(Imagem gerada por IA/Exame)
CTO e VP de Soluções Digitais da Falconi
Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 20h56.
É cada vez mais comum se deparar com a afirmação de que a inteligência artificial (IA) deixou de ser promessa para se tornar presença constante no discurso estratégico das empresas. Ela está nos conselhos, nos planos de investimento, nos roadmaps digitais, além dos produtos e operações. Ainda assim, cresce uma inquietação silenciosa entre executivos: por que tanto investimento em IA ainda gera tão pouco impacto mensurável em resultado?
Eventos globais de tecnologia funcionam como um espelho amplificado desse fenômeno. A CES 2026, por exemplo, realizada no início do mês, em Las Vegas, nos EUA, evidenciou a onipresença da IA em praticamente todas as categorias de produtos, de dispositivos domésticos a robôs humanoides. Mais do que os gadgets em si, o que chama atenção é o padrão que se repete: a IA sendo adicionada a tudo, nem sempre para resolver algo relevante. Incorporar inteligência artificial passou a ser, em muitos casos, um fim em si mesmo, e não um meio para gerar valor concreto ao usuário ou ao negócio.
Esse mesmo padrão se reproduz dentro das organizações. Muitas empresas vivem hoje uma espécie de “inflação de IA”, com múltiplos pilotos, assistentes, algoritmos e provas de conceito convivendo de forma desconectada dos processos críticos, dos indicadores de desempenho e das decisões estratégicas. O resultado costuma ser familiar, com iniciativas tecnicamente sofisticadas, mas frágeis do ponto de vista de captura de valor econômico.
O problema, vale ressaltar, não é tecnológico. É estrutural. Assim como há produtos que impressionam mais do que ajudam, também há empresas que adotam IA para gerar relatórios mais bonitos, mas não decisões melhores; para automatizar tarefas periféricas, enquanto gargalos centrais permanecem intocados; ou simplesmente para responder à pressão de mercado, investidores ou concorrentes, sem uma tese clara de retorno sobre investimento. A presença da tecnologia cria a sensação de modernidade, mas não necessariamente altera o desempenho do negócio.
Em contraste, as aplicações de IA que efetivamente geram valor nas empresas seguem outro padrão. Elas não começam pela tecnologia, mas pelo problema de negócio. São iniciativas em que a inteligência artificial atua de forma quase invisível, conectada diretamente à tomada de decisão e à execução. É o caso de soluções que reduzem ruptura e otimizam estoques ao integrar previsão de demanda com decisões de compra, de algoritmos que priorizam esforços comerciais e elevam conversão e ticket médio, de automações inteligentes que reduzem custos administrativos e liberam capacidade humana para atividades de maior valor, ou ainda de sistemas de apoio à decisão executiva que sintetizam cenários complexos em escolhas acionáveis. Nesses contextos, a IA não é o produto final, mas o mecanismo que melhora produtividade, qualidade e velocidade.
Outro sinal relevante desse momento de transição é o aumento do ceticismo em relação ao retorno dos investimentos em inteligência artificial. Oscilações recentes no valor de mercado de empresas ligadas a semicondutores, infraestrutura de dados e data centers indicam que o mercado começa a separar narrativa de resultado. O capital continua disponível, mas está menos tolerante a promessas genéricas e mais atento à geração efetiva de valor. Inovação e investimento seguem caminhando juntos, mas com um nível maior de exigência.
Vale o alerta para as lideranças empresariais: a próxima fase de maturidade da IA não será definida por quem adota mais rápido ou por quem anuncia mais iniciativas, mas por quem governa melhor essa tecnologia. Governar IA significa ter clareza sobre onde ela gera impacto econômico, como se integra aos processos críticos, quais métricas realmente importam, e como garantir segurança, ética e sustentabilidade operacional. Sem isso, a tecnologia tende a se tornar mais um elemento de complexidade, e não um fator de vantagem competitiva.
Como já vêm destacando alguns líderes industriais, a inteligência artificial não veio para substituir pessoas, mas para ampliar capacidades humanas. Na prática, isso exige repensar como o trabalho é organizado, como as decisões são tomadas e como pessoas e tecnologia operam de forma complementar. Não se trata apenas de adicionar mais uma camada de automação, mas de redesenhar a forma como a empresa cria valor.
Feiras e grandes eventos continuam sendo importantes sinalizadores do que está por vir. Eles antecipam tendências, ampliam narrativas e ajudam a visualizar possibilidades. Mas o verdadeiro desafio acontece longe dos palcos e dos holofotes. Ele está na capacidade de transformar essa tecnologia em vantagem competitiva real, e não apenas em discurso moderno. Vivemos, sem dúvida, um ciclo de aceleração tecnológica. A diferença entre líderes e seguidores será definida pela habilidade de separar ruído de valor e de transformar IA em resultado consistente, sustentável e mensurável.