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Sua empresa pode durar 100 anos, mas você vai aguentar? O papel do Healthspan na liderança

Enquanto empresas estruturam sucessão e projetam longevidade corporativa, uma variável segue fora da agenda: a saúde física e cognitiva de quem decide

 (Divulgação/Divulgação)

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Cris Arcangeli
Cris Arcangeli

CEO da beuty'in

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 18h45.

Empresas brasileiras falam cada vez mais em perpetuidade.

Estruturam conselhos independentes, fortalecem governança corporativa, revisam acordos de acionistas e desenham planos estratégicos para atravessar gerações.

Fundos discutem longevidade empresarial. Empresas familiares organizam sucessão. Startups falam em legado.

Mas há uma pergunta que raramente entra na pauta do board: a liderança está funcionalmente preparada para sustentar esse horizonte ao longo de décadas?

Se o debate é longevidade corporativa, a variável humana não pode ser tratada como secundária.

É nesse contexto que o conceito de healthspan, termo utilizado na literatura científica para designar o período da vida vivido com saúde funcional preservada, ganha relevância estratégica.

Diferentemente de lifespan, que mede tempo total de vida, healthspan refere-se ao período em que autonomia, capacidade cognitiva e desempenho físico são mantidos sem limitações significativas.

Para executivos, isso se relaciona diretamente à consistência decisória ao longo do tempo.

O contexto demográfico reforça a relevância do tema. Projeções oficiais do IBGE indicam que, até 2050, aproximadamente um quarto da população brasileira terá 60 anos ou mais.

O envelhecimento populacional é estrutural e progressivo.

Embora não existam bases públicas consolidadas sobre a idade média de CEOs no Brasil, relatórios internacionais, como os produzidos pela Spencer Stuart, indicam que, no S&P 500, a média de idade dos CEOs gira em torno de 58 anos.

Esse dado sugere que grande parte da liderança corporativa global já se encontra em faixas etárias nas quais mudanças fisiológicas relacionadas ao envelhecimento começam a ocorrer.

Indicadores nacionais de saúde ajudam a contextualizar o cenário. Dados do Vigitel mostram que mais da metade da população adulta nas capitais brasileiras apresenta excesso de peso.

Informações do DATASUS indicam que doenças do aparelho circulatório permanecem como principal causa de morte no país.

No campo da saúde mental, a Organização Mundial da Saúde estima que depressão e ansiedade resultem em perdas globais de produtividade superiores a US$ 1 trilhão por ano.

Esses números não determinam desempenho individual, mas evidenciam que condições de saúde prevalentes têm impacto econômico mensurável em escala populacional.

No ambiente corporativo, a Organização Internacional do Trabalho destaca que transtornos relacionados ao estresse e à saúde mental figuram entre fatores relevantes associados a absenteísmo e redução de produtividade.

Associação entre saúde física e desfechos cognitivos

Em posições de alta liderança, onde decisões têm efeito sistêmico, alterações de desempenho cognitivo podem produzir impactos organizacionais amplificados. Essa relação é estrutural e independe de casos individuais específicos.

A literatura científica estabelece associações consistentes entre saúde física e desfechos cognitivos e funcionais.

Estudos epidemiológicos publicados no Journal of the American Medical Association (JAMA) identificaram associação entre maior força de preensão manual e menor risco de mortalidade por todas as causas.

A força muscular é utilizada como marcador indireto de reserva metabólica e condição funcional. Trata-se de associação estatística observacional, não de relação causal isolada.

Pesquisas conduzidas por instituições acadêmicas, incluindo a Harvard Medical School, indicam que atividade física regular está associada à preservação da função executiva do cérebro, conjunto de habilidades relacionadas a planejamento, controle inibitório e tomada de decisão.

Da mesma forma, evidências amplamente documentadas demonstram que privação crônica de sono está associada a prejuízos em atenção, julgamento e avaliação de risco. Essas relações são descritas na literatura científica como associações consistentes, embora multifatoriais.

A partir da quarta década de vida, estudos sobre sarcopenia indicam perda progressiva de massa muscular estimada entre 3% e 8% por década na ausência de estímulo físico adequado.

Paralelamente, aumentam riscos metabólicos e cardiovasculares. Essas mudanças são fisiologicamente esperadas no processo de envelhecimento, mas podem ser atenuadas por intervenções baseadas em evidência, como prática regular de atividade física e controle de fatores de risco.

Do ponto de vista empresarial, organizações investem recursos substanciais em gestão de risco financeiro, compliance e governança corporativa. No entanto, a dimensão biológica da capacidade decisória raramente é abordada de forma estruturada.

Não se trata de atribuir desempenho corporativo exclusivamente a fatores de saúde, mas de reconhecer que decisões estratégicas são tomadas por indivíduos sujeitos a variáveis fisiológicas mensuráveis.

O que influencia a alta performance

Alta performance sustentada depende de múltiplos fatores, incluindo contexto, experiência, capital humano e condições de saúde.

No ambiente empresarial brasileiro, caracterizado por volatilidade econômica e pressão regulatória, decisões são frequentemente tomadas sob estresse prolongado.

Evidências científicas indicam que estresse crônico pode afetar parâmetros fisiológicos e cognitivos, o que reforça a relevância do tema no debate sobre continuidade organizacional.

A discussão sobre longevidade corporativa avançou significativamente nas últimas décadas, com ênfase em sucessão estruturada, governança, cultura organizacional e sustentabilidade.

Entretanto, a longevidade funcional da liderança raramente é tratada como variável explícita na análise de risco.

Considerando que executivos podem permanecer em posições estratégicas por períodos extensos, a manutenção da capacidade cognitiva e física torna-se elemento relevante para estabilidade decisória no longo prazo.

A questão central não é estética, nem performance pontual. É sustentabilidade funcional ao longo de décadas.

Empresas que projetam horizontes estratégicos de longo prazo dependem da estabilidade de seus processos decisórios.

Nesse contexto, saúde funcional deixa de ser apenas tema individual e passa a integrar discussão mais ampla sobre resiliência organizacional.

A pergunta estratégica, portanto, é objetiva: ao planejar longevidade corporativa, sua empresa considera apenas estruturas formais de governança ou também reconhece que decisões são tomadas por indivíduos sujeitos a variáveis biológicas previsíveis?

A continuidade organizacional depende de múltiplos fatores. Entre eles, está a capacidade funcional de quem exerce liderança.

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