O papel do mercado financeiro na transição verde

"Se, por um lado, a transformação verde resulta em oportunidades de negócio, por outro, não é possível ignorar o desafio em desmontar a economia linear"
 (Thithawat_s/Getty Images)
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Por Impacto SocialPublicado em 17/05/2022 09:00 | Última atualização em 13/05/2022 13:58Tempo de Leitura: 3 min de leitura
O conteúdo desse blog é gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental. 

Por Andrea M. A. F. Minardi*

A transição para um mundo net zero, isto é, capaz de reduzir as emissões e compensar as residuais com sumidouros naturais ou sistemas de captura e estocagem, em 2050 é fundamental para limitar o aquecimento global a não mais que 2°C. Trata-se, no entanto, de tarefa não trivial. Requer uma transformação radical das atividades poluentes e o envolvimento de vários atores. Se, por um lado, a transformação verde resulta em oportunidades para novos negócios, por outro, não é possível ignorar o grande desafio em desmontar e transformar a cultura e economia linear (extração, produção e descarte). Segundo a McKinsey, essa transformação demandará investimentos da ordem de US$ 275 trilhões entre 2021 e 2050, uma média US$ 9,2 trilhões por ano. Esse volume vultuoso de investimento, entretanto, é bem menor do que custará se nada for feito e os cenários catastróficos se tornarem realidade.

O mercado financeiro tem um papel fundamental nessa transição. Sustentabilidade não é um estado, mas um processo. Uma empresa, mesmo que tenha atividades controversas hoje, deve ser julgada pela maneira que seus investimentos, cronogramas de projetos e desinvestimentos contribuirão para essa transição e interferirão em sua resiliência a problemas socioambientais. Por exemplo, empresas de mineração, siderurgia, concreto, petroquímicas são parte do problema, mas também da solução. Por um lado, essas atividades podem trazer danos ao meio ambiente, mas, por outro, são necessárias para produção de baterias elétricas, construção de parques eólicos e solares e tantas outras infraestruturas necessárias para a nova economia. É essencial que essas empresas sejam socialmente responsáveis e tenham um plano claro de investimentos e desinvestimentos que serão realizados para se tornarem net zero até 2050, com metas intermediárias. O mesmo ocorre para empresas que oferecem energia renovável e para as que produzem carros elétricos.

Duas grandes tendências permitirão aprimorar a integração dos aspectos ESG (sigla para o termo em inglês ambiental, social e governança) na tomada de decisão de investimento: o desenvolvimento da tecnologia de big data e inteligência artificial, que torna as informações mais confiáveis e permite análises muito mais robustas; e a maior transparência, confiabilidade e comparabilidade dos relatórios de sustentabilidade corporativa, obtidos com uma maior uniformização de métricas e padrões de reporte, e integração aos relatórios financeiros.

O papel do mercado financeiro, portanto, vai muito além de meramente oferecer ETFs e fundos que selecionem ou excluam ativos com base em ratings ESG. Investidores podem financiar vários dos projetos necessários na transição, assim como influenciar empresas a se tornarem mais sustentáveis. Quanto mais gestoras e instituições financeiras adotarem uma visão sistêmica para integrar aspectos ESG na avaliação e tomada de decisão de investimentos, mais as práticas sustentáveis estarão refletidas no preço das ações e títulos de dívida, tornando o custo de capital mais barato (caro) para empresas com melhores (piores) práticas; mais efetivo será o engajamento corporativo na influência, acompanhamento e cobrança de desempenho do conselho de administração e dos gestores de empresas nas ações para a transição verde e maior volume será destinado ao financiamento dessa migração, com o aprimoramento do desenho de produtos e instrumentos financeiros.

*Andrea Minardi é professora do Insper. Leciona e pesquisa ativos alternativos e finanças sustentáveis. Em 2018, seu nome foi incluído no “Women to Watch: Beyond the Deal” pelo WSJ por sua contribuição com a indústria de Private Equity no Brasil.