A economia na encruzilhada e as incertezas da guerra de Putin

Guedes, um ex-banker, sabe que o capital é apátrida e covarde: vai em busca do porto seguro
 (Alexander NEMENOV/AFP)
(Alexander NEMENOV/AFP)
Por Coriolano GattoPublicado em 03/03/2022 15:01 | Última atualização em 03/03/2022 15:01Tempo de Leitura: 10 min de leitura

Por Coriolano Gatto

Os indicadores preditivos têm muita importância na ciência econômica com a diferença de que trabalham com variáveis imprevisíveis até no campo da geopolítica. Contêm previsões, por vezes, com o mesmo comportamento errático do personagem Aleksei Ivanovich, de “O Jogador”, de Fiódor Dostoiévski. O erro e o imprevisto são duas grandes variáveis, que potencializam o risco e podem comprometer previsões de boa-fé. Não embutem a lógica de um problema na sala de aula de Física ou de Matemática. As previsões para 2022 variam de uma recessão de 1% a uma expansão de 0,7% do PIB ante um crescimento de 4,7%, de acordo com o FGV Ibre em 2021; ou um pouco acima de 5%, segundo projeções oficiais.

É evidente que a guerra de Vladimir Putin já provocou alta em commodities que afetam os alimentos. Mas dois grandes fatores impactantes na alta dos preços − combustíveis e a tarifa de energia elétrica − estão bem equacionados. Além de um projeto no Senado, é provável que a Petrobras segure os preços, como o fez FHC 2 e parte da era petista. Os fertilizantes são um problema à parte, pois afeta o agronegócio, o correspondente a quase 30% do PIB, além do aumento do trigo e do milho.

De todo modo, o conflito distributivo permanece em temperatura alta desde 1980, com intervalos de melhoria no início deste século.

Analistas do Eurasia Group apontam para uma queda de 11% no salário real médio neste ano, mas houve uma grande expansão do emprego com carteira assinada, tomando sempre por base janeiro de 2020, quando houve a mudança no critério. A produtividade do Brasil é baixa, e há uma farta literatura sobre o tema. Dos 100 milhões de trabalhadores, apenas 40% têm carteira assinada.

Adolfo Sachsida, ex-secretário de Política Econômica e atual assessor especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, tem a fala pausada. Aos 49 anos, é um dos mais influentes conselheiros do ministro Paulo Guedes. Ao contrário do chefe, mede as palavras antes de emitir uma opinião, para desespero dos jornalistas que estão atrás de frases impactantes − as manchetes. Ele não cai em casca de banana, como se diz no jargão jornalístico.

A taxa de desemprego cede mês a mês e pode ficar em um dígito se o Brasil ingressar na endemia da Covid, como previu o insuspeito Instituto Butantan, a partir de junho/julho. Não se sabe se o carnaval terá um afeito negativo na crise sanitária.

Boa parte do aumento do emprego se deve ao setor de comércio, cuja remuneração, na média, é bem inferior ao de outros segmentos da economia. Esse é um problema estrutural, da mesma forma que a ausência de investimento do Estado em infraestrutura é uma tragédia de 30 anos. Investimos menos de 2% do PIB, e, em tempos de bonança, as autoridade econômicas, mesmo com toda a boa intenção, concentraram os esforços no consumo ou em programas sem o devido retorno do investimento. Houve acertos na responsabilidade fiscal no início do governo Dilma 1. As pedaladas fiscais são um caso à parte.

É uma enorme estultice, porém, acreditar que governos mais à esquerda são irresponsáveis no equilíbrio fiscal e os conservadores primam pelo superávit (economistas liberais fizeram uma análise sucinta dos erros orçamentários cometidos, anos 1980, por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, duas grandes lideranças conservadoras). Da mesma forma, é pura má-fé atribuir à direita o valor da liberdade, enquanto o da igualdade seria pela esquerda, escreveu Denis Lerrer Rosenfield, no Estadão.

Sachsida, como economista aplicado, sabe que o desemprego estrutural do Brasil − tema estudado nas academias − é um grande empecilho para o crescimento com distribuição de renda com vistas a criar uma classe média pujante, como receita Guedes há uns 40 anos. Não será agora nem no próximo governo que o problema será sanado, pois depende de um conjunto de políticas públicas que estimulem o emprego e protejam os direitos de trabalhadores e estimulem empresários, sem engessar a engrenagem econômica com benefícios que, na prática, aumentam a informalidade, trazendo graves prejuízos à Previdência Social, o maior programa de distribuição de renda, segundo Luiz Guilherme Schymura, que estuda com afinco o tema produtividade; pauta obrigatória para Eugênio Gudin quando funda, há 71 anos, o Ibre e cria o sistema de contas nacionais, hoje calculadas pelo IBGE, um centro de excelência de servidores públicos.

A incerteza tende a se elevar em ano eleitoral, observa, Ana Carolina Gouveia, do FGV Ibre. Ela afirma que o Indicador de Incerteza do Brasil (IEE-Br) atingiu, em setembro do ano passado, o pico anterior ao da pandemia. Ocorre que, em janeiro e em fevereiro, já com a elevação dos juros e a nstabilidade em economias desenvolvidas, que admitem exageros nos estímulos monetários, houve um recorde de ingresso de recursos estrangeiros na bolsa de valores, fazendo com que o dólar recuasse para R$ 4,99. Caso não fosse a insana invasão da Rússia na Ucrânia, o dólar poderia recuar para R$ 4,80.

O ministro Paulo Guedes fez um périplo junto a grandes bancos e investidores internacionais para mostrar que o Brasil, entre muitos países, oferece as melhores condições para o retorno do investimento e está amparado em medidas que estimularam o crescimento em infraestrutura − os famosos marcos regulatórios, já citados nesta coluna, sem contar a nova de lei de licitações, o BC independente, entre outras.

Guedes, um ex-banker, sabe que o capital é apátrida e covarde: vai em busca do porto seguro.

A inflação, aponta o Banco Central, terá o seu pico em abril/maio e, a partir daí, recrudescerá, sem ainda contar os efeitos da guerra de Putin.
Luiz Roberto Cunha, economista e decano da PUC-Rio, nota que a queda pode chegar a 1,5 ponto percentual apenas com a mudança da tarifa de energia elétrica, em razão do aumento dos níveis dos reservatórios e do clima mais ameno de outono.

Os técnicos do governo e analistas independentes apostam que a alta dos preços ficará em 5,6%. À Bloomberg, Guedes cravou 5%, a metade da de 2021. O Ministério da Economia, que, em breve fará nova revisão do PIB, continua a prever um crescimento próximo de 2%, contrariando muitos analistas. Estima-se em 1,8% a nova previsão. Vão errar mais uma vez, vaticina Guedes ao comentar algumas análises de bancos e casas de investimentos, como ocorreu em 2020 e 2021.

“Com a pandemia e a desorganização da cadeia industrial mundial, não é possível fazer análises preditivas usando como modelos a Curva de Phillips e a Regra de Taylor”, afirma Sachsida. “Nós tivemos um choque de oferta sem precedentes”. Basta olhar para a gigante cadeia de montadoras, que ficaram sem chips. Havia demanda forte, mas a ausência de componentes paralisou a indústria.É preciso olhar para a famosa crítica de Robert Lucas, o economista americano da Universidade de Chicago, laureado com o Nobel da Economia em 1995: “Os fatores microeconômicos têm enorme influência na macroeconomia’”, lembra Sachsida.

Com a palavra, o ex-ministro Delfim Netto, na Folha, naquele mesmo ano:

“Há muitas dúvidas sobre todas essas proposições, sobre a própria concepção da "expectativa racional" (que envolve uma particular definição de "racionalidade") e sobre o futuro da nova economia clássica. Mas não há a menor dúvida de que Lucas obrigou os economistas a encarar de outra forma não apenas a macroeconomia, mas a política econômica. Esta é vista hoje como uma espécie de jogo entre os agentes privados (que aprendem) e o governo (que tem propensão a enganar), e onde, portanto, a credibilidade é fator essencial. É por isso que as expectativas não se formam no passado, mas alcançam o futuro.” Sobre o governo, Delfim fala com a experiência de quem foi ministro da Fazenda e do Planejamento em três governos militares. Não havia democracia barulhenta nem rede social.

Mal comparando com o fenômeno da superinflação: início dos anos 1970, em um debate no antigo BNDE com pensadores de variadas tendências, foi aventada a hipótese que a alta dos preços tinha um componente inercial, dado o alto nível de indexação da economia brasileira. Não bastavam medidas clássicas de políticas monetárias, como juros altos, para combater a alta dos preços. O mundo estava próximo da primeira grande crise do petróleo, em 1973. O fato é sobejamente conhecido: depois de seis planos de estabilização fracassados − alguns com problemas técnicos ou influenciados pelos políticos −, veio o Real, em 1994, precedido pela URV, uma moeda de curso legal sem poder liberatório, na definição concisa do advogado José Luiz Bulhões Pedreira. A conversão da URV para a nova moeda teve grande adesão do público. E a inflação volta a níveis baixos, trazendo ganhos de renda para os mais pobres. Dois grandes bancos de varejo não resistem à nova realidade e quebram no segundo semestre de 1995.

O governo pode ter razão quando afirma que os antigos modelos, como aquele com mais de 100 variáveis utilizado nos anos 1970, são ultrapassados. A guerra de Vladimir Putin com a Ucrânia vai afetar o equilíbrio. Um exemplo singelo: dos US$ 5,7 bilhões importados pelo Brasil da Rússia, os fertilizantes respondem por US$ 3,7 bilhões. O potássio, mineral-chave para o agronegócio, é um deles, e o Brasil tem enorme déficit de uma commodity que viu o preço da tonelada subir na pandemia de US$ 250, início de 2021, para US$ 800 em fevereiro deste ano. No encontro com Putin, Bolsonaro abriu negociação para a construção de uma fábrica com base em fornecimento de fertilizantes, em Três Lagoas (MS), da mesma forma que o governo do Amazonas estimula uma grande empresa situada a 120 quilômetros de Manaus. Sem contar, a alta do trigo e do milho, que podem ter impacto no curto prazo, mas a guerra pode ser mais rápida do que se imagina, afirmam especialistas.

E se o petróleo subir para US$ 125 em razão da guerra de Putin, uma espécie de Stálin equipado com todos os modernos instrumentos do sistema capitalista? E, segundo jornalistas independentes da Rússia, sócio indireto da estatal Gazprom e da petroleira Rosneft − presente na Bacia do Solimões, AM −, da qual a BP anunciou o desembarque − ela detém 20% da companhia.

O novo PL 16, que tramita no Senado Federal e trata dos combustíveis, agrada ao governo pelas mudanças que não causam danos à economia. É evidente que os obsessivos pelo teto dos gastos públicos farão críticas; mas, de modo geral, a coluna ouviu dos empresários, executivos e políticos que os avanços se tornam relevantes para a redução dos combustíveis. O senador Jean-Paul Prates (PT-RN) recuou na taxação sobre as exportações do petróleo, medida criticada por seu partido e por políticos que apoiam o pré-candidato Lula. Em linhas gerais, o projeto torna o ICMS fixo, sem com isso afetar o equilíbrio microeconômico e trazer benefícios óbvios para o consumidor. O projeto será votado no início de março e, ao que tudo indica, terá consenso do Executivo e do Legislativo. Vem em boa hora na pressão sobre o aumento dos combustíveis, especialmente o diesel, a gasolina e o botijão de gás.

A propósito: “O Jogador”, com a competente tradução de Rubens Figueiredo, é um ótimo livro para quem aprecia o risco. Retrata a busca incessante por uma lógica que norteie o acaso e a necessidade de controle, as quais acometem todo jogador inveterado. O livro, como parte da obra de Fiódor Dostóievski, é baseado na vivência de um dos maiores escritores da humanidade. O escritor entrou no “Index Librorum Prohibitorum” do ditador Putin, como fazia Tomás de Torquemada, o líder da Santa Inquisição da Igreja Católica, século XV. Era antissemita. Até recentemente, livros sobre s Teologia da Libertação ficavam escondidos em bibliotecas de arcebispos conservadores.

Observação: esta coluna não tem capacidade para prever as graves consequências no mercado causadas por Putin, que certamente não leu Paul Johnson: “Erros lógicos - eles fazem sentido mas podem estar errados”. Eu visto a sandália da humildade se o mundo viver uma grande crise financeira com a volatilidade dos mercados. A coluna prefere manter o otimismo realista. E tomar riscos, podendo ser castigada pelos erros. E, por via das dúvidas, vou usar cueca de titânio.

Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME