CEO da beuty'in
Publicado em 15 de junho de 2026 às 15h21.
Enquanto o mercado continua celebrando startups que crescem rápido, levantam capital e prometem revolucionar setores inteiros, uma mudança silenciosa começa a ganhar força no mundo dos negócios. Empresas não estão mais sendo avaliadas apenas pela velocidade com que crescem. Estão sendo avaliadas pela capacidade de sustentar esse crescimento.
E poucas histórias ilustram tão bem essa transformação quanto a de Paulo Morais, fundador da Espaçolaser, uma das maiores redes de franquias do Brasil e responsável por conduzir a companhia até o IPO, tornando-a a primeira empresa de serviços de beleza do país a abrir capital na Bolsa.
Em uma época em que o empreendedorismo parece cada vez mais associado à busca pela próxima grande ideia, Paulo construiu sua trajetória defendendo uma tese muito menos glamourosa, e talvez muito mais poderosa: "Empresas não quebram por falta de inspiração. Quebram por falta de execução”, afirmou durante sua participação no podcast Papo de Tubarões desta semana.
Essa filosofia transformou uma pequena operação iniciada em 2004 em uma companhia com centenas de unidades, presença internacional e milhões de clientes. Mas o mais interessante não é o que Paulo construiu. É o que sua história revela sobre o futuro do empreendedorismo brasileiro.
A trajetória de Paulo Morais não começou em salas de conselho, rodadas de investimento ou apresentações para investidores. Começou na periferia de São Paulo. Foi ali que ele aprendeu uma das primeiras lições que moldariam sua visão de negócios: empreender não é um exercício de glamour. É um exercício de resistência.
Aos 16 anos, viu o pai perder o escritório de contabilidade da família. A quebra do negócio trouxe dificuldades financeiras e obrigou todos a se reinventarem. Depois de ver o pai perder o negócio da família ainda na adolescência, Paulo aprendeu uma lição que carregaria por toda a carreira: crescimento sem gestão é apenas um problema maior esperando para acontecer.
A frase parece simples. Mas ajuda a explicar por que tantas empresas crescem rapidamente e desaparecem poucos anos depois. E também ajuda a entender por que negócios estruturados, com governança corporativa, cultura organizacional forte e disciplina operacional, continuam ganhando valor mesmo em cenários econômicos desafiadores.
Sem capital financeiro, ele apostou no único ativo que possuía: conhecimento. Formou-se em Direito pela USP, construiu carreira na advocacia e, ainda jovem, conquistou independência financeira ao atuar em uma causa de grande relevância. Mas o objetivo nunca foi permanecer na advocacia. O que o atraía era a construção de negócios.
Vieram experiências em diferentes setores, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Como acontece com praticamente todos os empreendedores. Até que, em 2004, surgiu a oportunidade que mudaria sua trajetória: a criação da Espaçolaser.
Na época, depilação a laser era um procedimento restrito a clínicas dermatológicas de alto padrão e acessível a poucas pessoas. O mercado era pequeno. A tecnologia ainda estava em desenvolvimento. E quase ninguém acreditava que aquele modelo pudesse ganhar escala.
Paulo acreditou. Mais do que isso: enxergou a possibilidade de democratizar um serviço que até então era considerado elitizado.
A expansão da Espaçolaser não aconteceu apenas porque o mercado cresceu. Aconteceu porque a empresa conseguiu transformar um serviço antes restrito a uma pequena parcela da população em um modelo escalável de franquias. Enquanto muitos empreendedores procuram a próxima inovação disruptiva, Paulo seguiu um caminho diferente: padronização, processos, treinamento, controle operacional e governança. Palavras que raramente aparecem nas manchetes, mas que frequentemente estão por trás das empresas que sobrevivem.
O resultado foi uma das maiores histórias de crescimento do franchising brasileiro. Sob sua liderança, a companhia expandiu sua presença pelo país, avançou para mercados internacionais e consolidou uma operação que chegou a centenas de unidades.
Em 2021, veio um marco histórico. A Espaçolaser realizou seu IPO e se tornou a primeira empresa brasileira do setor de serviços de beleza a abrir capital. Para muitos empreendedores, esse seria o ponto de chegada. Para Paulo, foi apenas mais uma etapa da jornada.
Após conduzir a transição da companhia, ele decidiu deixar a operação executiva e iniciar um novo ciclo. Nascia a PG&MP Holding. A ideia era simples: aplicar o método desenvolvido ao longo de décadas em novos negócios.
Mas o que chama atenção não é apenas a diversidade dos investimentos. É a coerência estratégica. Hoje, o ecossistema reúne empresas ligadas a saúde, bem-estar, estética, atividade física, varejo especializado e energia renovável. Todos os negócios compartilham um mesmo princípio: crescimento sustentável exige estrutura.
Essa visão aparece de forma recorrente em suas falas. Ao contrário da narrativa que domina parte do ecossistema de startups, Paulo não acredita que velocidade seja o único indicador relevante. Para ele, crescer sem processos, sem liderança preparada e sem cultura organizacional sólida costuma gerar problemas maiores no futuro.
"Empreendedorismo é 95% transpiração e 5% inspiração"
A frase resume boa parte da sua filosofia empresarial. E talvez explique por que, mesmo após construir uma empresa bilionária, ele continua começando novos projetos. "O mercado está cheio de pessoas procurando a próxima grande ideia. O difícil nunca foi ter uma ideia. Sempre foi executá-la por tempo suficiente", disse Paulo.
Talvez por isso ele se interesse tanto por temas como governança corporativa, expansão de negócios, formação de lideranças e cultura empresarial. São assuntos menos chamativos do que inteligência artificial ou inovação disruptiva. Mas continuam sendo decisivos para empresas que desejam atravessar décadas.
Durante sua participação neste episódio do Papo de Tubarões, Paulo também trouxe ainda reflexões importantes sobre a nova geração de profissionais. Segundo ele, o relacionamento entre empresas e colaboradores mudou profundamente. Os jovens buscam propósito, querem compreender o impacto do próprio trabalho e esperam lideranças mais inspiradoras do que hierárquicas.
Ao mesmo tempo, isso cria desafios para organizações que precisam manter disciplina, produtividade e consistência operacional. Ao falar sobre o tema, Paulo costuma resumir sua visão de forma direta: "Trabalho dá trabalho", enfatizou.
Pode parecer óbvio. Mas num ambiente onde velocidade, flexibilidade e imediatismo ganharam protagonismo, a frase se tornou quase uma provocação. Porque ela lembra uma verdade que continua válida independentemente da geração: resultado continua sendo consequência de esforço consistente.
Em outro momento da conversa, ele trouxe uma reflexão que dialoga diretamente com empreendedores em fase de crescimento: "A construção de um negócio não acontece no tempo de um vídeo de rede social. Ela acontece ao longo dos anos, tijolo por tijolo", afirmou. Essa talvez seja uma das mensagens mais relevantes em uma era marcada pela ansiedade do sucesso rápido.
A mesma lógica aparece quando ele fala sobre esporte, longevidade e desenvolvimento profissional. Eu sempre afirmo em minhas palestras que nenhum atleta olímpico chega ao topo sem anos de repetição. Assim, nenhuma empresa se torna líder de mercado sem milhares de decisões corretas tomadas diariamente. E nenhuma carreira extraordinária é construída apenas com talento. Existe disciplina por trás de tudo. Existe método. Existe repetição. Existe execução.
Essa visão na qual eu compartilho ajuda a entender por que Paulo continua construindo novos negócios mesmo depois de alcançar o sucesso financeiro que muitos considerariam suficiente. Para ele, empreender nunca foi apenas uma questão de retorno financeiro. É uma forma de criar valor, gerar empregos, desenvolver pessoas e transformar mercados.
Ao longo do nosso bate-papo, uma ideia apareceu repetidamente: a importância da presença do fundador. Paulo acredita que crescimento sustentável depende de acompanhamento constante, proximidade com a operação e envolvimento genuíno com o negócio. Segundo ele: "Crescer rápido sem estrutura cobra um preço alto. O que sustenta uma empresa no longo prazo é governança, cultura e formação de times preparados"
Em um momento em que muitos empreendedores buscam atalhos, a trajetória de Paulo aponta para uma direção diferente. Menos glamour. Mais consistência. "Sonhos inspiram. Mas é o suor diário que constrói empresas duradouras", garante. Essa talvez seja a melhor síntese da sua trajetória.
No fim das contas, a história de Paulo Morais vai muito além da Espaçolaser, das franquias ou do IPO. Ela ajuda a explicar uma mudança que começa a acontecer em todo o mercado.
Durante anos, investidores premiaram crescimento a qualquer custo. Agora, começam a premiar sustentabilidade, governança corporativa, cultura organizacional e eficiência operacional. Parece uma mudança pequena. Mas não é. É uma mudança de comportamento e lógica.
Porque empresas podem nascer de grandes ideias. Mas continuam sendo construídas da mesma forma de sempre: com liderança, disciplina, execução e presença constante dos fundadores.
Talvez seja por isso que, mesmo depois de construir uma das maiores histórias de crescimento do franchising brasileiro, Paulo Morais tenha escolhido começar de novo. Não porque precisava. Mas porque entende algo que os grandes empreendedores costumam descobrir cedo.
"O verdadeiro ativo de um fundador não é o negócio que ele construiu. É a capacidade de construir o próximo."
E, em um país que ainda busca modelos sólidos para crescer de forma sustentável, essa talvez seja uma das competências mais valiosas do empreendedorismo brasileiro nas próximas décadas.
Quer conhecer mais detalhes dessa trajetória e ouvir, nas palavras de Paulo Morais, as lições que o levaram da periferia de São Paulo ao IPO da Espaçolaser? O episódio completo do Papo de Tubarões já está no ar.
Toda quarta-feira, às 20h, recebo alguns dos maiores empreendedores do país para conversas francas sobre negócios, liderança e inovação.
Assista ao episódio completo no meu canal do YouTube @crisarcangeli