(Divulgação)
CEO da beuty'in
Publicado em 11 de agosto de 2026 às 20h04.
Última atualização em 12 de agosto de 2026 às 21h01.
O governo quer ampliar o espaço para emitir títulos públicos no exterior. A proposta enviada ao Senado prevê um limite de até US$ 35 bilhões por ano, substituindo o atual teto acumulado de US$ 100 bilhões. A notícia já foi amplamente divulgada. Mas o ponto que mais me interessa não está em Brasília. Está dentro das empresas.
Porque o empreendedor brasileiro não acompanha a instabilidade econômica apenas pelos jornais. Ele sente no caixa. Sente quando o crédito encarece, quando o consumidor adia uma compra, quando o câmbio pressiona custos, quando uma mudança regulatória altera um planejamento ou quando uma decisão de investimento deixa de fazer sentido.
Em maio, a dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,6 trilhões, equivalente a 81,1% do PIB. Em 12 meses, os juros nominais alcançaram R$ 1,111 trilhão, ou 8,48% do PIB, segundo o Banco Central.
Não se trata de dizer que emitir dívida é necessariamente errado. Governos, assim como empresas, podem utilizar financiamento para administrar necessidades e realizar investimentos. A questão é o contexto. Quando despesas pressionam o caixa e o custo do dinheiro é alto, ampliar a capacidade de financiamento não substitui a necessidade de rever prioridades, cortar desperdícios e recuperar credibilidade.
Minha conclusão, como empresária, é simples: basta. Quando a conta não fecha, é hora de cortar desperdícios, rever prioridades, preservar caixa e recuperar credibilidade.
Essa discussão interessa diretamente a quem empreende. Quando o dinheiro fica mais caro, investimentos são adiados. Quando o consumidor perde poder de compra, vendas são afetadas. Quando custos aumentam, margens diminuem. Quando as regras mudam, planos precisam ser refeitos.
A instabilidade econômica não aparece apenas em uma planilha macroeconômica. Ela entra pela porta da empresa.
O Brasil, há décadas, obriga seus empreendedores a desenvolver uma capacidade que hoje pode se transformar em uma vantagem global: operar na incerteza.
Quem constrói negócios no país aprendeu a conviver com inflação, juros elevados, burocracia, mudanças regulatórias, crises de consumo e ciclos econômicos. Aprendeu a mudar preço, produto, fornecedor, canal de venda e estratégia. Aprendeu, sobretudo, que o plano de hoje pode não sobreviver ao cenário de amanhã. Eu mesma passei por seis planos econômicos diferentes.
E aqui está a pergunta que considero mais importante:
Se empreender no Brasil exige conviver com a incerteza, por que ensinamos tanto a construir empresas e tão pouco a construir empreendedores?
Aprendemos a montar empresas, mas pouco aprendemos a construir o empreendedor que terá de sustentá-las quando tudo mudar. A maior parte dos livros de gestão ensina ferramentas, estratégia, marketing, finanças, vendas, liderança e inovação. Tudo isso é fundamental. Mas nenhuma ferramenta substitui a capacidade de decidir quando não existem respostas prontas.
Uma estratégia não elimina a incerteza. Um planejamento não impede uma crise. Uma ferramenta de inovação não cria, sozinha, a capacidade de enxergar uma oportunidade antes que ela se torne óbvia.
O empreendedor precisa desenvolver algo mais profundo: transformar problema em oportunidade, incerteza em decisão, erro em aprendizado e mudança em um novo caminho.
Essa competência será ainda mais importante porque a instabilidade deixou de ser exclusivamente brasileira. A inteligência artificial está acelerando a obsolescência de competências, produtos e modelos de negócio. Vantagens competitivas podem desaparecer rapidamente, e empresas inteiras podem precisar se reinventar em ciclos cada vez menores.
O que o empreendedor brasileiro aprendeu por necessidade pode se tornar uma das competências mais valiosas do futuro: a capacidade de reconstruir.
Foi dessa visão que nasceu Empreender Liberta, meu quarto livro: uma reflexão sobre como construir a mentalidade empreendedora capaz de identificar oportunidades, tomar decisões, adaptar-se e continuar criando valor quando as condições mudam.
Depois de décadas empreendendo em diferentes categorias e mercados, compreendi que o maior patrimônio de um empreendedor não é apenas a empresa que construiu. É aquilo que construiu em si durante essa jornada: repertório, capacidade de decisão, visão, criatividade e disposição para aprender novamente.
Empresas podem mudar. Mercados podem desaparecer. Tecnologias podem ser substituídas. Modelos de negócio podem deixar de funcionar.
Mas o empreendedor que construiu sua mentalidade não volta ao zero. Ele leva consigo aquilo que nenhuma crise consegue tirar: a capacidade de aprender, decidir, adaptar e começar novamente.
No fim, a pergunta mais importante não é qual empresa você quer construir.
É que empreendedor você precisa se tornar para continuar construindo quando o mundo mudar novamente?
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