(SvetaZi/Getty Images for National Geographic Magazine)
CTO e VP de Soluções Digitais da Falconi
Publicado em 29 de junho de 2026 às 18h26.
*Por Breno Barros, CTO e VP de Soluções Digitais da Falconi
Existe uma crença difundida de que a inteligência artificial (IA) tornará as organizações mais eficientes ao permitir testar ideias, desenvolver soluções e tomar decisões em uma velocidade nunca vista. Isso é verdade. Mas talvez estejamos ignorando um efeito colateral importante. Quando o custo de experimentar cai drasticamente, o número de experimentos cresce. O problema é que, junto com ele, cresce também a quantidade de decisões ruins, projetos irrelevantes e iniciativas sem impacto real.
Durante décadas, lançar um produto, construir um sistema ou automatizar um processo exigia investimentos elevados. O próprio custo funcionava como um filtro natural. Era preciso priorizar, discutir hipóteses, avaliar riscos e justificar economicamente cada iniciativa. Com a IA, esse filtro fica mais fraco. Se gerar software, documentos, análises ou protótipos custa uma fração do que custava antes, a tentação passa a ser experimentar praticamente tudo.
O problema é que reduzir o custo de produzir não diminui automaticamente o custo de decidir. Pelo contrário, quanto mais alternativas são criadas, mais difícil se torna escolher quais realmente merecem ser implementadas. A escassez deixa de estar na capacidade de produzir soluções e passa a estar na capacidade de selecionar boas soluções. Em outras palavras, a IA pode deslocar o gargalo da execução para o julgamento.
Isso cria um paradoxo interessante. Empresas podem passar a produzir muito mais projetos, muito mais código e muito mais automações, enquanto geram relativamente pouco valor adicional. Não porque a tecnologia seja limitada, mas porque a organização perde foco. Quando tudo parece barato, torna-se mais difícil dizer "não". E, sem priorização, eficiência operacional pode acabar se transformando em dispersão da estratégia.
Talvez por isso a competência mais importante da próxima década não seja desenvolver mais IA, mas garantir melhores mecanismos de decisão. Empresas que sabem formular boas perguntas, definir critérios claros de investimento e abandonar rapidamente iniciativas sem valor vão ganhar muito mais espaço do que aquelas que simplesmente produzirem mais artefatos com inteligência artificial.
A IA certamente reduzirá o custo de criar. Mas vantagem competitiva nunca surgiu apenas da capacidade de produzir mais. Ela sempre esteve ligada à capacidade de escolher melhor. Se a inteligência artificial tornar a experimentação praticamente gratuita, o recurso mais escasso deixará de ser tecnologia. Voltará a ser aquilo que sempre diferenciou boas organizações: discernimento.