Dos combustíveis ao fator imobiliário: os gargalos que impactam o desempenho ESG da cadeia logística

Como manter a velocidade do fluxo de mercadorias desde a fonte produtora até o consumidor, utilizando as alternativas de transporte menos poluentes
Combustíveis: a presença de caminhões a gás natural e veículos elétricos de entrega têm crescido em volume e em importância (Jeff Pachoud/AFP/AFP)
Combustíveis: a presença de caminhões a gás natural e veículos elétricos de entrega têm crescido em volume e em importância (Jeff Pachoud/AFP/AFP)
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Genoma ImobiliárioPublicado em 15/09/2022 às 07:23.

André Romano*

Não é novidade que as empresas, pressionadas pelos critérios de ESG (meio ambiente, social e governança) e por consumidores cada vez mais exigentes, tenham reavaliado seus produtos e suas características de sustentabilidade. Essa preocupação, agora, está se estendendo para toda a cadeia produtiva e de suprimentos, em busca de solução de baixo impacto de carbono. Um ponto sensível para todas as operações nesse quesito é a logística. A questão que se apresenta é: como manter a velocidade do fluxo de mercadorias desde a fonte produtora até o consumidor, utilizando as alternativas de transporte menos poluentes possíveis?

A presença de caminhões a gás natural e veículos elétricos de entrega têm crescido em volume e em importância. O uso dessas alternativas é parte dos testes de soluções de baixo ou zero carbono para transporte intermodal que as empresas estão realizando. Há também o investimento em pesquisas para desenvolvimento de combustíveis mais sustentáveis. Empresas como H&M Group e Levi Strauss & Co são exemplos de financiadores do Lignin Ethanol Oil (LEO), um biocombustível sob medida para ser usado como parte de uma solução futura para transporte sustentável. Já organizações como Heineken, FrieslandCampina, Unilever, DSM e      Philips eram parte de uma iniciativa para criação de biocombustíveis que evoluiu para o primeiro serviço de cabotagem carbono-neutro, desenvolvido pela Maersk.

Dentro de uma cadeia de suprimentos, temos vários agentes produtores de CO2. Os meios de transporte (caminhões, navios etc.) e o maquinário (empilhadeiras, sorters, prensas etc.) são os mais evidentes, mas há também um fator pouco lembrado, que é o componente imobiliário dessa equação, em particular das edificações. Apesar de menos visível, esse      é um contribuinte significativo. Segundo relatório da JLL, 38% das emissões de carbono que contribuem para o aquecimento global são provenientes de edificações (sendo 28% de emissões da operação e 10% dos materiais de construção).

No mercado imobiliário, já possuímos iniciativas consagradas de instituições preocupadas em estudar e orientar os desenvolvedores a construírem de forma mais sustentável. A mais conhecida talvez seja o Green Building Council e sua famosa certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design). Recentemente, o World Economic Forum, em parceria com a JLL, lançou um plano de ação para guiar as empresas na implementação de inciativas carbono zero e para a transformação de seu portfólio imobiliário dentro desses novos critérios.

As iniciativas de neutralização de carbono que permeiam toda teia da cadeia de suprimentos são um grande indício de que a sustentabilidade não é mais um tema      para "cumprir tabela", já que essas ações são menos visíveis para os consumidores finais. Pelo menos 1/5 das 2.000 maiores empresas negociadas em bolsa já se comprometeram com metas de carbono zero num horizonte entre 10 e 20 anos. Nomes como Pepsico, CVS Health e Astrazeneca, além da própria JLL, estão no rol das companhias que assumiram esse compromisso.

A próxima etapa é como transformar essas metas em realidade. Fazer a transição para um supply chain neutro em carbono exige aporte financeiro. Num mundo cada vez mais competitivo e com margens cada vez mais apertadas, esse é um desafio repleto de complexidades, mas que se faz premente. Em breve, metas não serão mais suficientes para demonstrar os compromissos de sustentabilidade das empresas, em especial, em concorrências acirradas que possuem exigências rígidas.

Do ponto de vista imobiliário, em que os contratos de locação ou implementações fabris são pensados no médio/longo prazo, ganham espaço os desenvolvedores que já colocam em prática as melhores ações de sustentabilidade, como energia renovável e uso de matérias-primas não poluentes. Eles saem na frente em um mercado crescente e que se consolida olhando, cada vez mais, para os detalhes de toda a cadeia produtiva, em uma prova de que, para ser “verde”, é preciso estar atento a tudo que envolve o seu negócio.

*André Romano é gerente da Divisão Industrial, Logística e Data Center da JLL.