Octavio Bulhões e as lições para Paulo Guedes

Por definição, ministro da Economia precisa  ser otimista, mas não pode seguir o receituário da tolice, desconhecer o vendaval internacional
 (Adriano Machado/Reuters)
(Adriano Machado/Reuters)
Por Coriolano GattoPublicado em 15/03/2022 14:03 | Última atualização em 15/03/2022 14:03Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Por Coriolano Gatto

O advogado Octavio Gouvêa de Bulhões, ministro da Fazenda no Governo Castello Branco (1964-1967), falava baixo mesmo nas suas aulas da atual Faculdade de Economia da UFRJ. Mas, em alguns momentos, era sarcástico para a surpresa de muitos interlocutores. Certa vez, um grupo de empresários foi reclamar da política econômica. Com toda a candura, disse: “A falência é purificadora”. Ele sabia que os donos do dinheiro não queriam perder os favores do Estado. Em outro momento, já depois dos 80 anos, em meio à superinflação do Governo Sarney, disse que Brasília deixava “os miolos queimados” devido ao clima árido, o que levava servidores públicos do primeiro escalão a tomarem decisões erradas. Bulhões tinha horror ao malfeito e era um professor exemplar _ fez um curso de especialização em Economia, em Washington.  O ministro Paulo Guedes, que admira Bulhões, parece estar sofrendo da tal doença de Brasília a julgar por suas últimas declarações a uma rede americana, em que dá aula para o presidente do FED (Federal Reserve, o banco central americano).

O ministro da Economia reconhece que foi estabanado ao fazer previsões muito otimistas para as privatizações de estatais e de vendas de prédios e terrenos públicos, o tal do trilhão de reais. Mas seria injusto julgá-lo como um incompetente dado vários indicadores relevantes, como a expansão do PIB _ a maioria dos economistas errou os números de 2020 e 2021 _ , os marcos regulatórios, a redução dos juros durante o início da pandemia, o auxilio emergencial  e legislações relevantes, como a do gás, licitações e recuperação judicial. Nem é necessário falar da reforma da Previdência nem do Banco Central  independente, uma bandeira também de um outro Bulhões _ o advogado José Luiz Bulhões Pedreira _ e de Roberto Campos.

Ocorre que Guedes, um homem inteligente e fruto da ascensão social nos anos 1970, ignora as graves consequências da insana guerra do ditador Vladimir Putin. A inflação parece que veio para dormir com os brasileiros e a indústria não para de encolher, segundo o IBGE.

Por definição, ministro da Economia precisa  ser otimista, mas não pode seguir o receituário da tolice, desconhecer o vendaval internacional. Não custa lembrar do ministro que dizia estabilizar a inflação e deixou para o presidente Collor de Mello a taxa de 5.000% ao ano. Como disse o próprio Guedes em depoimento a este colunista: a inflação é o pior imposto para os pobres e os juros altos são o paraíso dos rentistas.

Não há dúvida de que aumentará o contingente da pobreza. Até o contínuo do Palácio do Planalto sabe disso. Em vez de exacerbar no otimismo, criando a ilusão de que o Brasil tem a inflação sob controle, Guedes, como um ex-banker, deveria afirmar quais os instrumentos dispõe o governo para reduzir o sofrimento da população pobre, que, em breve, engrossará a fila dos açougues para comprar ossos. O economista, que sempre se destacou no setor privado por diagnósticos precisos, cirúrgicos, o que o fez ganhar muito dinheiro _ algo digno de mérito para quem veio de uma família humilde _ deveria vir a público e anunciar a dura travessia que os brasileiros atravessarão em 2022. Ok, o PIB será positivo, dado o carregamento da taxa de 2021. A renda, porém, ficará  concentrada.

Se o velho mestre Bulhões estivesse vivo recomendaria o corte de despesas desnecessárias _ aquelas que o Centrão engoliu para fazer obras inúteis em suas bases eleitorais _ e uma reforma administrativa. Tomaria medidas duras para reduzir o impacto da inflação no bolso do consumidor. Em momento de guerra, é preciso rever o teto dos gastos públicos e aumentar o déficit público, levando em conta que o resultado fiscal do ano passado foi excepcional. Mérito de Guedes. Sem o Centrão do ministro Ciro Nogueira, que lidera um time de políticos famintos por dinheiro público.

A guerra é nefasta para todos, à exceção dos vendedores de armas. É evidente que capitais ingressarão no país em busca de um porto seguro, como disse o ministro. Esse dinheiro, porém, vai para a bolsa e não se traduzirá na produção. Mesmo o capital que será atraído com a mudança de marcos regulatórios, como o de ferrovias, é um projeto de dez anos. Como o ministro leu em vários idiomas o maior dos maiores economistas, o inglês John Keynes, no longo prazo todos estaremos mortos.

O fim da pandemia da Covid-19, prevista para meados de junho, traz alento ao retorno da atividade do  comércio e de serviços, mas, a queda do salário real médio, reduzirá o poder de compra dos consumidores. É o óbvio ululante, como diria o escritor Nelson Rodrigues.

Hoje, o mais otimista prevê uma inflação de 7,5%, juros de 12% e uma revisão do PIB. A boa notícia é que o ciclo das commodities traz divisas para o país e cria empregos. Nada que se compare à geração de postos de trabalho no comércio e serviços. A favor do ministro, é bom registrar que houve aumento expressivo do emprego formal, tomando por base janeiro de 2020, quando houve a mudança de critério.

Na excelente biografia sobre Beethoven, escrita por Jan Swallfford (“Angústia e  Triunfo”, editora Amarilys), é dito “que ele não compreendia as pessoas e pelos últimos quinze anos  nem ouvia suas palavras, exceto em suas notas musicais, engendradas dentro do seu próprio mundo.”

Parece que o atual governo tem dificuldade em ouvir os verdadeiros sentimentos do povo. A coluna, sempre otimista com realismo, acredita que o ato de crueldade contra o fotógrafo Orlando Brito, ícone da nossa profissão, tenha sido um gesto dos radicais de Bolsonaro sem a aprovação de Paulo Guedes, um defensor do livre arbítrio. Nem na ditadura militar o saudoso OB _ como era conhecido pelos amigos _ sofreu tal agressão.

Com todo o respeito, a biografia do empreendedor Paulo Guedes tem mais liga com a do marechal Castello Branco do que com o atual mandatário do Brasil.

A propósito: Octavio Bulhões morreu pobre a ponto de sua viúva, Ieda,  não ter dinheiro para comprar remédios.  Por meio do FGV Ibre, entidade que fora dirigida por ele, foi oferecido um emprego à viúva com carteira assinada e plano de saúde. Ela, diariamente, ia à Praia de Botafogo, 190, fazer versões de textos para o francês. A FGV preferiu manter o ato caridoso no anonimato.

Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME