Sobre o asno e as decisões irracionais do governo

"O asno, embora diante de um fardo de palha e de um recipiente com água, é incapaz de fazer uma escolha, e morre de fome e de sede"
 (Cesar Okada/Getty Images)
(Cesar Okada/Getty Images)
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Coriolano GattoPublicado em 09/03/2021 às 19:17.

Os mestres clássicos ensinam que grande parte da teoria econômica deriva à base da racionalidade embutida nela: diante de inúmeras possibilidades, o agente econômico vai optar por aquela que possa maximizar a sua utilidade. É evidente que esse princípio precisa ser encarado como um mero exercício de classificação. O economista Mario Henrique Simonsen formulou que “a teoria da escolha propõe-se a explicar como o indivíduo decide diante de várias possibilidades mutuamente exclusivas e tem a seu favor uma sólida evidência empírica: o indivíduo não costuma empacar diante do problema, como o asno de Buridan”. Isso significa que as várias possibilidades devam ser hierarquizadas por meio de uma função objetivo, completa o professor.

Jean Buridan (1295-1358), filósofo francês, joga luz na teoria do livre arbítrio. O asno, embora diante de um fardo de palha e de um recipiente com água, é incapaz de fazer uma escolha, e morre de fome e de sede. O Brasil guarda mais semelhança com o paradoxo atribuído ao filósofo, tamanha é a ausência de racionalidade nas decisões tomadas pelo governo que, a exemplo do asno, pode ficar sem solucionar a crise sanitária e, ao mesmo tempo, ver a sua população sem a renda necessária para a sua sobrevivência digna, mesmo com a provável aprovação pela Câmara dos Deputados da PEC Emergencial, que confere o auxilio emergencial aos mais pobres e cria gatilhos para evitar uma crise fiscal sem precedentes na historia do país.

A vacinação em massa — o único instrumento capaz de dar normalidade à atividade econômica — se faz premente no momento em que as empresas, a despeito de todas as intempéries, continuam a captar recursos no mercado de capitais, dada a liquidez abundante no mundo. São trilhões de dólares em busca de oportunidades para investimento em um mercado consumidor robusto. Esse capital apátrida vai aportar naquelas nações que exibirem segurança institucional e regras claras para os investimentos de longo prazo, sem a propagação da covid-19.

“Agite o dia”, costumava dizer o ex-primeiro ministro inglês Winston Churchill. Como bom jogador e estrategista de primeira grandeza, tinha horror a decisões tomadas com cautela ou a raciocínios populistas. Andava com celeridade diante de qualquer crise. Não à toa quando criança caiu de uma altura de seis metros ao tentar pular de uma ponte de pedra para o galho de uma árvore, fraturando a perna. Ao longo da vida foram vários tombos do agressivo e determinado jogador de polo até perto dos 25 anos.

Essa agitação genuína, com a força de um vulcão incandescente, está a léguas de distância de uma economia, que entra em desaceleração no primeiro semestre. Adicione-se a isso uma inflação de 6%, projetada em 12 meses, o que vai obrigar o Banco Central a elevar a taxa de juros, de 4% ao ano. As incertezas pressionaram o dólar para níveis incompatíveis com um país que aproveita o boom das commodities, o que, por definição, deveria tornar o real mais caro, ou apreciado, como dizem os economistas.

Se o país quer mesmo seguir o caminho da prosperidade _ nem é necessário mencionar a repetitiva agenda das reformas _ será preciso investir alto em infraestrutura, que reduz, de forma consistente, os níveis de pobreza. Os setores de saneamento e de telecomunicações são os que mais contribuem para a redistribuição de renda. A privatização das companhias do Estado do Rio de Janeiro (Cedae) e de Minas Gerais (Copasa), sob a coordenação do BNDES, vai trazer novos investimentos para o setor de saneamento, a exemplo do que ocorreu em Alagoas.

Estudos da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) comprovam que um aumento de 1% no estoque da infraestrutura de municípios e dos estados promove uma queda nas chances de pobreza domiciliar perto de 7% e 18%, respectivamente. Da mesma forma, a expansão de 10% no consumo de energia elétrica gera uma redução de até 4% na desigualdade de renda, tema recorrente em nosso país, onde menos de dez famílias detêm metade da renda dos mais pobres.

Não bastam apenas os investimentos necessários para conter a pandemia, que experimentará semanas críticas ao longo de março e início de abril. Projetos estruturantes, regras claras e duradouras são o grande atrativo desse capital que ronda o mundo em busca de um porto seguro. Chega a ser um truísmo falar nisso, mas no Brasil até o óbvio ganhou tinturas de complexidade em razão dos desatinos do governo, perdido nas agendas econômicas e sanitárias, como quem deseja desafiar as leis de Isaac Newton ou os princípios basilares da matemática.  Não se trata aqui de “O óbvio ululante”, livro magistral do cronista e escritor Nelson Rodrigues, cheio de referências cotidianas e banais, pinceladas por algumas digressões do dramaturgo.

Mesmo com a abundância de capital privado e recordes de movimento financeiro na bolsa, os bancos públicos, como o BNDES, são peça-chave na modelagem da privatização das companhias estaduais de saneamento. Esse movimento dará segurança ao investidor seja nacional ou estrangeiro desde que o equacionamento jurídico atenda às regras de transparência adotadas pelas economias mais desenvolvidas.

Sem isso, o Brasil está fadado a patinar nas próximas décadas, considerando que os últimos 40 anos, com raros períodos de expansão, o crescimento foi medíocre. Mesmo com os R$ 300 bilhões de recursos em auxílio emergencial, o emprego recuou de 94 milhões para 85 milhões, em dezembro do ano passado. No auge da pandemia, desabou para 82 milhões de pessoas, segundo o Banco Itaú, ainda que a área econômica dê ênfase na estabilidade dos empregos formais (com carteira assinada) em um ano de queda de 4,1% do PIB. O fato é que grassa a informalidade na economia e a melhor prova disso foi a descoberta pelo governo de que cerca de 30 milhões de brasileiros não constavam das estatísticas oficiais, à época do desembolso do auxílio.

Não passa de uma grande ilusão imaginar que a tão propalada agenda econômica liberal será protegida dos movimentos erráticos do presidente da República. Mais um tormento para os brasileiros. É como se estivessem na excelente série “Paranormal”, um drama egípcio de terror sobrenatural, com destaque para o ator Ahmed Amin, que interpreta um médico às voltas com fenômenos e eventos sem explicação científica.

— Aprendi que se importar demais faz o cérebro parar de funcionar -  diz o angustiado médico para a sua colega cientista interpretada por Razane Jammal.

— Às vezes, você precisa se afastar para pensar direito — diz ela. Mas, às vezes, a distância que você cria entre você e o que tem medo de perder é o que causa a perda - completa.

É neste ambiente de dúvidas e de perplexidade que o país está mergulhado em meio a sinais que confundem o mercado e o indivíduo que não age como o asno de Buridan.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME.