COP30: primeira conferência climática realizada na Amazônia deve unir o capital privado ao potencial da floresta e às soluções com base na natureza (Leandro Fonseca /Exame)
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Publicado em 16 de março de 2026 às 16h55.
Última atualização em 16 de março de 2026 às 16h55.
Pela primeira vez no Brasil, um Plano Nacional de Logística, no caso o 2050, incorpora os produtos da sociobiodiversidade no sistema logístico nacional, já em sua análise estratégica. Esta inclusão não é trivial.
Ela representa o reconhecimento, no principal instrumento de planejamento de transportes do país, de que há uma economia viva na floresta que depende de infraestrutura de transportes adequada para se manter e até prosperar.
Os produtos da sociobiodiversidade já entraram na análise prévia ao documento final a ser publicado pelo governo: “Avaliação Estratégica do PNL 2050: Problemas do Sistema de Transporte Brasileiro”. A investigação concentrou-se nas dificuldades de escoamento dos produtos da sociobiodiversidade (açaí, castanha-do-Pará e pirarucu) na Região Norte. E considerou como origens a Floresta Nacional do Tapajós e áreas extrativistas em Altamira (PA), as regiões do Médio Juruá e Médio Solimões (AM), o Baixo Madeira (RO), e o Alto Juruá (AC).
Para dimensionar a produção e, consecutivamente, os transportes adequados, foram utilizados, entre outros, dados do Mapeamento da Sociobioeconomia (2025), produzido pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).
O levantamento mostra que são produzidas aproximadamente 600 mil toneladas de produtos agroextrativistas na Amazônia, concentradas principalmente em três grupos: açaí, que responde por 75% desse volume; babaçu, com 13%, e castanha-do-Pará, com 4%. Trata-se de uma base produtiva que sustenta milhares de famílias e articula cadeias locais de valor. Ainda, a Avaliação Estratégica indica que o investimento em 13 produtos da sociobiodiversidade pode triplicar o PIB da Amazônia Legal até 2050, alcançando R$ 38,6 bilhões, potencial ainda limitado por gargalos logísticos.
O principal entrave para esse desenvolvimento, consiste exatamente no fato de esses produtos não terem meios de armazenamento e transporte eficientes para garantir o escoamento. Devido à concentração demográfica e à base familiar e cultural dos modelos produtivos, os núcleos de produção da sociobiodiversidade distribuem-se majoritariamente ao longo das principais hidrovias da bacia do Amazonas e em áreas próximas à sua foz, revelando forte dependência do modal fluvial, que não apresenta suporte adequado para garantir fluxo, qualidade e competitividade no mercado.
O caso da Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, ilustrado no documento, mostra de forma concreta esses desafios. São 923 famílias, distribuídas em 21 comunidades tradicionais e três aldeias indígenas ao longo do rio, que dependem da BR-163 e das hidrovias do Tapajós e do Amazonas para se deslocar e comercializar produtos como castanha, açaí, cumaru e farinha de mandioca.
Faltam barcos de transporte coletivo, pontos adequados de transbordo e estruturas compatíveis com cargas sensíveis e perecíveis. O perfil tarifário e operacional dos portos regionais, voltado a fluxos industriais, agrícolas e minerais de grande escala, pouco dialoga com pequenos lotes comunitários que exigem rapidez e cuidado para preservar qualidade e valor.
As hidrovias, portanto, não são apenas uma alternativa logística entre outras. São a infraestrutura estruturante da sociobioeconomia amazônica. Conectam comunidades, viabilizam o transporte de insumos e garantem o escoamento da produção. Também asseguram o abastecimento cotidiano e o acesso a direitos básicos, como saúde e educação. Entretanto enfrentam cada vez mais desafios como estiagens prolongadas, redução da profundidade dos rios, falta de sinalização, escassez de portos adequados para passageiros e cargas de pequeno porte e competição com barcaças de escoamento de produtos da monocultura como soja e milho e da mineração.
Historicamente, o planejamento de transportes no Brasil priorizou corredores de exportação de grãos e minérios, conectando áreas de produção da monocultura aos grandes portos. Ferrovias e rodovias federais também foram desenhadas com essa lógica. Para romper esse contexto de planejamento, é essencial reconhecer o acesso aos transportes de carga como vetor estruturante da sociobioeconomia, contribuindo para a inclusão produtiva, a redução das desigualdades regionais e o fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis.
Ao incluir, pela primeira vez, a produção extrativista vegetal na região da Amazônia Legal no planejamento estratégico, identificando gargalos como custos logísticos e barreiras estruturais enfrentadas pela sociobiodiversidade, o PNL 2050 abre uma janela de oportunidade de orientar investimentos em infraestrutura que atendam às necessidades das pessoas que vivem na região.
Investimentos em infraestrutura portuária adequada para o escoamento desses produtos, sistemas de monitoramento hidrológico, sinalização e serviços de apoio à navegação, associados a análises e critérios socioambientais, são fundamentais para garantir o direito de ir e vir das populações locais e assegurar que o transporte funcione durante todo o ano, viabilizando o escoamento desses produtos essenciais para manutenção da floresta em pé e da economia regional.
A emblemática Amazônia possui produção, economia própria e enorme potencial de geração de renda. Se o reconhecimento presente na análise estratégica do PNL 2050 se traduzir em diretrizes, metas e investimentos concretos, o país poderá alinhar logística, conservação e desenvolvimento territorial. Incluir os produtos da sociobiodiversidade e a participação de quem vive na floresta no planejamento logístico nacional é, em última instância, uma decisão sobre o modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende consolidar.