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Além do 'Janeiro Seco': como o novo brinde da Geração Z transforma a indústria de bebidas

A ascensão do consumo consciente deixa de ser moda sazonal para se tornar novo paradigma de inovação e tecnologia no setor

 (Mensent Photography/Getty Images)

(Mensent Photography/Getty Images)

Renê Tonello
Renê Tonello

Presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Vinícola Aurora

Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 14h01.

Última atualização em 29 de janeiro de 2026 às 16h14.

A ascensão do Janeiro Seco, movimento global que propõe a interrupção ou a redução do consumo de álcool no primeiro mês do ano, transcende a sazonalidade para consolidar-se como um indicador de uma transformação estrutural no mercado de bebidas. O que começou como um fenômeno pontual, hoje, se consolida como um sinal claro de que há uma mudança comportamental: o consumidor está mais consciente e mais seletivo.

Essa mudança no perfil do consumidor dialoga com transformações socioeconômicas mais amplas na sociedade: rotinas híbridas, cada vez menos tempo disponível e maior atenção ao bem-estar físico e mental. Nesse novo paradigma, o consumo de álcool passa a ser cada vez mais intencional e moderado. De acordo com levantamento da MindMiners, 79% dos consumidores no Brasil afirmam estar reduzindo ou controlando a ingestão de álcool, índice superior à média global. Entre os mais jovens, a tendência tem ainda mais força: 88% dos respondentes da Geração Z dizem estar dispostos a diminuir ou até abandonar o consumo.

Não se trata de uma geração menos interessada em socializar ou celebrar, mas de uma redefinição do que significa prazer, ritual e pertencimento. É nesse cenário que a demanda por bebidas de baixo teor alcoólico e desalcoolizadas experimenta uma expansão inédita. Nos Estados Unidos, por exemplo, a consultoria Nielsen registrou crescimento de 30% no segmento sem álcool entre 2023 e 2024. Essa mudança é impulsionada por consumidores que buscam equilíbrio sem abrir mão de experiências prazerosas e um mercado que cresce não por restrição, mas por possibilidades.

Para a indústria vitivinícola, o desafio vai além de lançar produtos sem álcool. O consumidor demanda qualidade, autenticidade e fidelidade sensorial, com coerência com o ritual que já conhece. Um vinho desalcoolizado, por exemplo, passa por toda a fermentação natural antes da retirada do álcool, preservando características sensoriais e identidade. Já nos itens zero álcool, a uva não passa pelo processo de fermentação e já nasce livre de graduação alcoólica. A tecnologia envolvida não é um detalhe técnico: é parte central da proposta de valor e da competitividade do setor.

Outro aspecto relevante é o impacto dessa transformação na estratégia das empresas. Portfólios mais diversificados, investimentos em estudos e inovação e revisão de narrativas de marca deixam de ser opcionais. Atualmente, produtos desalcoolizados e zero álcool já representam uma fatia significativa da receita de algumas empresas do setor, com potencial de escala, o que evidencia um movimento não apenas aspiracional, mas traduzido em resultados concretos. Já estamos levando produtos sem álcool e desalcoolizados para o mercado externo, em regiões como União Europeia, Estados Unidos e China. Ao exportar esses produtos, oferecemos ao mundo o que o mercado nos pede, com a convergência entre a tradição vitivinícola gaúcha e a vanguarda tecnológica.

Com essa tendência global, o início do ano passa a ser um momento estratégico para dialogar com novos hábitos, novas categorias e novas formas de consumo. Por isso, a Aurora criou a campanha Janeiro Leve, como uma resposta institucional a essa demanda por autonomia e consciência. As decisões tomadas nesse período influenciam hábitos, rotinas e padrões de consumo que tendem a se estender pelos meses seguintes. Para o mercado, entender esse comportamento é fundamental para definir estratégias, investimentos e posicionamento.

O Janeiro Leve não preconiza o fim do consumo de álcool. Ele sinaliza o fim de uma relação automática e pouco refletida. O consumidor contemporâneo quer liberdade para celebrar no seu ritmo, exigindo produtos que acompanhem essa escolha. Para os agentes que atuam no setor, ouvir esse sinal não é apenas uma questão de acompanhamento de tendência. É uma questão de relevância e longevidade futura.

*Renê Tonello é presidente do conselho de administração da Cooperativa Vinícola Aurora. Viticultor, deu continuidade ao legado do avô, que era sócio da Aurora desde a década de 1930. É presidente do conselho de administração da cooperativa desde outubro de 2020 e está em seu terceiro mandato.