Extrativismo de semente Murumuru no Rio Amazonas no Amapa - Press Trip - Macapa - Natura - WEG Foto: Leandro Fonseca 23/05/2025 (Leandro Fonseca /Exame)
Colunista
Publicado em 23 de junho de 2026 às 12h43.
Historicamente, a ocupação da Amazônia se deu por um modelo econômico de desenvolvimento predatório. Tão predatório que há pouco a dizer sobre desenvolvimento — pelo menos no que há de comum com o conceito de progresso.
Por um lado, a exploração de recursos naturais, baseada em atividades extrativistas e agropecuárias, que concentra empregos informais e de baixa qualificação, enquanto transforma floresta em pasto. Por outro lado, subsídios massivos para a instalação de grandes empresas e trabalhadores na região, como acontece na Zona Franca de Manaus, cuja competitividade está ancorada em incentivos fiscais.
Além disso, uma presença dominante de estruturas de gestão em municípios com baixa capacidade de arrecadação, em geral incapazes de arcar com a própria folha de pagamento sem transferências federais. O efeito desse padrão de ocupação é um mercado de trabalho pouco dinâmico e altamente dependente do setor público e de políticas sociais.
A combinação desastrosa entre problemas fundiários e infraestrutura precária também fomenta um ambiente de negócios que estimula a ilegalidade e afasta bons investidores. Por isso, o setor privado, quando chega à Amazônia, é fraco e incapaz de absorver trabalhadores qualificados.
A população local, sobretudo quem tem ensino superior, acaba presa a dois caminhos: ou vai para o setor público, mais estável e melhor pago, ou deixa a região em busca de melhores oportunidades — de trabalho e de vida, a famosa ‘fuga de cérebros’. No fim, são eles as vítimas de um futuro predestinado.
Em números, na Amazônia Legal, mais de 67% dos trabalhadores com ensino superior no emprego formal estão no setor público. Já no restante do país esse percentual não chega a 43%. O dado faz parte do estudo As portas de entrada do emprego formal na Amazônia, publicado pelo projeto Amazônia 2030, que analisa a estrutura do mercado de trabalho formal na região com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), tendo 2018 como ano de referência. Entender esse cenário é fundamental para avaliar as oportunidades de renda e os padrões de inclusão produtiva do território.
Embora reúna 13% da população brasileira, a Amazônia responde por somente 9% dos empregos formais do país. Em 2018, apenas 18,7% dos amazônidas tinham um emprego formal, contra 28,4% no restante do Brasil. A diferença reflete a menor presença do setor privado formal na região.
O estudo prova ainda que os empregos formais mais qualificados e bem pagos estão concentrados no setor público, com protagonismo particular dos governos estaduais. Isso expõe a fragilidade fiscal de longo prazo desse arranjo. O Brasil está literalmente pagando para ver um colapso que já se anuncia.
Vale destacar, porém, que os resultados se referem exclusivamente ao emprego formal registrado no Rais. Empreendedorismo e trabalho por conta própria, assim como outras formas alternativas de inserção no mercado de trabalho, não foram captadas pelo levantamento.
Aqui, fica claro o peso dos governos estaduais na absorção de trabalhadores qualificados. Entre os empregados com ensino superior no setor público da Amazônia Legal, 42,5% estão vinculados aos governos estaduais, enquanto no restante do Brasil a proporção cai para 33,1%.
Além disso, os economistas Gustavo Gonzaga e Vinícius de Sá, autores da pesquisa, apontam que os servidores estaduais atuam majoritariamente em funções administrativas. Entre aqueles com ensino superior, 29,2% trabalham nessa área, número quase três vezes maior do que no restante do Brasil, onde o percentual é de 10,2%.
Diferenças salariais expressivas também explicam o maior peso do setor público entre trabalhadores qualificados. Após controlar fatores como experiência, escolaridade, gênero, raça, setor de atividade e localização, o estudo constatou que o setor público paga, em média, 46% a mais do que o setor privado na Amazônia Legal, frente a 28,6% no restante do país.
O prêmio salarial - diferença média de remuneração entre os dois setores - é ainda mais elevado quando olhamos para o caso dos governos estaduais: na Amazônia ele chega a 55,7% em relação ao setor privado, contra 12,7% no restante do país.
Na prática, o setor privado paga relativamente menos na região, intensificando um mercado de trabalho que não diversifica oportunidades nem impulsiona bons empregos fora do setor público.
Em síntese, os resultados comprovam um mercado de trabalho formal pouco dinâmico e fortemente dependente do Estado, em situação pior que a do resto do país, marcado pela fragilidade do setor privado e pela dificuldade de absorção de mão de obra qualificada.
Mudar o modelo econômico da Amazônia é para ontem. Precisamos dar passos rápidos em direção a um padrão menos dependente do setor público e um setor privado mais diversificado, capaz de gerar mais empregos. Investir em uma boa infraestrutura de telecomunicações e serviços básicos é parte central dessa caminhada - seja para atrair investimentos em setores com alto potencial de empregabilidade, seja para fortalecer o desenvolvimento da cadeia de produtos da floresta.
A Amazônia tem potencial para liderar uma nova matriz econômica com foco na floresta em pé, ela não precisa ficar presa a um modelo ecologicamente, socialmente e economicamente insustentável.