Migração forçada influencia políticas sociais adotadas por empresas?

Desafios sociais como os postos por uma crise migratória influenciam as decisões estratégicas tomadas no âmbito corporativo?
 (Khanchit Khirisutchalual/Getty Images)
(Khanchit Khirisutchalual/Getty Images)
Por Impacto SocialPublicado em 05/04/2022 10:00 | Última atualização em 01/04/2022 16:04Tempo de Leitura: 3 min de leitura

Por Leandro Nardi*

A trágica invasão da Ucrânia pela Rússia de Vladimir Putin criou uma crise social de proporções catastróficas. Em particular, a guerra recolocou preocupações acerca de migração forçada e pessoas refugiadas no centro do debate social na Europa. Dados do Alto-Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (UNHCR) sugerem que o número de refugiados que deixaram a Ucrânia desde o início da invasão russa já supera a marca dos 4 milhões. Nesse contexto, vale questionar: desafios sociais como os postos por uma crise migratória influenciam as decisões estratégicas tomadas no âmbito corporativo?

Em estudo recente, conduzido em coautoria com a professora Marieke Huysentruyt (HEC Paris)**, estudamos essa pergunta empiricamente. Mais especificamente, examinamos em que medida a exposição de uma corporação a questões ligadas à migração forçada influencia a adoção, pela mesma organização, de políticas socialmente orientadas. Nesse contexto, uma enorme dificuldade metodológica é determinar quais firmas estariam mais (ou menos) expostas à crise migratória — um problema social complexo e de difícil delimitação.

Com o intuito de endereçar essas dificuldades, utilizamos uma estratégia empírica baseada em eventos trágicos envolvendo refugiados e migrantes ilegais. Estes eventos constam na base de dados conhecida como The Migrants’ Files, a qual lista eventos trágicos, noticiados nas mídias tradicionais­­, nos quais um ou mais refugiados são mortos ou desaparecem. Exemplos incluem embarcações que viraram durante travessias ou distúrbios que ocorreram nos abrigos a refugiados. Tomando-se esses eventos como referência principal, nossa abordagem empírica assume que corporações europeias com sedes localizadas em regiões próximas a esses eventos estão mais expostas à trágica realidade da migração forçada quando comparadas a corporações similares localizadas a uma maior distância.

Usando essa abordagem, nossos resultados sugerem que uma maior exposição aos desafios da migração forçada pode alterar substancialmente o portfólio de políticas socialmente orientadas de uma corporação. Mais especificamente, firmas cujas sedes estão mais próximas dos eventos trágicos tendem a elevar a adoção de políticas sociais com menor materialidade financeira — isto é, com menor potencial para gerar ganhos financeiros à corporação — e a reduzir, relativamente, a adoção de políticas mais materiais quando comparadas a firmas com sedes mais distantes. Mostramos, ainda, que os portfólios de políticas socialmente orientadas das firmas mais expostas também tendem a se tornar mais focados em políticas que beneficiam empregados e a comunidade ­­— e menos focados em políticas orientadas a clientes ou ao meio ambiente. No mais, este padrão se mostra amplamente consistente com evidências anedóticas e qualitativas.

Em suma, nosso estudo pode ser visto como uma primeira tentativa de se compreender como problemas sociais que muitas vezes são vistos como “menos relevantes” para corporações, como é o caso de migração forçada, fome e pobreza extrema, dentre muitos outros, podem influenciar as decisões estratégicas dessas empresas, notadamente no que diz respeito à adoção de políticas de responsabilidade socioambiental.

*Leandro Nardi é research fellow do Society & Organizations Institute – HEC Paris, pesquisador visitante no Ethics and Social Responsibility Initiative – INSEAD, pesquisador associado ao Insper Metricis e possui doutorado em Economia dos Negócios pelo Insper (2021

**Nardi, L., Huysentruyt, M. 2022. Corporate social responsibility, financial materiality, and the challenges of forced migration: Evidence from tragic refugee incidents in Europe. Working paper.