Os ministros da Fazenda, as suas manias e o Anel de Giges

Guedes erra em não ter uma comunicação eficiente e foi lento na construção de pontes com o Congresso Nacional
 (Marcos Corrêa/PR/Flickr)
(Marcos Corrêa/PR/Flickr)
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Coriolano Gatto

Publicado em 28/01/2021 às 13:58.

Última atualização em 28/01/2021 às 17:15.

Certos ministros da Fazenda costumam se destacar pela longevidade no cargo e pela proficiência técnica. Arthur de Sousa Costa, que assessorou  o presidente Getulio Vargas entre 1934 e 1945, deixou como legado uma economia arrumada, pronta para dar um grande salto. O economista  Pedro Sampaio Malan manteve a estabilidade nos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), promovendo negociações importantes com o Congresso e criando a Lei de Responsabilidade Fiscal, além de gerir o  Plano Real ao lado de Gustavo Franco, e enfrentar duas grandes crises internacionais. Numa visita ao histórico prédio do Ministério da Fazenda, Centro do Rio, Malan, dono de uma ironia fina, comentou comigo:  “Está vendo aquela cadeira de couro e a mesa em formato convexo? Era para encaixar a barriga do ministro Souza Costa, que fora um servidor público exemplar.” Antonio Delfim Netto, início dos anos 1970, não abria mão de se refrescar na banheira azulada. O banheiro fica próximo de uma mesa reservada ao lado do ambiente de trabalho do ministro. Bom de garfo, pedia comida no tradicional Astrodome, próximo do Ministério. Certa vez, um convidado viu um rato passando por debaixo da mesa. E alerta, estupefato, o ministro. Delfim manteve a fleuma. “Não se preocupe. O perigo são os ratos humanos”.  Mario Henrique Simonsen não abria mão do uísque depois do expediente. Guido Mantega, que atravessa o fim de Lula 1, Lula 2 Dilma1, mais como quadro do PT do que pela engenhosidade de economista, foi outro ministro longevo.

Paulo Guedes quer ser o primeiro lugar nesse time, sempre empenhado no desenvolvimento nacional, independentemente de escolhas certas ou erradas que eles fizeram desde o ciclo militar. O ministro da Economia assume em meio a um terremoto na política e uma economia com crescimento medíocre. Prometeu entregar 1 trilhão de reais em privatizações, o que incluía a venda de terrenos da União. Não o fez. Entrou de forma desajeitada, ironizando o Congresso Nacional, naquele estilo briguento, carinhosamente definido por Delfim.

Guedes fala pelos cotovelos, pelos olhos, pela boca e pelas mãos. Incansável. É acusado de não entregar, termo usado pelo mercado financeiro a gestores que não atingem as metas. Mas fez a Reforma da Previdência, algo que nem Fernando Henrique Cardoso nem Lula conseguiram no auge de sua popularidade. Registre-se que o ex-presidente Temer teve grande importância na formulação do projeto.

Quando conseguiu ser aplaudido em um evento por parlamentares da relevância do deputado Mauro Benevides Filho (PDT-CE), assessor econômico de Ciro Gomes (PDT-CE), veio a pandemia um mês depois. O então ministro da Saúde, embora tivesse conhecimento do crescimento exponencial do novo coronavírus, não fez o alerta vermelho e o Brasil teve um grande carnaval, a festa da Covid-19. Contaminação em massa. O governador afastado do Rio, Wilson Witzel, que certamente terá o seu mandato cassado, iniciou o lockdown antes do colega e marqueteiro João Doria.

O Guedes liberal seguiu na essência o manual e a frase  atribuída ao velho mestre John Maynard Keynes: “Se a economia muda, eu mudo junto”. De fato, há vários Keynes. Guedes rasgou a cartilha liberal e fez o mais bem-sucedido programa distributivo: o auxílio emergencial. Foi o maior do mundo. Um amigo ortodoxo passou a chamá-lo de Paulo Keynes. O ministro da Economia, mesmo com toda disposição, acumula muito poder e virou alvo de políticos. Os nomes são sobejamente conhecidos.

Curiosamente, Guedes e Cesar Epitácio Maia, pai do deputado Rodrigo Maia, por razões diferentes, deram quatro meses de vida ao Plano Cruzado. Guedes, na distribuidora Pactual, ganhou muito dinheiro e Maia o prestígio na política com o fracasso do plano de estabilizaçao. O Cruzado estava enterrado em dezembro de 1986 – fora lançado em 28 de fevereiro pelo então presidente José Sarney. Cesar Maia, uma mente engenhosa, gostava de brincar com Guedes. “Você é um monetarista de babar na gravata”, dizia o antigo professor de Economia, a quem tive o privilégio de assistir a algumas aulas na UFF.

O ministro erra em não ter uma comunicação eficiente e foi lento na construção de pontes com o Congresso Nacional. Brasília tem a sua linguagem própria. Não é para os amadores do Rio ou de São Paulo. E Guedes, com os seus grandes projetos e ideias, não conseguiu implementá-los a maior parte deles.

O fato é que ele tem um recorde de citações negativas no Google relacionadas à sua demissão. A imprensa o “demitiu” dezenas de vezes, já no início do governo Bolsonaro. Vez por outra, aparece a degola do economista, que pode virar o jogo com a provável vitória de Arthur Lira (PP-AL) na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados.

O cientista político Carlos Pereira nota que o governo aprendeu com os erros políticos, de negação do Legislativo. “Governar sem a coalizão, sem as figuras-chave, o processo fica sujeito a intempéries.” O governo entendeu a necessidade do presidencialismo multipartidário, completa.

A situação atual lembra a fábula do Anel de Giges, que relata a história de como uma joia faz tornar um camponês invisível. Giges ganha coragem para seduzir a rainha, assassinar o rei e, com isso, tomar o trono do seu país. É uma tríplice transgressão da ordem moral, conforme descrita na Segunda República de Platão.

Este mundo de transgressões é o universo de Brasília, onde poderosos podem ficar invisíveis com o anel de Giges e agirem nos bastidores. Quando André Lara Resende era banqueiro _ ficou um homem muito rico _ me disse que o ministro José Serra passava 30% do tempo útil dele em conversas com donos de jornais, colunistas influentes e editores relevantes.

O livro brilhante e didático de Eduardo Gianetti da Fonseca, economista, filósofo, historiador e machadiano, publicado pela Companhia das Letras, mostra esse mundo cruel e, ao mesmo tempo, realista. “O anel revelaria, em suma, a perfeita equivalência entre a pessoa justa e a injusta, e isso demonstra que ninguém é justo por vontade, mas apenas por constrangimento e medo de punição. A pessoa justa, portanto, não passaria de uma justa enrustida: tíbia, tolhida e acusada. Desprovida do poder de ser o que é no fundo. A posse do anel transtorna a sua vida e a transforma no Giges-sem-lei (página 48 de “O Anel de Giges”).

O anel permeia Brasília como quem tenta enganar um impostor.

Como quem quer superar a galeria dos grandes ministros da Fazenda _ ele nunca escondeu a admiraçao por Simonsen_, Guedes jamais quer se transformar em um portador de más notícias, em um algoz dos brasileiros. Não tem nem nunca terá vocação para o jovem Al Pacino, em O Poderoso Chefão 1, em que Marlon Brando lamenta que o filho poderia ser um senador ou um governador.

“Quando sua hora chegasse, seria você que tocaria a música. Outro pezzo da novanta  (uma sumidade)”, diz Don Corleone, interpretado por Brando.

O economista está convencido de que pode ser um novo “pezzo da novanta”. Resta saber por qual caminho.

Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME