A teoria dos jogos, a economia no atoleiro e a bússola perdida

Os agentes econômicos, preocupados com os sinais irracionais do governo, buscam encontrar saídas para reduzir o impacto da onde gigante que arrasta o país
A crise fiscal bate às portas do Brasil da mesma forma que a arrogância do governo salta aos olhos de qualquer observador internacional (thiagonori/Getty Images)
A crise fiscal bate às portas do Brasil da mesma forma que a arrogância do governo salta aos olhos de qualquer observador internacional (thiagonori/Getty Images)
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Coriolano Gatto

Publicado em 22/03/2021 às 13:57.

Última atualização em 22/03/2021 às 13:58.

A teoria dos jogos ajuda a entender o comportamento humano ou situações de grande complexidade no mundo empresarial _ disputas societárias, concentração em mercados e o risco de uma decisão. Há um ensinamento conhecido da não cooperação em que cada jogador pensa apenas no seu interesse individual. Dois marginais, flagrados pela polícia, são interrogados em celas separadas. Um juiz _ vamos imaginar que seja um magistrado que age de acordo com a lei sem manobras com promotores ou procuradores_ sugere a colaboração.

Se cada um confessar, terá uma pena de seis anos de reclusão. Se um deles confessar, o primeiro, como prêmio pela delação, será apenado em dois anos e o outro, que se recusou a falar, ficará dez anos em reclusão. Caso nenhum dos dois confesse, a pena será de quatro anos. Para os dois jogadores, a pena individual é melhor não confessando. Ambos, porém, tendem a confessar e, com isso, ficarão seis anos detidos. A teoria da não cooperação ensina que se trata de um conflito entre a racionalidade individual e a coletiva.

É esta realidade em que o Brasil está imerso à beira de uma grande desorganização em seu sistema produtivo: os agentes econômicos, preocupados com os sinais irracionais do governo, seja na lentidão da vacinação em massa seja na incapacidade das autoridades econômicas em apresentarem soluções para a curva de desaceleração do PIB, buscam encontrar saídas para reduzir o impacto da onde gigante que arrasta o país. Cada um tenta encontrar um caminho para a sobrevivência em meio a uma longa tempestade em mar aberto. Sem bússola.

Não há como esconder o aumento dos índices de pobreza diante de um incipiente auxílio emergencial, que não alcança um terço das necessidades básicas de um brasileiro. Adicione-se a isso a tentativa, desesperada, de entes federativos, de aumentarem a carga tributária, que já se encontra em níveis elevados, desde o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2002). A Derrama, no Brasil Colônia, estado de Minas Gerais, ameaça voltar dentro da ausência de cooperação. Os juros sobem em uma economia paralisada, enquanto os americanos optam pela estabilidade e o país vai crescer perto de 6% neste ano.

“É a vacina, estúpido”, repetiria a platitude James Carville, o marqueteiro de Bill Clinton, na histórica eleição, início dos anos 1990, ao cunhar o famoso “é a economia, estúpido”. Biden, um democrata conservador, restabelece o jogo na maior economia do mundo, que certamente experimentará um ciclo forte de expansão também em 2022.

O presidente americano mergulha na cartilha de Franklin Delano Roosevelt, que morre no seu quarto mandato, perto do fim da Segunda Guerra Mundial, e deixa como legado as bases de um crescimento sustentável.

No Brasil, a agenda está tão atrasada que o Ministério da Economia discute o tamanho do perdão da dívida para os sonegadores, o programa de refinanciamento, o Refis, em vez de agir com uma estratégia para racionalizar a ineficiente e ruinosa máquina de arrecadação, que causa trilhões de reais em contenciosos tributários. O perdão é um recado claro para os empresários que recolhem em dia seus tributos: não sejam bons contribuintes.

O ministro Paulo Guedes sabe muito bem que não existe almoço grátis. Aluno aplicado de Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia em 1976 e autor da famosa sentença, Guedes compreende as grandes dificuldades de um Estado que perdeu a sua capacidade de financiamento e uma pandemia que parece não ter fim, trazendo, além das tragédias a milhões de  famílias, a paralisação da economia nos grandes centros econômicos. É inevitável lembrar de Gabriel García Márquez e de sua crônica de uma morte anunciada.

O governo fez de tudo para cometer os mais graves pecados capitais e a equipe econômica foi incapaz de dar o alerta máximo da imensa insensatez contra a ciência e o obscurantismo, mesmo tendo a racionalidade de uma Universidade de Chicago, berço de excelência do conhecimento. Talvez tenha acreditado em demasia na teoria das expectativas racionais, famosa nos anos 1970/1980, cujo corolário é um grande embuste: só é racional quem adere à teoria, depois largamente criticada a partir dos anos 1990.

A crise fiscal bate às portas do Brasil da mesma forma que a arrogância do governo salta aos olhos de qualquer observador internacional. É como se a fogueira, a mesma que queimou Giordano Bruno, o físico, o teólogo e o sacerdote assassinado em 1600 pela Santa Inquisição da Igreja Católica, estivesse de volta com todas as suas intempéries. O mesmo governo que está jardas de distância do navegador Cristóvão Colombo, que, em 1492,  derruba qualquer ideia do terraplanismo, teoria abraçada pelo núcleo central de Jair Bolsonaro. A descoberta do navegador leva a Bartolemeu de Las Casas a uma frase famosa, carregada de simbolismo:

“Neste tempo tão novo e a nenhum outro igual” (citado em “A Conquista da América”, de Tzvetan Todorov). Las Casas foi um grande defensor da libertação dos índios, mortos pelos espanhóis,  e um personagem catalisador das liberdades e dos direitos individuais. Como Bruno, um homem eivado na escola da racionalidade, a mesma que modernamente sistematiza a teoria dos jogos, e se contrapõe ao obscurantismo na política e na economia.

Em que pese todo o esforço de empreendedores e de um mercado de capitais consistente, as incertezas persistem em rondar as autoridades, como se não houvesse comando, apenas espasmos. A carta aberta de economistas e banqueiros é irrepreensível ou irreprochável, como diria o advogado José Luiz Bulhões Pedreira (1925-2006), o grande arquiteto institucional do Brasil na segunda metade do século XX.

Não à toa políticos que apoiam o atual governo fazem críticas veladas ou públicas à condução de medidas com sinais confusos aos agentes econômicos.

A tempestade parece não ter fim mesmo com a ajuda do ciclo de commodities. O erro parece ser uma marca registrada de quem deveria zelar pelos negócios públicos e empurrar empresas e cidadãos para um ciclo de prosperidade, a exemplo das lições propagadas pela China e pelos Estados Unidos, que protegem os seus, abstendo-se de qualquer demagogia ou de ideologias opacas.

É a vacina, estúpido.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME