilidade econômica e prudência fiscal. Esses processos indicam que o reposicionamento político é gradual, desigual e marcado por disputas de narrativa.

Apesar das diferenças, Trump, Bukele e Milei compartilham traços relevantes, como discurso antiestablishment, uso intensivo de redes sociais e mobilização em torno de antagonismos claros. Ainda assim, não formam um bloco ideológico uniforme. O elemento que os unifica é a capacidade de transformar a crise de legitimidade das elites em linguagem política de ruptura.

Esse fenômeno revela menos uma convergência doutrinária e mais uma dinâmica de reação a arranjos institucionais percebidos como ineficazes. Elementos como conservadorismo, nacionalismo ou liberalismo econômico aparecem como formas específicas pelas quais essa energia de contestação se organiza em cada país.

A América Latina, nesse contexto, funciona como um laboratório de respostas políticas a crises simultâneas, como violência urbana, baixo crescimento, desorganização fiscal e descrédito político. A guinada à direita não ocorre em vazio ideológico, mas como reação a limites enfrentados por governos anteriores. Trata-se menos de adesão ideológica uniforme e mais de uma alternância crítica em busca de ordem, estabilidade e prosperidade.

Esse cenário influencia diretamente o debate político brasileiro rumo a 2026. O Brasil tende a se inserir nesse ciclo como um caso híbrido, combinando polarização, desgaste das mediações tradicionais e instituições complexas. Diferentemente de outros países, possui sistema partidário fragmentado e estrutura federativa que dificulta a adoção linear de modelos externos.

A economia deverá ocupar posição central, especialmente em temas como crescimento sustentável, equilíbrio fiscal e competitividade. O país se aproxima de 2026 em um contexto de desaceleração, juros elevados e debate renovado sobre produtividade e qualidade do gasto público. A agenda de reformas continuará sendo eixo de tensão entre visões intervencionistas e propostas orientadas ao mercado.

A segurança pública também tende a ganhar destaque, diante de desafios relacionados ao crime organizado. Experiências externas influenciam o debate, mas sua aplicação no Brasil é limitada por um arranjo institucional mais complexo. O desafio será equilibrar demanda por resultados com respeito ao Estado de Direito.

Além disso, a disputa sobre o papel do Estado deverá polarizar posições, envolvendo temas como gasto público, estatais e políticas sociais. Esse embate pode reorganizar alianças políticas e redefinir o eixo ideológico da eleição.

A dinâmica eleitoral também será marcada por personalização da política e uso intensivo de comunicação digital. A capacidade de construir narrativas mobilizadoras, formar coalizões e apresentar projetos econômicos críveis será decisiva para a governabilidade.

A retomada da América para a direita, portanto, não deve ser interpretada como simples repetição de modelos, mas como expressão de um ciclo de insatisfação social que assume formas diversas. Mais do que resultados eleitorais imediatos, o que está em jogo é a forma de legitimação do poder nas democracias americanas: se os próximos anos produzirão Estados mais eficazes e sociedades mais estáveis, ou se abrirão espaço para maior concentração de poder, polarização e instabilidade institucional.