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Rastreabilidade ganha peso no acesso da carne brasileira a mercados premium

Com exigências crescentes de China e União Europeia, comprovar a origem do gado se torna fator competitivo para acesso nos mercados de maior valor

 (PABLO PORCIUNCULA/AFP/Getty Images)

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Publicado em 7 de abril de 2026 às 17h29.

As exportações brasileiras de carne bovina atingiram um novo patamar em 2025, com 3,50 milhões de toneladas embarcadas e US$ 18,03 bilhões em receita, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). A China se mantém como principal destino, com 48% do volume exportado e gerando US$ 8,90 bilhões em receita.

Já a União Europeia, mesmo com menor participação no volume exportado (128,9 mil toneladas), se destaca pela maior capacidade de pagamento. Dados do Instituto Mato-Grossense da Carne (IMAC), com base na Secretaria de Comércio Exterior (Secex), indicam preço médio de US$ 6.082,14 por tonelada em fevereiro de 2026, acima dos valores praticados por mercados como China e Oriente Médio, consolidando o bloco como destino de maior valor agregado para a carne brasileira.

Juntos, esses mercados combinam escala e valor, vetores centrais da estratégia exportadora do setor. Por isso, mudanças nas condições de acesso passam a funcionar como critérios de seleção no acesso aos mercados, com impacto direto sobre a competitividade da carne brasileira. É nesse ponto que as exigências externas começam a convergir, ainda que a partir de lógicas distintas.

Dois levantamentos recentes do Radar Verde, indicador de transparência da cadeia bovina na Amazônia, avaliaram o desempenho socioambiental de plantas frigoríficas da Amazônia habilitadas a exportar para a China e a União Europeia. Os resultados ajudam a explicar a capacidade de manter e ampliar acesso a esses mercados e apontam uma janela de oportunidade competitiva, sobretudo em relação aos fornecedores indiretos, que são as fazendas de cria, recria e engorda do gado, principal vulnerabilidade da cadeia.

Entre as 31 plantas frigoríficas da Amazônia habilitadas a exportar para a China avaliadas pelo Radar Verde, 21 apresentaram baixo nível de controle da cadeia e 20 demonstram monitorar as fazendas fornecedoras diretas, que vendem diretamente para os frigoríficos ou abatedouros. Nenhuma respondeu ao questionário Radar Verde, o que contrasta com as diretrizes de transparência estabelecidas pela China Meat Association.

No caso da União Europeia, o diagnóstico segue a mesma direção. Entre as 15 plantas frigoríficas da Amazônia habilitadas para esse mercado, todas localizadas em Mato Grosso, 13 foram classificadas com baixo controle sobre sua cadeia e 12 demonstram algum nível de monitoramento das fazendas fornecedoras diretas, mas nenhuma apresentou evidências robustas, como auditorias externas, de controle sobre as fazendas fornecedoras indiretas.

Essa lacuna ganha peso econômico quando considerada à luz dos dados de mercado. Em um contexto em que a União Europeia remunera melhor a carne exportada e a China concentra o maior volume, a incapacidade de comprovar a origem do gado deixa de ser apenas um problema de conformidade e passa a representar risco direto de perda de receita e de participação nos principais destinos.

A China Meat Association estabelece que empresas devem evitar a compra de produtos oriundos de áreas com alto risco de desmatamento e que a rastreabilidade deve alcançar fazendas fornecedoras indiretas. A introdução de mecanismos como cotas tarifárias sobre a importação de carne bovina, voltadas à proteção de produtores locais, contribui para um ambiente mais restritivo de acesso ao mercado chinês.

Nesse contexto, critérios como rastreabilidade e controle da cadeia tendem a ganhar relevância na seleção de fornecedores. Na União Europeia, o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) exige que operadores demonstrem, com evidências verificáveis e geolocalização, que os produtos não estão associados ao desmatamento. Essa exigência se estende a todos os estabelecimentos pelos quais o animal passou, não apenas à última fazenda antes do abate. A previsão é de que grandes e médios operadores precisem estar em conformidade a partir de dezembro de 2026.

Embora diferentes em natureza, essas abordagens passam a operar, na prática, como um mesmo filtro econômico, no qual a capacidade de comprovar, de ponta a ponta, a origem do gado se torna determinante. E é justamente nesse aspecto que os novos relatórios do Radar Verde convergem. Nenhuma das plantas frigoríficas avaliadas apresentou evidências consistentes de monitoramento das fazendas fornecedoras indiretas.

O Brasil dispõe de instrumentos relevantes para construir essa rastreabilidade, como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), a Guia de Trânsito Animal (GTA), o Sistema Brasileiro de Identificação e Certificação de Origem Bovina e Bubalina (SISBOV), iniciativas estaduais e compromissos firmados no âmbito do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) do Ministério Público.

O desafio, como mostram as análises, está na incapacidade de integrá-los em um sistema verificável e escalável. Os estudos apontam limitações na validação do CAR, na rastreabilidade da cadeia e na disponibilidade de dados auditados. Em conjunto, esses fatores indicam um problema de governança e integração de dados.

Mesmo regiões que não exportam diretamente para determinados mercados permanecem expostas a essas exigências, na medida em que integram a cadeia de fornecimento de estados exportadores, o que amplia o alcance dos riscos e reforça a necessidade de soluções sistêmicas.

A convergência de exigências entre China e União Europeia cria um incentivo claro para que empresas avancem na rastreabilidade de suas cadeias. Empresas frigoríficas que conseguirem demonstrar controle efetivo sobre as fazendas fornecedoras indiretas e adotar práticas de transparência ativa tendem a se posicionar melhor em um cenário de crescente seletividade comercial.

As exigências, portanto, são conhecidas. É preciso capacidade de resposta em um ambiente em que acesso a mercado e captura de valor estão cada vez mais condicionados à rastreabilidade. Para o setor, a escolha pode ser tratar como uma pressão externa a ser contestada ou como um direcionamento a ser incorporado.