Como gestores influenciam a recuperação em rupturas em cadeias de suprimentos?

Alguns estudos têm investigado como o comportamento pode influenciar a manutenção de um fornecedor após uma ruptura na cadeia de suprimentos
 (sorbetto/Getty Images)
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Impacto SocialPublicado em 22/09/2022 às 08:30.

O conteúdo desse blog é gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental. 

Por Fernando Picasso*

A capacidade das cadeias de suprimentos serem resilientes pode estar em boa parte relacionada a como os gestores dessas cadeias lidam com alguns eventos. Em outras palavras, o comportamento desses gestores pode influenciar a forma com que as cadeias de suprimentos respondem e se recuperam de rupturas como a causada pela covid-19. Alguns estudos têm investigado[1], por exemplo, como o comportamento pode influenciar a manutenção de um fornecedor após uma ruptura na cadeia de suprimentos.

Em pesquisa que conduzi recentemente[2], conversei com gestores para entender como eles e seus parceiros respondem a rupturas nas cadeias de suprimentos. Algo que chamou a atenção foi o comportamento deles frente a esses eventos. Por exemplo, dois gestores da indústria de embalagens demonstraram comportamentos completamente distintos nas respostas que deram durante o processo de recuperação de suas cadeias de suprimentos. Um deles demonstrou um comportamento mais reativo, passivo e indiferente respondendo a rupturas. Por exemplo, durante a greve dos caminhoneiros, em 2018, esse gestor decidiu “esperar e ver o que iria dar”. Em suas próprias palavras, “não há nada que nós possamos fazer... Eu não tenho nada a ver com isso”. Durante a ruptura causada pela covid-19, esse mesmo gestor teve um comportamento agressivo com seus fornecedores, prejudicando a colaboração entre eles e possivelmente levando a períodos maiores de falta de insumos e matéria-prima.

Já o outro gestor demonstrou um comportamento positivo e proativo, usando as rupturas em sua cadeia de suprimentos como oportunidades de aprendizado e desenvolvimento de novos negócios. Durante a greve dos caminhoneiros, esse gestor teve um comportamento mais ativo e colaborativo com seus parceiros, usando essa experiência para lidar melhor com eventos similares no futuro. Durante a ruptura causada pela covid-19, ele disse: “neste ano, nós temos uma grande oportunidade com alguns clientes para fornecer alguns produtos... Quando temos um grande problema, nós temos muitas oportunidades”. Segundo ele, durante a pandemia, os resultados de seus negócios cresceram cerca de 20%.

Analisando mais de perto os comportamentos desses dois gestores, podemos atribuir parte da diferença descrita ao conceito de locus de controle[3]. Em linhas gerais, esse conceito discute que as pessoas atribuem o controle de um evento a elas ou a fatores externos. As pessoas que atribuem o controle de eventos a elas tendem a lidar melhor com situações complexas, aprendendo com essas experiências, pois acreditam que têm influência maior nos resultados do que aquelas que atribuem o controle das situações a fatores externos.

Comparando a resiliência das cadeias de suprimentos das quais esses gestores fazem parte, a capacidade de responder e se recuperar foi maior onde o gestor teve um comportamento proativo e positivo durante rupturas, atribuindo para si parte da responsabilidade da resposta e recuperação. Esses exemplos nos mostram que o tipo de comportamento frente a crises pode ser o fator determinante para se atingir um resultado, seja positivo ou negativo. Como disse Epicteto (filósofo estoico grego): “o que importa não é o que acontece, mas como você reage”.

*Fernando Picasso é doutor em administração pela FGV – EAESP e professor no Insper, onde leciona as disciplinas de Gestão da Cadeia de Suprimentos e Riscos e Resiliência em Cadeias de Suprimentos. Seus temas de pesquisa incluem sustentabilidade e risco e resiliência em cadeias de suprimentos.


[1] Link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1016/j.jom.2018.07.001

[2] Link: https://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/31540

[3] Link: https://www.psychologytoday.com/us/basics/locus-control