A Lava-Jato, os negócios e o ensinamento de Abraham Lincoln

"Não há condições de medir com precisão os ganhos  pecuniários recuperados pela Lava-Jato e os prejuízos provocados pela destruição de milhares de empregos"
 (Andressa Anholete/Getty Images)
(Andressa Anholete/Getty Images)
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Coriolano Gatto

Publicado em 02/12/2020 às 14:49.

Última atualização em 09/12/2020 às 12:11.

O presidente Joe Biden vai tomar posse no dia 20 de janeiro e, certamente, algumas  palavras ditas no discurso da vitória podem passar ao largo, especialmente a referência a um grande personagem da história mundial: o republicano Abraham Lincoln, o 16º presidente americano, assassinado aos 56 anos, no exercício do seu mandato reformador. Antes de ser um ícone dos americanos, Lincoln fora um lenhador e um autodidata, tendo construído, com muitas dificuldades, um escritório de advocacia. Tempos duros aqueles no século 19. Ao chegar à presidência, ele concedeu um depoimento registrado em “Six Months at the White House by Francis B. Carpenter “(disponível gratuitamente, em inglês, pelo Google Books). Com a palavra o grande advogado em uma tradução livre:

“Se eu fosse tentar ler ou mesmo responder a todos os ataques feitos contra mim, esta firma também poderia estar fechada para qualquer outro negócio. Eu faço o melhor que eu sei. E tenho a intenção de continuar a fazê-lo até o fim. Se no fim eu for percebido como certo, o que é dito contra mim equivalerá a praticamente nada. Se eu estiver completamente errado, dez anjos jurando que eu estava certo não farão a menor diferença.”

Esta verdadeira lápide foi fixada em uma sala de um grande empresário, alvo de uma violenta e injusta operação policial, que trouxe grandes prejuízos à sua firma. Agora, a insuspeita juíza federal Fabiana Alves Rodriges escreve “Lava Jato: Aprendizado institucional e ação estratégica na Justiça” (o e-book está disponível por R$ 34), produzindo uma radiografia detalhada sobre os antecedentes que culminaram na Operação Lava-Jato, e as manobras jurídicas do então desconhecido juiz Sergio Moro, de Curitiba, para trazer para a sua Vara um caso que poderia levá-lo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Moro, como se sabe, foi engolido por um ofídio gigante, que o fatiou ao longo de meses como um salame em fim de feira.

Em que pese favoravelmente o ataque à corrupção, de empresários malfeitores que capturaram o Estado, a operação, eivada de ilegalidades e de lances sensacionalistas na mídia, ajudou a destruir centenas de milhares de empregos, sobretudo na construção pesada. Como quem brinca de lego, Moro, outrora um conferencista bem remunerado junto com alguns procuradores, trafegou em um ambiente nebuloso do Judiciário, relata a  juíza Fabiana Rodrigues. Ela faz um trabalho exemplar de levantamento de números que comprovam o crescimento, do fim dos anos 1990 para cá, do Poder Judiciário, nem sempre de forma assertiva.

Elegante, é cuidadosa em não fulanizar os personagens da Lava- Jato, diferentemente de dois extremos - a série de José Padilha (“O Mecanismo”) e as reportagens do The Intercept. E  reconhece que a operação “ganhou tamanha força e legitimidade que dificilmente se nega a sua influência em diversas esferas da vida política”.

Parafraseando um slogan criado nos Estados Unidos e amplamente divulgado aqui em razão do assassinato de um negro no Carrefour, em Porto Alegre, “empregos importam” tal como as vidas que movem os negócios. É evidente que Moro e a sua turma não estavam preocupados com isso _ nem preciso citar nomes de políticos. Os dividendos foram tantos, que ele  contratou o famoso empresário do cantor Roberto Carlos para esculpir a sua imagem na mídia e refinar o seu gestual, o que inclui aprimorar a fala, esganiçada e desprovida de carisma, depois do humilhante pedido de demissão do governo. E agora é premiado com um emprego na influente empresa americana Alvarez & Marsal.

A destruição de empregos, com a força de um moto scriper, uma máquina de grande porte usada na construção de estradas, coincide com o início da recessão no fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff. O ano seguinte, 2015, é pautado por um grande desastre na economia com o agravante da intensificação da Lava-Jato, que inibe mais ainda o investimento relevante na construção pesada. É a tempestade perfeita, como dizem os economistas, trazendo calafrios às empresas e aos trabalhadores. Os investidores na bolsa ficaram aparvalhados.

Nem dez anjos fazendo juramento serão capazes de trazer a tranquilidade para os negócios. No livro de Fabiana Rodrigues, há a comprovação das armadilhas e as artimanhas de um Judiciário que está menos preocupado com a aplicação da lei, e sim com os holofotes que podem gerar candidaturas à presidência ou a governos estaduais – eu precisaria de um artigo à parte para citar a lista completa, cara leitora e caro leitor.

No conto “O Espelho”, de Machado de Assis, citado pelo professor e advogado Fabio Konder Comparato, o narrador afirma a seus ouvintes que cada um de nós tem duas almas. A exterior é exibida aos outros, e através dela julgamos a nós mesmos, de fora para dentro. A alma interior, escondida dos olhares externos, é aquela que julgamos o mundo e nós mesmos. Moro preferiu a segunda alma, mas não contava encontrar pela frente um experiente deputado e chefe, comandando um trem em alta velocidade, tal como o fizera Trostsky, no início da Revolução Comunista de 1917, com o seu temível Exército Vermelho. Nem abelhas escaparam. Cabeças eram ceifadas com a velocidade de um tornado.

Por ora, não há condições de medir com precisão os ganhos  pecuniários recuperados pela Lava-Jato e os prejuízos provocados pela destruição de centenas de milhares de empregos. É certo que ela causou enormes terremotos na área privada. E ficaram cicatrizes no mundo dos negócios, em que não cabe nem diáconos nem patifes. O juiz Sergio Moro não é uma coisa nem outra. Até hoje, muitas empresas buscam seus cacos para sair do atoleiro e procuram seguir  regras duradouras é transparentes a seus empreendimentos. Certamente, muitas delas, alvejadas por falsas delações premiadas, afixariam em um quadro as lições de Lincoln, lembradas até hoje por cidadãos de bem e lideranças responsáveis, como Joe Biden. Já Moro será sempre um Moro.

*Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME