CEO da beuty'in
Publicado em 8 de maio de 2026 às 17h49.
Durante anos, a narrativa dominante no setor de tecnologia foi clara: o PC estava perdendo relevância. A ascensão do mobile, da nuvem e das plataformas digitais parecia indicar que o computador pessoal se tornaria secundário no ambiente corporativo.
Essa leitura não apenas se mostrou incompleta, ela está sendo reconfigurada.
“O PC não morreu. Ele evoluiu.”
A frase de Ricardo Bloj durante sua participação no podcast Papo de Tubarões, sintetiza uma mudança silenciosa, mas estrutural: o computador deixou de ser apenas uma ferramenta de execução para se tornar o principal ponto de integração entre inteligência artificial, produtividade e experiência de trabalho.
No episódio desta semana, Bloj, afirma que a transformação do trabalho não está acontecendo apenas na nuvem ou nos algoritmos. Ela está acontecendo na ponta, no dispositivo.
Com o avanço da inteligência artificial embarcada, o PC volta a ganhar protagonismo. Segundo a International Data Corporation (IDC), a categoria de “AI PCs” deve liderar o próximo ciclo de renovação do mercado, com crescimento acelerado nos próximos anos.
Após um período de retração, o mercado global de PCs recuou cerca de 16% em 2022, o setor volta a ganhar tração impulsionado por inteligência artificial, segurança e produtividade.“O dispositivo passa a ser parte ativa da inteligência, não apenas um meio de acesso”, disse Bloj.
No entanto, essa retomada não é garantida. Ela depende de um fator menos tecnológico e mais estratégico: a capacidade das empresas de integrar esses dispositivos a um novo modelo de trabalho.
A discussão sobre inteligência artificial ainda gira, em grande parte, em torno da substituição. Mas, na prática, o que está acontecendo é reorganização.
Segundo a McKinsey & Company, até 30% das atividades de trabalho atuais podem ser automatizadas com tecnologias já disponíveis. Isso não elimina funções, redefine o papel humano dentro delas.
“A tecnologia não tira o protagonismo das pessoas. Ela muda onde esse protagonismo está.”
Nesse novo cenário, tarefas operacionais tendem a ser automatizadas, enquanto decisões, criatividade e interpretação ganham peso.
Apesar do avanço acelerado das ferramentas, o principal desafio não é técnico, é organizacional. Empresas já têm acesso à tecnologia. O que falta é capacidade de adaptação. Estudos da Gartner indicam que uma parcela significativa dos projetos de inteligência artificial ainda não entrega o valor esperado, principalmente por falhas de integração com processos e estratégia de negócio.
Esse desalinhamento cria um paradoxo: empresas investem mais em tecnologia, mas não conseguem traduzir isso em ganho proporcional de produtividade. Segundo a International Data Corporation, os investimentos globais em inteligência artificial devem superar US$ 500 bilhões até 2027, o que torna ainda mais crítico o uso eficiente desses recursos.
Hardware volta ao centro, mas com uma nova exigência
Durante anos, hardware foi tratado como commodity. A inteligência artificial muda essa equação. Dispositivos passam a ter papel estratégico na entrega de performance, segurança e eficiência. Chips dedicados, processamento local e integração com IA redefinem o valor do hardware dentro das empresas.
“O hardware deixa de ser suporte e passa a ser plataforma de inteligência”, disse Bloj.
Mas há um contraponto relevante: essa transformação também aumenta o custo de atualização tecnológica e amplia a dependência de ecossistemas específicos. Empresas que não equilibrarem investimento, estratégia e capacitação podem entrar em ciclos de gasto crescente sem retorno proporcional.
O impacto na produtividade, e o risco do excesso
Segundo a PwC, a inteligência artificial pode adicionar até US$ 15,7 trilhões à economia global até 2030, com ganhos expressivos de produtividade. Mas esse potencial vem acompanhado de um risco pouco discutido: a falsa sensação de eficiência.
Escalar tecnologia sem revisar processos pode apenas acelerar erros. O ganho real de produtividade depende menos da ferramenta e mais da qualidade das decisões.
A adoção acelerada de IA também cria uma nova divisão no mercado. Segundo o World Economic Forum, cerca de 44% das habilidades dos trabalhadores precisarão ser atualizadas até 2027. Isso não é apenas um desafio de qualificação. É um risco competitivo. Quem souber usar a tecnologia vai ter uma vantagem competitiva enorme. Empresas que não investirem em capacitação tendem a operar com tecnologia avançada e resultados medianos.
Assim, a combinação entre inteligência artificial, dispositivos inteligentes e novos modelos de trabalho aponta para uma mudança mais profunda do que ciclos anteriores. Não se trata apenas de digitalização. Trata-se de redefinição do trabalho.
“O desafio não é acessar tecnologia. É saber aplicá-la com inteligência.”
Nesse cenário, vantagem competitiva não virá apenas do acesso à inovação, mas da capacidade de integrá-la ao negócio com consistência.
A inteligência artificial não está substituindo o trabalho, está redefinindo como ele acontece. Nesse novo cenário, produtividade deixa de ser função de esforço e passa a ser função de inteligência aplicada. E, ao contrário do que se imaginava, o centro dessa transformação não está apenas na nuvem ou nos algoritmos. Está também no dispositivo. Porque é ali que a tecnologia encontra o usuário, e onde, de fato, o trabalho acontece.
O PC não morreu. Ele voltou ao centro. Mas não como conhecíamos. Agora, como plataforma de inteligência. E, nesse novo ciclo, não vence quem tem mais tecnologia. Vence quem consegue transformar tecnologia em decisão.
No episódio desta semana do Papo de Tubarões, Ricardo Bloj aprofunda essa discussão e mostra como a Lenovo está posicionada nesse novo ciclo de transformação.
O episódio já está no ar no YouTube, no canal @crisarcangeli, com novos episódios toda quarta-feira, às 20h.