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O erro que está destruindo marcas bilionárias antes mesmo delas existirem

Por que crescimento acelerado, impulsionado por mídia, desconto e hype, está criando empresas que vendem muito, mas falham em construir valor

 (Divulgação/Divulgação)

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Cris Arcangeli
Cris Arcangeli

CEO da beuty'in

Publicado em 17 de abril de 2026 às 15h06.

“Venda não é marca. Crescimento sem estrutura é só antecipação de problema.”

A frase resume uma distorção que se tornou comum no ambiente de negócios, e que foi tema central de discussão recente do painel que participei na última sexta-feira (10), no evento Capital Summit, em Fortaleza. Existe hoje uma narrativa confortável: a de que velocidade é sinônimo de relevância. Nunca foi. E, com o amadurecimento do mercado digital, está cada vez mais distante de ser.

Nos últimos anos, a combinação de mídia paga eficiente, influenciadores e estratégias agressivas de aquisição criou uma dinâmica: empresas conseguem escalar receita em semanas. Segundo análises da McKinsey & Company, o custo de aquisição de clientes (CAC) em canais digitais cresceu significativamente nos últimos anos, pressionando modelos que dependem exclusivamente de tráfego pago. Ao mesmo tempo, estudos mostram que empresas com baixa retenção precisam investir continuamente mais para manter o nível de crescimento.

Esse é o ponto cego. A equação fecha no curto prazo, mas rompe no médio. Venda não é marca. Viralizar não é construir valor. Crescer rápido, sem estrutura, não é escalar, é amplificar fragilidade.

O que se vê com frequência são empresas que dominam aquisição, mas negligenciam retenção. Escalam faturamento sem consolidar percepção. Crescem apoiadas em estímulos táticos, desconto, urgência, influência, mas sem desenvolver diferenciação real.

E isso cobra um preço direto na margem e na sustentabilidade.

Dados da Bain & Company indicam que aumentar a retenção de clientes em apenas 5% pode elevar os lucros entre 25% e 95%. Ainda assim, grande parte das empresas segue priorizando aquisição em detrimento de fidelização, um modelo que exige reinvestimento constante e reduz previsibilidade.

Ao mesmo tempo, o impacto dos descontos é mais profundo do que parece. Relatórios da Deloitte mostram que estratégias promocionais recorrentes tendem a reduzir percepção de valor e aumentar a sensibilidade a preço, criando consumidores que compram o incentivo, não a marca.

O resultado é um ciclo perigoso:

mais desconto → menos margem → mais dependência de volume → menos diferenciação.

E, quando o crescimento desacelera, esse modelo revela sua fragilidade.

O mercado recente está cheio de exemplos, especialmente entre marcas digitais nativas, que cresceram rapidamente impulsionadas por capital e mídia, mas enfrentaram dificuldades ao tentar sustentar operação, margem e relevância. Não por falta de marketing, mas por ausência de fundamento. Nunca houve, de fato, uma marca.

A distinção é importante

Crescimento rápido, quando sustentado por proposta de valor clara, produto consistente e estrutura operacional, pode ser uma vantagem competitiva. Mas crescimento sem esses pilares é apenas antecipação de receita futura, muitas vezes às custas da própria marca.

Construir marca é um jogo diferente. Mais lento, menos visível e, por isso mesmo, menos sedutor em um ambiente orientado por métricas de curto prazo.

Mas é o único caminho para longevidade.

Marcas que atravessam décadas não são construídas em picos de venda. São construídas em repetição, coerência e consistência. Ocupam um espaço mental no consumidor que não depende de promoção. Sustentam preço mesmo sob pressão. E mantêm relevância quando o ciclo de crescimento desacelera.

Isso exige disciplina estratégica, um ativo cada vez mais escasso.

Disciplina para proteger margem quando o caminho mais fácil é descontar. Disciplina para manter posicionamento quando o mercado pressiona por adaptação constante. Disciplina para crescer no ritmo que a operação suporta, não no ritmo que o algoritmo recompensa.

No fim, o mercado faz uma separação inevitável.

De um lado, empresas que constroem valor. Do outro, empresas que operam sobre estímulo. As primeiras demoram mais para aparecer, mas permanecem. As segundas crescem rápido, mas desaparecem com a mesma velocidade.

E o custo dessa escolha não é teórico.

Empresas que priorizam volume sem estrutura tendem a enfrentar erosão de margem, aumento de CAC, queda de retenção e perda de relevância, um conjunto de fatores que, combinados, inviabilizam crescimento sustentável.

A pergunta, portanto, deixa de ser conceitual e passa a ser estratégica:

você está construindo um ativo…ou apenas antecipando receita?

Porque, no longo prazo, o mercado não premia quem cresce mais rápido.

Premia quem sustenta o que constrói.