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Plano federal coloca o Brasil na rota dos grandes conflitos sociais e dos desastres ambientais

A Avaliação Estratégica do Plano Nacional de Logística ignora necessidades e impactos das populações locais, além dos riscos e alternativas ambientais

 (GEOTAB/Divulgação)

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Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 11h13.

O Plano Nacional de Logística 2050 foi instituído prometendo uma mudança importante na forma como o Brasil vem pensando sua infraestrutura de transportes. Pela primeira vez, o planejamento deixa de começar por uma lista de obras e passa a tentar responder a uma pergunta aparentemente simples, mas essencial para definir as prioridades de investimento: quais são, afinal, os problemas do sistema de transportes brasileiro?

Essa mudança não é trivial. Ao olhar para além dos corredores de exportação, incluindo o mercado interno, o transporte de passageiros e questões estruturais do sistema, o PNL 2050 amplia o campo de visão do planejamento. Soma-se a isso a abertura ao diálogo com a sociedade, por meio de consultas públicas e encontros regionais, algo ainda raro em políticas de infraestrutura no país. São avanços reais, que merecem ser reconhecidos.

A Avaliação Estratégica do Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050) disponibilizada pelo Ministério de Transportes demonstra o progresso conquistado. Mas é justamente por avançar que o plano precisa ir além. O documento apresentado ainda contém lacunas que podem comprometer sua capacidade transformadora.

Entre as principais, está a ausência de uma abordagem prospectiva robusta. A impressão é de que o diagnóstico ainda está excessivamente ancorado nos problemas do cenário atual, o que tende a resultar em um conjunto de projetos voltados a resolver gargalos presentes. Isso é importante, mas insuficiente para um plano que se propõe a orientar decisões até 2050.

Problemas podem ser resolvidos propondo novas rotas, e para isso é preciso fazer projeção de futuro. Sem essas abordagens, o risco é consolidar projetos já existentes ou em curso, reproduzindo padrões históricos de ocupação e uso do território, em vez de orientar escolhas estratégicas que preparem o país para os próximos 25 anos.

Outra lacuna relevante está exatamente na ausência do mapeamento sistemático de riscos e impactos socioambientais no diagnóstico. Questões como desmatamento, emissões de gases de efeito estufa, impactos sobre ecossistemas, territórios indígenas, comunidades tradicionais e populações vulneráveis não são abordadas de forma profunda.

Essa omissão fragiliza o diálogo do PNL 2050 com metas nacionais e internacionais de desenvolvimento sustentável e enfrentamento das mudanças climáticas. É fundamental considerar o papel indutor importante que a infraestrutura exerce sobre a dinâmica territorial. Desconsiderar essa abordagem é uma fragilidade central.

Sem considerar as necessidades e os impactos para as populações locais, o plano privilegia o interesse de um punhado de grupos econômicos em detrimento da sociedade brasileira. E quando desconsidera as vulnerabilidades ambientais, e não oferece alternativas com menor impacto, é um convite ao desastre.

Estamos falando de obras monumentais cortando áreas da floresta Amazônica, por exemplo. Trechos de floresta fundamentais para o meio de vida da população local, para o equilíbrio climático do planeta e para a produção de chuvas do Brasil - que já está em queda e precisa ser protegida. Um plano nacional com essa envergadura que ignora os aspectos sociais e ambientais é um convite a investimentos atravancados por disputas judiciais. O capital alocado nessas empreitadas corre o risco de se perder. O Brasil se prepara para obras custosas - com orçamentos estourados, prazos descumpridos, destruições irreversíveis e grandes prejuízos para economias regionais. E muitos conflitos.

É preciso que o planejamento dê mais esse passo. Há um esforço inegável de mudança em curso, mas sem projeções de longo prazo, sem critérios claros e sem a incorporação explícita dos riscos socioambientais, o PNL 2050 corre o risco de se tornar um plano bem-intencionado, porém pouco transformador.

A infraestrutura molda territórios, economias e modos de vida por décadas. Além de versar sobre escoamento de cargas, é preciso dialogar com políticas climáticas, com a proteção de biomas e com o direito das populações afetadas e com o futuro que o país deseja construir. Esses elementos são essenciais para que o PNL 2050 se torne, de fato, um instrumento capaz de orientar escolhas públicas responsáveis, eficientes e alinhadas ao futuro que o país deseja construir.