Exame logo 55 anos
Remy Sharp
Continua após a publicidade

Escolha bem sua carne

Agora é possível diferenciar os frigoríficos brasileiros segundo seu nível de controle do desmatamento. Essa é nossa ferramenta para salvar a Amazônia

Frigoríficos começam a desenvolver programas para rastrear sua cadeia em busca das ilegalidades (Wenderson Araujo/Trilux/Sistema Senar-CNA/Divulgação)
Frigoríficos começam a desenvolver programas para rastrear sua cadeia em busca das ilegalidades (Wenderson Araujo/Trilux/Sistema Senar-CNA/Divulgação)

O desmatamento da Amazônia é uma tragédia em vários níveis. Ameaça o clima do planeta, as chuvas do Brasil, destrói nosso patrimônio natural e possibilidades de ganhos com produtos da floresta. Além disso, quase todo desmatamento é ilegal e está associado a outros crimes, principalmente o roubo de terra pública, a grilagem. O desmatamento também é desnecessário. Há terra sobrando já aberta e improdutiva para toda produção agrícola presente e futura. 

Como deter essa tragédia em andamento? Uma das ações mais importantes pode ser promover a limpeza do setor da pecuária brasileira. Hoje praticamente todo o desmatamento está associado à abertura de pastagens. Boa parte delas acabam abandonadas depois que a fertilidade do solo temporária do solo com as cinzas da floresta queimada se esgota. E há evidências de que os bois criados em cima das cinzas da floresta entram na cadeia de fornecedores de carne. Retirar os desmatadores ilegais da cadeia é um grande desafio para o setor. São dezenas de milhares de fazendas espalhadas por uma região equivalente a 60% do território brasileiro. Em seu ciclo de vida, os bois passam por quatro a dez fazendas antes de chegar na planta para abate. 

Apesar dos desafios, alguns frigoríficos começam a desenvolver programas para rastrear sua cadeia em busca das ilegalidades. É importante reconhecer o tamanho do desafio, o quanto se avançou, quem está na frente e quem ficou para trás. O relatório lançado pelo projeto Radar Verde lançou a primeira luz sobre esse processo de limpeza da nossa carne. O estudo avaliou as 132 empresas frigoríficas que atuam na Amazônia e os 69 maiores supermercados do país.

Os pesquisadores avaliaram as informações disponíveis nos sites das empresas para ver o quanto comprovaram políticas e ações para retirar os ilegais da cadeia de fornecimento. O frigorífico com melhor resultado foi a Marfrig. Em seguida, um grupo composto porFrigorífico Rio Maria, JBS SA, Masterboi, Minerva, Frigol, Mafrinorte, Fribev, Mercurio, Fortefrigo e Frigorífico Altamira, todos empatados. Esses foram os que demonstraram ter já algum grau de controle dos fornecedores diretos, as fazendas que vendem direto para as plantas de abate. Entre os grupos varejistas, o melhor resultado foi do GPA. Em seguida, um grupo empatado com Assaí, Carrefour e Cencosud Brasil. Essas também foram as únicas empresas que demonstraram controle da última fazenda da cadeia, a que vende para o abate. 

Os resultados mostram o famoso copo meio cheio e meio vazio. No copo meio cheio, é possível ver que há empresas com avanços. No meio vazio, a maior parte das empresas não progrediu nada. Além disso, nenhuma empresa voluntariamente respondeu o questionário com avaliação. Ou seja, elas ainda não demonstraram sua transparência.

O mais importante é que agora toda a sociedade tem um instrumento para diferenciar as empresas. Agora os consumidores podem saber quem privilegiar em suas escolhas. Agora os bancos têm como avaliar para quem conceder crédito e em quais condições. Agora os investidores podem avaliar as promessas de cada empresa antes de comprar seus papéis. Agora os grandes clientes corporativos, como redes de restaurantes e fast-food, podem decidir quem irá fornecer sua carne. Agora os importadores de carne do Brasil poderão saber como estamos e quem terá sua preferência. Agora, nós todos saímos do estado de falta de informação e podemos exercer nosso poder de livre escolha.