Colunistas

A IA não reduz o trabalho, mas revela como ele precisa mudar

Sem redesenhar metas, processos e governança, a promessa de produtividade vira sobrecarga e risco para o valor de longo prazo

Inteligência artificial, ilustração conceitual.
 (	VICTOR de SCHWANBERG/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Inteligência artificial, ilustração conceitual. ( VICTOR de SCHWANBERG/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Breno Barros
Breno Barros

CTO e VP de Soluções Digitais da Falconi

Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 20h35.

Há uma narrativa otimista sobre a inteligência artificial que se espalhou nos últimos anos: a promessa de que algoritmos e automação liberariam os profissionais de tarefas repetitivas e assim os devolveriam ao que realmente importa: pensamento estratégico, inovação e impacto nos resultados.

Contudo, evidências recentes desafiam essa visão simplista. Uma pesquisa publicada na Harvard Business Review indica que, no mundo real das empresas, a IA não está reduzindo o volume de trabalho; ao contrário, está intensificando a carga, ampliando o escopo das atividades e empurrando profissionais a trabalhar mais rápido, sob mais pressão e com menos pausas naturais.

Esse fenômeno gera um paradoxo: ao melhorar a produtividade de tarefas específicas, a tecnologia acaba criando conjuntos de tarefas que antes não existiam, como revisar saídas geradas por IA, ajustar modelos, supervisionar processos automatizados e integrar resultados no fluxo de trabalho diário. Para equipes de tecnologia, isso se traduz em uma maior intensidade cognitiva, em que a carga de trabalho não é menor, mas diferente e mais complexa, com menos tempo para reflexão estratégica.

Essa intensificação não é um problema da tecnologia em si, mas uma consequência da forma como a IA vem sendo adotada nas empresas, muitas vezes sem um redesenho consciente do trabalho. Líderes tendem a celebrar ganhos de velocidade sem questionar se esses ganhos se traduzem em impacto sustentável, ou apenas em aumento de entregas. A experiência mostra que métricas que medem quanto se produz são menos relevantes para o board do que métricas que capturam valor real gerado, com redução de custos sustentáveis, mitigação de riscos, qualidade das decisões e vantagem competitiva de longo prazo.

O desafio, portanto, não é rejeitar a IA, mas colocá-la no centro de um redesenho do trabalho que preserve o bem-estar das pessoas e amplifique a geração de valor. Isso demanda repensar processos, clarear papéis e responsabilidades, realinhar metas e expectativas, e instituir governança que garanta que a tecnologia seja um amplificador de capacidades humanas, não um motor de pressão extra. E mais, significa reconhecer que produtividade acelerada sem controle de sofisticação pode, no médio prazo, corroer a qualidade das entregas e a saúde das equipes.

Para líderes de tecnologia e gestores organizacionais, a reflexão deve ir além de métricas simplistas de eficiência: é preciso entender como a IA altera o ritmo, o escopo e a natureza do trabalho. Redesenhar o trabalho significa identificar o que deve ser automatizado, o que precisa de supervisão humana e como equilibrar cargas de trabalho para que a promessa de IA não se transforme em uma válvula organizacional.

O futuro das operações em tecnologia não será definido pela adoção mais rápida de ferramentas, mas pela capacidade de governá-las de forma que produzam resultados sustentáveis, sem sobrecarregar as pessoas que são, em última instância, as responsáveis por transformar dados e algoritmos em vantagem competitiva.

Em 2026, a grande fronteira de desempenho não está apenas na tecnologia, mas em como o trabalho é redesenhado para acomodá-la de forma estratégica e humana.