A loucura de um método e o Estado à beira do esgarçamento

O tal Estado legiferante, que cria suas próprias regras e impostos abusivos, ameaça voltar com uma grande desvantagem: proteção social será reduzida, apesar dos níveis alarmantes da crise causada pela covid-19
 (Ricardo Moraes/Reuters)
(Ricardo Moraes/Reuters)
Por Coriolano GattoPublicado em 16/03/2021 10:00 | Última atualização em 16/03/2021 10:00Tempo de Leitura: 6 min de leitura

O clássico “O Elogio da Loucura”, de Erasmo de Rotterdam, um humanista e teólogo da Idade Média, permanece como um dos mais impressionantes livros atemporais da humanidade, ao tratar da hipocrisia e da perda de valores da vida. Um dos grandes ensinamentos da obra  - e são muitos - é ao citar Platão: “Felizes das repúblicas cujos filósofos fossem governantes ou cujos governantes fossem filósofos”, diz a deusa Loucura. O Brasil padece dessa anormalidade ao ficar estacionado entre a capacidade de engendrar um plano criativo para combater a brutal pandemia _ medidas econômicas e sanitárias eficazes _ e ao olhar de outras nações, que resolvem com a rapidez o mesmo problema, como os Estados Unidos, a China, a Índia, a Inglaterra, a Rússia e a maior parte dos países europeus.

Há sinais contraditórios. Embora negue a reedição da antiga CPMF, a área econômica faz simulações de um tributo sobre transações digitais, o que causaria ruídos no mercado financeiro dada a incipiência da atividade produtiva, que registra recuo nos negócios. Diante da ausência da vacinação em massa, não é o momento para mais um imposto. Da mesma forma, a Justiça do Trabalho, no Rio,  impõe multas pesadíssimas a restaurantes que teriam desobedecido regras de demissão durante a pandemia, ano passado.

O tal do Estado legiferante, que cria suas próprias regras e impostos abusivos, ameaça voltar com uma grande desvantagem: a proteção social será reduzida, apesar dos níveis alarmantes da crise causada pela Covid-19. Isto posto, falta a lógica do francês René Descartes (1596-1650), definitiva no “Discurso sobre o Método”, ao resumir, de forma sintética e brilhante, o pensamento ocidental na famosa “cogito, ergo sum”, ou “penso, logo existo”. Falta método a essa loucura.

Nem Erasmo nem Descartes passaram perto desse governo, cada vez mais mergulhado em crises internas e em busca de soluções milagrosas para os graves problemas fiscais que se avizinham com velocidade, diante da queda do PIB, no primeiro semestre, do aumento da inflação, dólar alto e da provável elevação dos juros. Algo inevitável diante da incapacidade do Executivo em apresentar soluções que tenham racionalidade na difícil travessia para o tão propalado crescimento sustentável.

Ao que tudo indica, o governo, como disse um grande sábio, insiste em querer mudar a lógica das quatro estações do ano _ durante a presidência de Collor um conhecido economista e gestor público achou que era possível ao propor uma mudança no financiamento à safra agrícola. Não deu certo e a economia em 1991 mergulhou em um grande atoleiro.

Afinal, qual é a congruência dessa relação? Simples como as dimensões da Física, em que passado, presente e futuro, como na seta do tempo, são categorias facilmente identificadas _ o passado vinculado à memória, o presente ao instante fugaz e o futuro à expectativa. O ser humano sempre teve como ambição desvendar o futuro para, com isso, alterar a trajetória dos fatos, como ensina com riqueza a metodologia sobre a teoria dos riscos e as suas implicações. O atual governo, mais concentrado em encontrar inimigos invisíveis ou em combater teorias fantasiosas, aquelas que duvidam das leis de Isaac Newton, mais se parece com um ciclope  _ personagem da mitologia grega _, propenso ao mundo de falsas ideologias e de perseguições extraplanetárias. Sim, há vida inteligente depois do planeta Terra, dizem os ufólogos, com a outrora discordância do brilhante astrofísico Carl Sagan (1934-1996).

Persistem grandes problemas à vista e se trata de uma estultice acreditar que as incensadas reformas _ administrativa e tributária _ resolverão a crise fiscal dada a tibieza de propostas que estimulem o crescimento econômico, com a atração do capital privado nacional e internacional. Enquanto o Brasil permanece em uma trajetória irregular, incapaz de dar segurança ao investidor, o presidente Joe Biden abandona os gurus de Wall Street e cria um sistema de proteção aos cidadãos americanos, o que conduzirá a uma grande expansão do PIB. Solução capitalista ancorada na mão firme do Estado. Biden governa para a classe média, o correspondente a mais de 90% da população americana.

Nem de longe o país necessita de uma reedição de diatribes na economia. Ainda existem espantalhos na implantação da 5G, a nova revolução da tecnologia deste século. Sim, é possível atrasar a mais relevante mudança no padrão de grande velocidade das redes, o que traz enormes ganhos de produtividade, em razão da lentidão de suas autoridades, que insistem em tratar a questão de forma ideológica (“a burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor”, dizia Roberto Campos) e não de mercado, como ensinam os chineses e os americanos. A 5G é tão emblemática que mereceria ser a bandeira número um, número dois e número três da gestão econômica.

Antes de prosseguir na agenda do mundo real, vale abrir um parêntesis para o filósofo liberal John Locke (1632-1704): “Quando conhecermos a nossa própria força,  saberemos melhor o que intentar com esperanças de êxito; e quando tivermos examinado com cuidado os poderes de nossas mentes, e feito alguma avaliação acerca do que podemos esperar deles, não tenderemos a ficar inativos, deixar de pôr nossos pensamentos em atividade, pelo desespero de nada conhecermos; nem, por outro lado, poremos tudo em dúvida e renunciaremos a todo conhecimento, porque algumas coisas não são compreendidas.” (“Ensaio Acerca do Entendimento Humano”)

O governo parece não compreender o que vem pela frente em função de uma miopia típica de supostos estadistas movidos por ideologias que turvam a vista e deslocam o equilíbrio. As grandes economias darão um salto, enquanto somos prisioneiros de um modelo de baixíssimo crescimento. É como repetir o erro crasso do período 1984-1990 em que as nações do Leste Asiático tiveram um grande impulso.

O fato é que o surto do coronavírus está transformando o país em "uma prisão sem grades" e aumentando a preocupação para toda a América Latina, como registrou a agência Bloomberg. Há quem prefira a comparação com o “mito da caverna”, descrito em “A República”, de Platão,  na qual os prisioneiros podem apenas identificar sombras, embora consigam falar, o que cria ecos, ondas reverberantes, tal como o atual governo. Ocorre que esses prisioneiros, acorrentados, sabem do mundo apenas o que vivenciaram, são reféns de sua história. O mito é uma armadilha que enrosca o país, os seus protagonistas, e, especialmente, os brasileiros, à espera do porvir. Sem vacina, inclusão social e responsabilidade fiscal, restarão as incertezas.

Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME