Brasil precisa incluir consciência cívica no debate econômico

Romper com o pensamento mágico e elaborar um projeto ético de país é um desafio para a democracia brasileira, diz Marta Porto, ex-coordenadora da Unesco
Bernardo Toro: “Não há outro mundo além do que somos capazes de construir. Toda a grandeza do Brasil, e toda a miséria do Brasil, foi construída pelos brasileiros" (C.Fernandes/Getty Images)
Bernardo Toro: “Não há outro mundo além do que somos capazes de construir. Toda a grandeza do Brasil, e toda a miséria do Brasil, foi construída pelos brasileiros" (C.Fernandes/Getty Images)
Por Marta PortoPublicado em 11/01/2022 12:05 | Última atualização em 11/01/2022 12:05Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Romper com o pensamento mágico e elaborar um projeto ético de país é um desafio para a democracia brasileira.

Em fins de 2018 entrevistei para um projeto de investigação cultural, apoiado pela Fundação Tide Setúbal, o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro. Era a terceira entrevista que ele me concedia e após um ano eleitoral tenso, escutar um dos principais intelectuais latino-americanos em temas como democracia e direitos humanos foi uma oportunidade.

Alguns dos temas que Toro abordou continuam atuais neste 2022 quando nós brasileiros iremos às urnas novamente para eleger um novo Presidente da República, governadores e os parlamentares que irão compor o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas dos Estados. Uma resposta em especial vai no cerne do desafio que enfrentamos geração após geração: “Não há outro mundo além do que somos capazes de construir. Toda a grandeza do Brasil, e toda a miséria do Brasil, foi construída pelos brasileiros. A violência na Colômbia não é porque Deus nos abandonou, porque nós temos má sorte. Ou que somos geneticamente violentos. Nada disso é verdade.

Várias gerações atrás, uma série de decisões foram tomadas que levaram à violência. E o dia que decidiram acabá-la, acabou”. Toro está discutindo o princípio da secularidade como um dos fundamentos da cultura democrática, dentre outros 5 princípios que defende como constituintes da democracia, e enuncia o que parece claro, mas que a cada eleição, nós eleitores esquecemos: somos corresponsáveis pelo Brasil que é construído todo dia. São as nossas decisões – eleitorais, comportamentais, fundadas em valores ou na ausência deles- que definem a qualidade do país que temos e teremos.

Não é complicado entender isso, mas é uma tarefa inconclusa desde o processo de redemocratização do país na década de 80. Sobrou debate econômico, que domina as pautas nacionais, e também as globais, e faltou cuidar daquilo que traz substância para um projeto democrático de país: o senso de comunidade e de consciência cívica. Falando de forma simples, perceber, entender, introjetar, que cada um dos 210 milhões de brasileiros devem ser respeitados, ter oportunidades concretas a mão, serviços públicos de qualidade disponíveis, água encanada, esgoto tratado, serviços de segurança e justiça que o tratem como cidadão e não como ameaça. Isso implica em elaborar um projeto ético para o país, onde as múltiplas identidades do povo brasileiro sejam consideradas como ativos singulares nesse caminho.

Na mesma conversa, o educador colombiano que foi peça-chave nos acordos de paz entre as Farcs e o governo do seu país, fala que a Suécia de Olof Palme [1] foi quem melhor entendeu o valor da equidade para a democracia: “Eles entenderam que, num país sem processos colaborativos, sem equidade, a democracia sempre estaria fraca. Fazemos discussões ideológicas sobre a democracia e não observamos que a equidade é um dos seus componentes fundamentais. E, em vez de lutar pela equidade, que na minha opinião é o problema, continuamos falando de discursos ideológicos, como se a democracia fosse um aparato ideológico. Isso é simplesmente um erro para mim”.

Após três anos ruins para o Brasil, manter a discussão sobre os rumos que nos levarão a algum lugar apenas no debate econômico continua sendo um erro. E vem de um instituto sueco, Variações da Democracia (V-Dem)[2], em relatório publicado em março de 2021 que contou com pesquisadores do mundo todo e do Brasil, o alerta, o Brasil é o quarto país que mais se afastou da democracia em 2020 em um ranking de 202 países. À frente apenas Polônia, Hungria e Turquia.

Sem um projeto ético que inclua imaginação e consciência cívica com o valor da equidade para pensar o presente-futuro do país, chegaremos nas urnas e após elas imbuídos do mesmo pensamento mágico que marca boa parte da nossa história e que tantas instabilidades e atraso nos trouxe. E pior, sem um desenho que olhe as múltiplas oportunidades e ativos que um país diverso ambiental e culturalmente nos traz.


[1] Primeiro-ministro da Suécia entre 1969-76 e de 1982-86.

[2] https://www.v-dem.net/