O modelo de inovação com startups mais utilizado pelas empresas

Felizmente já vivemos a realidade de empresas tradicionais realizando negócios com startups, trazendo para a prática o conceito de ecossistema de inovação
 (Getty Images/scyther5)
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Por Inovação na práticaPublicado em 24/03/2022 17:28 | Última atualização em 29/03/2022 20:35Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Inovação aberta já não é mais novidade para muitas empresas. A visão da empresa trabalhando sozinha na busca por inovação está ficando cada vez mais no passado. Parte dessa evolução é explicada pela dificuldade de ter todos os recursos necessários para inovar trabalhando exclusivamente para ela de maneira eficiente. Além disso, o timming de desenvolvimento é cada vez mais curto, sendo impossível manter o ciclo de entregas necessários alinhados com a necessidade de evolução e velocidade necessária.

Muitas empresas já entenderam os desafios da transformação digital e estão buscando, através de uma visão de ecossistema de inovação, a resposta para isso. Uma boa métrica é estabelecer o que chamamos de startup gap, ou seja, quais e quantas tecnologias em diferentes partes do negócio que utilizamos poderiam ser melhoradas com a aplicação de novas disponíveis no ecossistema.

Basicamente consiste em uma reflexão organizada e sincera sobre como ela trabalha hoje versus como poderia trabalhar com as possibilidades em desenvolvimento ou já desenvolvidas pelo ecossistema de startups.

Quanto maior a empresa, maior o número de processos, e, consequentemente, maior a chance de haver o startup gap. Setores mais tradicionais também tendem a ter maiores gaps e oportunidades.

Vejamos alguns exemplos de diferentes setores. As fintechs representam oportunidades de redução de gaps para problemas relacionados à operação de instituições financeiras através de suas soluções que utilizam abordagens de inteligência artificial para construir modelos preditivos de combate a fraudes, produtos mais adequados para cada cliente, taxas de crédito, experiência em plataformas digitais e muitas outras.

O setor da saúde também vive sua transformação para criar inteligência na operação e cuidar cada cliente como se fosse único. A medicina avança para trazer mais precisão aos tratamentos através de uma abordagem individualizada e preditiva, coletando dados através da medicina genômica, wearables, modelos de cuidado personalizados e digitais.

A educação está em processo de transformação do modelo tradicional para incorporação intensa de tecnologia e experiências de forma combinada. O metaverso promete trazer novas possibilidades para criar novas maneiras de interagir com os alunos. Modelos de negócios digitais de educação são fontes de desenvolvimento de apps de micro learning, escolas especializadas para desenvolvimento de habilidades para o trabalho, sistemas de gestão e aprendizado.

Felizmente, hoje já vivemos a realidade de empresas tradicionais realizando negócios com startups, trazendo para a prática o conceito de ecossistema de inovação. Nos últimos anos, houve um aumento significativo de empresas estabelecidas realizando pocs, pilotos, investimentos, aquisições, etc... com startups.

Há diferentes formas de realizar essa conexão com o ecossistema de startups. A lógica de construção do ecossistema e das interações pode ir desde interações breves como hackthons e eventos até a estruturação de fundos de corporate venture capital com visão de longo prazo nos investimentos realizados.

Quero destacar um modelo em especifico que tem sido bastante utilizado pelas empresas brasileiras:  o chamado venture client.

Nesse formato, a empresa estabelecida realiza experimentos para validar tecnologias e modelos de negócios desenvolvidos pelas startups, normalmente endereçando algum desafio previamente priorizado. O nome venture client, vem do fato da empresa normalmente ser um dos primeiros clientes da startup e aposta na nova solução desenvolvida por ela para resolver algum problema ou testar novas oportunidades alinhadas com a estratégia de inovação da empresa.

Vale destacar alguns pontos importantes nesse formato de relação:

  1. Idealmente o modelo deve ser sistematizado/gerenciado: uma empresa estabelecida e uma startup vivem realidades diferentes, de maneira que a relação entre elas pode não funcionar sem o devido método/processo.
  2. Os agentes envolvidos precisam ter clareza dos objetivos da relação: o tipo de relação determina os ativos a serem trocados entre a empresa e a startup. No venture client normalmente a relação não envolve exclusividade, visa resolver um problema/oportunidade específica num formato de contratação de serviços.
  3. Pessoas dedicadas coordenam o programa, porém o ideal é rodar localmente: quem vive o problema/oportunidade tende a fazer uma melhor contribuição na relação com a startup e, consequentemente avaliar o potencial de ganhos da solução.
  4. Mapear o ecossistema de maneira a encontrar as melhores soluções: nesse formato queremos startup que podem ajudar a resolver os desafios, e não aquelas que estão em fase muito inicial, somente buscando ajuda (ainda que a evolução do produto/serviço da startup ocorra com os aprendizados da relação e contato com os executivos da empresa). Atualmente, lançar um programa e esperar que as startups se inscrevam não é suficiente. A busca ativa pelas melhores soluções com fit ao desafio é fundamental.
  5. Executar de forma disciplinada os testes: planejamento, organização e disciplina para realizar os testes é muito importante para uma boa avaliação das soluções. Isso passa por uma boa gestão dos experimentos e preparação das pessoas que irão conduzi-los.

O formato de relação venture client cria uma relação ganha-ganha importante para todos os envolvidos. A empresa consegue trazer agilidade, novas ideias, tecnologias e soluções para seus desafios. As startups geram receita, colocam novos clientes nos seus portfólios e validam/refinam ainda mais suas soluções. Seja você trabalha em uma corporação ou startup, e ainda não utilizou o modelo, vale a pena experimentar!