Cadeias de suprimentos que transformam: das engrenagens mecanicistas ao impacto social

As cadeias nos fornecem bens e serviços essenciais ao mesmo tempo em que, em muitos casos, prejudicam o meio ambiente e a sociedade
 (corall consultoria/Corall Consultoria)
(corall consultoria/Corall Consultoria)
Por Impacto SocialPublicado em 01/06/2022 13:17 | Última atualização em 01/06/2022 15:25Tempo de Leitura: 3 min de leitura
O conteúdo desse blog é gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental.

Por Vinícius Picanço*

Motivadas pelas recentes rupturas globais – da covid-19 às mudanças climáticas e a guerra na Ucrânia – empresas, estudiosos e governos passaram a olhar para o contexto mais amplo em que as complexas cadeias de suprimentos se inserem. A vacina que se coloca disponível, o alimento que chega à mesa e os equipamentos que apoiam o aprendizado são alguns dos exemplos de bens que percorrem engenhosas e complicadas cadeias. Elas nos fornecem bens e serviços essenciais ao mesmo tempo em que, em muitos casos, prejudicam o meio ambiente e a sociedade de formas, muitas vezes, irreversíveis.

Na visão mecanicista dominante, as cadeias são obras complexas e previsíveis da engenharia. O foco principal dessa abordagem é a redução brutal de custos, seja de insumos ou mão-de-obra. De acordo com essa concepção, pessoas são meros recursos e o meio ambiente é apenas uma fonte (inesgotável, diga-se de passagem) de matérias-primas ou então o objeto de externalidades com as quais as cadeias não precisam aprender a lidar. Mas os riscos e as rupturas contemporâneas nos mostram que estamos perto de um esgotamento dessa mentalidade.

Estudiosos e praticantes da área começam a defender uma visão de “cadeias transformativas”. Um dos proponentes mais vocais dessa empreitada, Andreas Wieland, professor da Copenhagen Business School, reinterpreta as cadeias de suprimentos como sistemas socioecológicos dinâmicos, nos quais a tomada de decisão é subjetiva e pautada por uma gestão que valoriza a experimentação, a variedade de possíveis futuros e a visão holística. O objetivo deixa de ser a visão cega de crescer e gerar uma suposta estabilidade do sistema e passa a ser usar a diversidade de opções e estratégias como forma de transformar, social e ecologicamente, a realidade atual. Wieland nos lembra que cadeias de suprimentos são sistemas simultaneamente vulneráveis e nocivos.

As vulnerabilidades às quais as cadeias estão irremediavelmente expostas se acumulam dia a dia. Comecemos por onde elas são reféns daquilo que mais causam: mudanças climáticas. Apenas oito cadeias produtivas são responsáveis por mais de 50% de emissões globais de gases de efeito estufa. E todas as projeções apontam que as rupturas decorrentes das mudanças climáticas serão mais adversas que as causadas pela pandemia.

Por outro lado, os danos que as cadeias provocam trazem graves riscos aos direitos humanos fundamentais: populações vulneráveis no Congo extraem cassiterita e outros minerais em condições trágicas de trabalho, funcionários se aglomeram em fábricas têxteis do Sudeste Asiático e práticas de escravidão moderna e trabalho infantil persistem em cadeias agroalimentares no Brasil.

É hora de abandonarmos a visão mecanicista das cadeias, que nos impede de enxergar as pessoas que as compõem e que são servidas por elas. As cadeias não são máquinas programáveis, mas organismos vivos que afetam e são afetados pelo ambiente maior em que vivem. Elas começam e terminam em pessoas, com seus conflitos, dilemas e restrições. No fim do dia, as cadeias só podem transformar a realidade se, antes disso, nossa visão sobre elas for fundamentalmente transformada.

*Vinícius Picanço é Ph.D. em Engenharia pela Technical University of Denmark (DTU) e professor de operações e sustentabilidade do Insper.