Empreendedorismo social para mudar o olhar sobre o sucesso dos negócios

"Queremos um mundo onde o sucesso das empresas esteja interligado com a capacidade delas de olhar para questões sociais com proatividade"
 (Intpro/Getty Images)
(Intpro/Getty Images)
R
Rodrigo Santini

Publicado em 26/04/2022 às 18:38.

Última atualização em 27/04/2022 às 14:45.

Por Francine Lemos, Diretora do Sistema B Brasil, e Sérgio Serapião, CoPresidente do Conselho do Sistema B Brasil  

As definições de sucesso precisam ser atualizadas. Queremos um mundo onde o sucesso das empresas esteja interligado com a capacidade delas de olhar para questões sociais com proatividade, colocando o potencial de transformação e o impacto positivo como pilar para geração de negócios.

A sociedade como a conhecemos hoje expõe seus problemas sociais e pede às empresas que coloque esforços na resolução deles de forma contínua, afinal, como já sabemos, a responsabilidade com o social não é só papel do poder público.

O empreendedorismo social vem assumindo a liderança dos movimentos do mercado que representam S do ESG. Para termos uma ideia, em 2017 eram 579 empresas de impacto social positivo no Brasil; em 2021, foram registradas 1272, de acordo com o Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental pela Pipe.Social, o que representa um crescimento de 219% em 5 anos.

Nesse cenário, vale destacar que não estamos falando de oportunidades iguais. Negócios de impacto que têm origem na periferia, por exemplo, têm até 37 vezes menos acesso a investimentos iniciais - de acordo com estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas.

Pensando em contribuições com resultados perenes por parte de grandes empresas, vemos que aliar impacto positivo ao posicionamento estratégico e ao planejamento de ESG pode ser mais efetivo quando ações de intraempreendedorismo reverberam dentro do segmento da instituição.

O horizonte de como as organizações podem se mobilizar está dado, basta olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Algumas empresas conseguem criar soluções, às vezes de forma coletiva, para endereçar esses desafios; como alguns cases de Empresas B que vamos compartilhar.

Recentemente as Empresas B Grupo Gaia, Din4mo e Incorporadora MagikJC idealizaram o Projeto SOMA, com apoio de  Dexco (antiga Duratex), Gerdau, Movida, P4 Engenharia e Votorantim Cimentos. Em alinhamento com a ODS 11, de Cidades e Comunidades Sustentáveis, em prol da garantia de habitação digna e acessível e tendo em vista desafios do centro de São Paulo que, de acordo com dados do IBGE 2015, a fila da habitação no município tem mais de 1 milhão de inscritos e estima-se que 46 mil famílias em 206 ocupações.

A sigla SOMA quer dizer Sistema Organizado de Moradia Acessível e, na prática, significa a construção de um prédio para aluguel de apartamentos a preços acessíveis para dar acesso à moradia digna no coração da cidade a famílias de menor renda. O modelo é escalável, mas um detalhe importante é que o prédio terá uma gestão social ativa. O empreendimento ficará sob administração de uma organização sem fins lucrativos, cocriada pelo Sistema B e pelas empresas idealizadoras, que vai garantir sua razão social e prezar por um modelo que empodera famílias e estimula a mobilidade social.

Outro case é o Programa Vivenda, que surgiu com o propósito de resolver o problema de moradias saudáveis dentro das favelas. Hoje, a empresa é uma holding, que agrega uma plataforma, uma aceleradora e um instituto a fim de endereçar soluções para o déficit habitacional e às mais de 41 milhões de domicílios de famílias de baixa renda no Brasil, conforme consta na Tese de Impacto Social em Habitação da Artemisia. Em parcerias com grandes empresas, conseguem oferecer produtos importantes para impermeabilização, por exemplo, a preços mais baixos. E com 8 anos de história é um case relevante no país nesse segmento.

Representando empreendimentos sociais com foco no ODS 8 - Trabalho Decente e Crescimento Econômico - a Empresa B Movimento Eu Visto O Bem realiza um trabalho inspirador com mulheres egressas do sistema prisional, que segundo relatório da Infopen Mulheres 2017 no estado de São Paulo somam mais de 12 mil, representando mais de 30% da população prisional feminina do país. Visando potencializar a oferta de trabalho para essas mulheres em situação de vulnerabilidade social, o resultado da iniciativa foi transformar uma empresa que produzia roupas e artigos têxteis a partir de sobras de tecidos nesse movimento. A empresa atualmente produz roupas e acessórios têxteis mediante parceria com outras empresas.

No meio corporativo sabemos que intenção não é ação, nem significa resultado. São as métricas que irão contribuir para que esse mercado possa ser ampliado e que o impacto social seja transformado em um modelo de negócio de êxito.

Por isso destacamos a importância de mensurar resultados, inclusive para apoiar investidores na tomada de decisão; para tal existem algumas metodologias, além de ferramentas para ajudar na criação de estratégias de ESG como a B Impact Assessment (BIA) do Sistema B.

Medir o impacto para expandir a transformação, esse é nosso desejo. Esperamos que a preocupação social seja incorporada nos negócios, seja através da criação de novas empresas ou pela mudança de paradigma de corporações tradicionais. Esse movimento precisa crescer, e tem a ver com a nossa capacidade de basear nossas decisões no efeito que podem causar na vida de tantas pessoas. Sabemos que o que trouxe o impacto social até aqui foi o brilho no olhar de quem se enxerga parte da transformação, e isso sim é sucesso.