Para um novo aluno, uma educação ativista

Pedagogias inovadoras e ágeis, combinadas de acordo com cada contexto social, podem estimular os estudantes a buscar conhecimento
 (Divulgação/Divulgação)
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Crescer em Rede

2 de dezembro de 2022, 13h34

Por Luciana Allan (*) e Patricia Travassos (**)

Sempre que uma discussão informal sobre política começa, seja em uma roda de amigos ou nas redes sociais, é provável que alguém use a já batida sentença: “é preciso investir em educação”. Não importa o espectro político do interlocutor, há um ponto comum para todos. Sem educação de qualidade, é impossível formar cidadãos que refletem, votam e, principalmente, imaginam e constroem um futuro melhor.

E se é preciso pensar em um novo modelo a fim de tornar o aprendizado mais interessante aos estudantes, também é fundamental reforçar o papel do professor, dentro e fora da sala de aula. Em tempos de telas e hiperconexão, o estudante é o protagonista da história, mas, como todo herói, precisa de outros personagens para completar com sucesso sua jornada.

Tecnologia sozinha não opera milagres. Um estudante, por mais repleto de sonhos e determinado que esteja, dificilmente consegue avançar sem uma boa estrutura digital e alguém para lhe mostrar o caminho. Em um País tão desigual como o Brasil, como unir tantos saberes, máquinas e pessoas e, assim, obter um resultado positivo dentro dos espaços escolares que reflitam as melhores oportunidades de aprendizagem?

Há muitas respostas possíveis e, por isso, é importante pensarmos juntos nas melhores possibilidades de “fazer acontecer”. Uma solução, com diversos desdobramentos a serem desenvolvidos, é conectar a sala de aula às várias realidades do entorno das escolas, usando metodologias que respeitem o saber individual e coletivo, bem como leve em consideração seus cotidianos e suas aspirações.

Pedagogias inovadoras e ágeis, combinadas de acordo com cada contexto social, podem estimular os estudantes a buscar conhecimento e desenvolver habilidades para criar uma realidade estudantil fascinante e, quem sabe, promover um impacto social positivo. Com o uso das tecnologias digitais, os resultados tendem a ser melhores e mais efetivos.

O documentário “Educação Presente para o Futuro”, dirigido pela jornalista Patricia Travassos, que assina este artigo comigo e contou com minha consultoria técnica, apresenta, por meio de dezenas de entrevistas com os protagonistas dessa história, ou seja os estudantes, histórias onde a tecnologia foi um recurso propulsor para levar adiante desejos pessoais de contribuir com a construção de um mundo melhor, seja por meio da bandeira da educação, meio ambiente ou luta pela igualdade social.

São adolescentes e jovens com sonhos e esperança, com ímpeto de participar acreditando no seu potencial de transformar a realidade local ou de uma nação. Ao se apoiar em relatos emocionantes e ressaltando as possibilidades que professores têm de mediar processos de ensino envolventes, o filme mostra como o processo educacional pode ser disruptivo, inovador e transformador.

Por meio das metodologias ativas, tais como aprendizagem baseada em problemas ou em boas perguntas, sala de aula invertida, gamificação, educação midiática e empreendedora, com apoio de tecnologias digitais de ponta disponível e lideradas por professores bem preparados para mediar boas reflexões e práticas, os estudantes são levados a desenvolver diversas competências relevantes à formação do indivíduo no século XXI.

As “fake news”, por exemplo, podem ser combatidas quando os estudantes desenvolvem na prática sua capacidade de questionar, gravando reportagens, ouvindo várias versões de um mesmo fato e se colocando do outro lado da tela. Os desafios da desinformação, como vimos nas últimas eleições presidenciais, ainda estarão em pauta por muitos anos, mas poderão ser mitigados por meio de práticas como essa, haja vista a experiência da Finlândia, expressa no artigo “Como a Finlândia usou aulas de matemática e história para derrotar as fake news”. Quanto mais cedo os jovens tiverem contato com esta realidade da disseminação de mentiras pelas redes sociais, mais facilidade terão para identificar as informações falsas no futuro.

Uma outra atividade que desperta o pensamento crítico é a ressignificação de materiais cotidianos, como recicláveis, promovendo um aprendizado mão na massa - o tão falado movimento maker. E assim, em vez de construir uma simples casinha com palitos de sorvete, para cumprir uma atividade proposta no livro didático, sem um objetivo concreto, pode-se investir em robótica e criar, por exemplo, um drone feito com papelão para monitorar a praça vizinha da escola, trazendo mais segurança para os próprios estudantes.

Projetos que estimulam a criatividade, pensando em problemas do mundo real, aumentam o engajamento dos estudantes e diminuem a evasão escolar. O interesse muitas vezes é tão grande que permanecer além do horário convencional e ter vontade de participar das atividades extracurriculares se torna parte natural da rotina e de um processo de curiosidade e busca ativa por conhecimento.

Se a tecnologia é forte aliada, também já há a certeza entre os especialistas de que o processo educativo não se dá apenas pela mera transmissão de informação. A cabeça do estudante contemporâneo não aceita mais apenas receber conteúdo estanque; ela precisa ser estimulada a interagir para estar envolvida em um contexto de aprendizagem que se torne significativo.

Isso não quer dizer, contudo, que devemos fechar os olhos ao passado e ignorar técnicas milenares, como a meditação. As práticas contemplativas são eficazes na hora de controlar a ansiedade e úteis na hora de organizar os pensamentos. Estamos cada vez mais conectados e com notificações e alertas soando o tempo todo em nossos dispositivos. Parar e analisar o que ocorre em nossa mente é, além de produtivo, necessário. Em jovens bombardeados com informações incessantes, a meditação tem a capacidade de promover o autoconhecimento e transformar a rotina pesada de estudos numa experiência sensorial mais leve, conectada com suas emoções.

No Brasil, com o novo currículo do ensino médio, a sonhada educação empreendedora começa a sair do papel e aproxima o estudante de suas afinidades por meio de uma parcela da grade curricular que pode ser escolhida pelo próprio aluno. Os chamados itinerários formativos dependem do que cada escola é capaz de oferecer e pode compor até 40% das horas escolares. Existe, claro, o risco de a desigualdade escolar aumentar entre instituições privadas e públicas ou até mesmo pelo tamanho e localização dos espaços de ensino.

Vale lembrar, entretanto, que não há iniciativa - por mais futurista que seja - capaz de motivar um aluno sem que haja um professor capacitado que o auxilie a encontrar um bom caminho. Profissionais capazes existem em todos os lugares e em diferentes realidades brasileiras. É preciso valorizá-los. Aqueles que conseguem ir além da sala de aula, merecem muito mais que a gratidão e memória de seus alunos.

Quando o assunto é “como melhorar a educação dos jovens”, as experiências de países como a Coreia do Sul e Finlândia estão sempre em destaque, mas é preciso perceber que na imensidão brasileira há diversas escolas e estudantes que mostram ser possível fazer bem feito e construir um amanhã melhor.

A educação ativista, seja em comunidades ou em instituições particulares de ensino, está cada vez mais presente. Os jovens querem fazer a diferença e, aprendendo a usar a tecnologia a favor de seus propósitos, eles ganham ainda mais potência.

Você já parou para pensar em qual futuro deseja construir e qual a melhor maneira de alcançá-lo? Se a resposta tem a palavra “educação”, as possibilidades nunca foram tão amplas. Que venha 2023 e, com o Novo Ano, a vontade de promover uma Nova Educação que seja mais impactante e colabore para levar nossos jovens e nosso País a um novo patamar, onde sonhos são possíveis e realizáveis. Temos que esperançar!

(*) Luciana Allan é Doutora em Educação pela USP e diretora técnica do Instituto Crescer, onde há mais de 20 anos lidera projetos nacionais e internacionais na área de educação

(**) Patricia Travassos é jornalista especializada em inovação, documentarista e diretora do documentário Educação Presente para o Futuro