Sobre foguetes, círculos e quadrados (ou como recrutar em startups)

Se o seu foguete é uma startup, o recrutamento é decisivo para que seu supersônico viaje rumo ao destino, e não contra parede ou em direção ao fundo do mar
Mundo dos negócios: o time, como um todo, precisa estar bem coordenado, remando em sintonia, com velocidade, rumo a um objetivo em comum.  (Mark Wilson/Getty Images/Getty Images)
Mundo dos negócios: o time, como um todo, precisa estar bem coordenado, remando em sintonia, com velocidade, rumo a um objetivo em comum.  (Mark Wilson/Getty Images/Getty Images)
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Florian HagenbuchPublicado em 25/08/2020 às 09:53.

Um foguete necessita atingir, em média, 28.440 quilômetros por hora para entrar em órbita. Diversas peças, com diferentes funções, precisam atuar em perfeita harmonia a fim de escapar da gravidade terrestre, que o puxa sempre para baixo. 

A trajetória do Ônibus Espacial Challenger, em 1986, exemplifica o risco desse processo. Durante a decolagem, o design de uma pecinha de plástico chamada “O-ring” causou um dos mais chocantes desastres aéreos da humanidade - o Challenger se despedaçou depois de apenas 73 segundos no ar. 

A tragédia conduziu às reflexões de Michael Kremer, economista idealizador da Teoria O-ring. Nela, Kreamer enfatiza a importância de trabalhar colaborativamente em torno de qualquer tarefa, evitando possíveis fricções com o objetivo final. Daí é só um pulo para fazermos um paralelo com o mundo dos negócios: o time, como um todo, precisa estar bem coordenado, remando em sintonia, com velocidade, rumo a um objetivo em comum. 

E se o negócio em questão é uma startup, devo dizer que o lema “cada peça é importante” vale muito mais. Explico: uma startup em estágio inicial, com até 100 funcionários, deve crescer 10% ao mês. Quando ela supera este estágio e entra em modo de ganho de escala ou de hipercrescimento, com de 100 a 1 mil funcionários, ela deve pisar no acelerador até não poder mais para a velocidade de crescimento atingir +10% por semana. E quando, então, ela chega ao estágio de “colheita”, com mais de 1 mil funcionários, ela vai bem se crescer “só” 10% ao ano.

Portanto, se o seu foguete é uma startup, o recrutamento é decisivo para que o seu supersônico viaje rumo ao destino, e não contra parede ou em direção ao fundo do mar. Encontrar cada peça, com motivação e valores alinhados, e que se encaixe nas necessidades da empresa é uma equação que aprendemos a resolver com uma arma secreta que compartilho aqui: a teoria do círculo e o quadrado.

Suponhamos que a expectativa do funcionário é um círculo e a necessidade da empresa é um quadrado. A sobreposição das duas formas gera três possíveis resultados:

(Divulgação/Divulgação)

O primeiro expressa um conflito de interesses: a expectativa do colaborador não condiz com a necessidade da empresa, gerando frustração no funcionário. No segundo, a necessidade da empresa não dialoga com a expectativa do empregado, gerando não-atingimento das metas e objetivos. O terceiro cenário promove uma intersecção entre os dois elementos, criando uma situação de felicidade do funcionário com o que a empresa precisa e requer -- essa é a sinergia que buscamos na contratação. 

No entanto, sabemos que nunca haverá uma sobreposição perfeita entre um círculo e um quadrado. Na busca por talentos, empresas se deparam com quatro situações. E apenas uma é a ideal:

1) Quadrado maior que o círculo (ou: “passo maior que a perna”) - Houve um possível erro de recrutamento ou a posição pode ter crescido mais rápido que o funcionário. Enxergamos esse cenário na contratação de profissionais inexperientes para a ocupação que irão exercer. 

2) Círculo maior que o quadrado (ou: “pouca areia para o meu caminhãozinho”) - O funcionário é maior que a posição ocupada. Por vezes, startups podem contratar profissionais “de peso”, mas não transmitem a responsabilidade apropriada para o cargo. 

3) Círculo deslocado do quadrado (ou: “match not found”) - A posição mudou ao longo do tempo, causando uma sobreposição baixa. Este cenário é o mais comum em startups de alto crescimento. Com a velocidade, é fácil que founders ou gestores não sejam tão científicos com o recrutamento e “colocam para dentro” pessoas não tão qualificadas para o posto em questão.

4) Círculo e quadrado em sobreposição (ou: “até que o crescimento nos separe”) - Representa um recrutamento bem-sucedido -- a expectativa do funcionário, de modo geral, vai ao encontro com as necessidades da empresa. 

Minha recomendação é sempre buscar o  quarto cenário.  É o menos comum em startups de alto crescimento e muda conforme a evolução do negócio. Independentemente de se conseguir a sobreposição total ou não, o que aprendi ao sempre buscá-la na seleção e gerenciamento de talentos é que ficou muito mais claro identificar problemas, como o de um profissional que não cresceu no mesmo ritmo que a empresa. Organizações crescem exponencialmente e pessoas, geralmente, têm uma curva ondulatório de aprendizado. 

Outra vantagem de aplicar esse framework no recrutamento: esse conceito fez com que as conversas sobre reorganização de áreas e profissionais fluíssem com mais facilidade e naturalidade- ou seja, deixaram de ser tabu!

Nota: todo o crédito da teoria do círculo e quadrado pertence ao meu amigo e colega Bruno Raposo