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Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 19 de junho de 2026 às 18h33.
Há poucos meses, durante a SXSW, em Austin, ouvi repetidamente uma ideia que ficou ecoando na minha cabeça: a inteligência artificial não é apenas uma transformação tecnológica. Ela é, sobretudo, uma transformação humana.
Agora, na SHRM 2026, maior evento de RH do mundo, realizada em Orlando e reunindo mais de 20 mil participantes de mais de 80 países, encontrei a continuação dessa conversa.
A discussão já não é mais se a inteligência artificial vai transformar o trabalho. Ela já está transformando. A pergunta que domina as conversas mais relevantes é outra: as empresas conseguirão se transformar na mesma velocidade?
Esse foi, para mim, o principal insight da SHRM deste ano.
Um dado apresentado durante o evento ajuda a dimensionar o desafio: 89% dos CEOs acreditam que a inteligência artificial irá redefinir a forma como suas empresas criam valor. Ao mesmo tempo, 87% afirmam que precisarão acelerar significativamente a requalificação de suas equipes.
O desafio, portanto, deixou de ser tecnológico. O desafio passou a ser organizacional.
Durante décadas, as empresas foram desenhadas para gerar eficiência, previsibilidade, controle e redução de riscos. Essas características ajudaram organizações a crescer, ganhar escala e construir vantagens competitivas duradouras. Mas o ambiente atual exige algo diferente. Exige adaptação.
A tecnologia evolui em velocidade exponencial. As organizações, não. É justamente nessa diferença que nasce uma das maiores ameaças competitivas dos próximos anos.
Por isso, cheguei a uma conclusão que pode parecer provocativa: a inteligência artificial não está diminuindo apenas o prazo de validade das profissões. Ela está diminuindo o prazo de validade das culturas organizacionais.
Muitas empresas acreditam que estão implantando inteligência artificial quando, na prática, estão apenas distribuindo aplicativos.
Compram ferramentas, contratam plataformas, oferecem treinamentos e disponibilizam acessos. Mas a transformação real começa quando a tecnologia passa a influenciar a forma como as decisões são tomadas, como o conhecimento circula, como as equipes colaboram e como os líderes exercem sua influência.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser tecnológica e passa a ser cultural. Afinal, toda transformação digital relevante é, antes de tudo, uma transformação humana.
Outro alerta recorrente na SHRM foi sobre um risco frequentemente ignorado pelas organizações. A inteligência artificial não cria vieses do nada. Ela aprende com os padrões existentes.
Isso significa que empresas que carregam distorções em seus processos de recrutamento, promoção, avaliação ou reconhecimento podem acabar ampliando esses mesmos problemas em escala. Antes de automatizar decisões, é preciso questionar a qualidade das decisões que já estão sendo tomadas. Automatizar um problema não o resolve. Apenas o torna mais eficiente.
Um dos momentos mais marcantes do evento aconteceu em uma conversa promovida pela Wellhub com seu embaixador global, Terry Crews.
Conhecido mundialmente como ator, apresentador e ex-atleta profissional, Terry poderia ter escolhido falar sobre fama, sucesso ou performance. Em vez disso, escolheu falar sobre vulnerabilidade.
Diante de milhares de pessoas, compartilhou momentos em que não estava bem emocionalmente, relembrou crises pessoais que impactaram seu casamento e falou abertamente sobre o processo de reconstrução da própria identidade.
O que mais me marcou não foi sua história. Foi sua definição de sucesso.
Segundo Terry, sucesso não é alcançar tudo o que você deseja. Sucesso é construir uma vida alinhada aos seus valores.
Hoje, segundo ele, existe uma pergunta que orienta suas decisões: “Isso está alinhado com quem eu quero ser?”
Se a resposta é sim, ele segue em frente. Se a resposta é não, ele recusa.
Em uma época marcada pelo excesso de estímulos, velocidade e pressão por resultados, talvez uma das competências mais importantes da liderança moderna seja justamente essa: a capacidade de dizer não ao que nos afasta daquilo que realmente importa.
Outro tema que ganhou destaque foi a discussão sobre burnout. Durante muito tempo ouvimos que o antídoto para o esgotamento era equilíbrio. Mas uma das reflexões mais interessantes que ouvi na SHRM aponta para uma direção diferente.
O problema não é a falta de equilíbrio. É a falta de limites.
Profissionais altamente comprometidos normalmente sabem trabalhar duro. O desafio está em saber proteger energia, estabelecer fronteiras saudáveis e criar espaços de recuperação física e emocional.
O debate sobre bem-estar está amadurecendo. Sai a busca quase impossível pelo equilíbrio perfeito. Entra a construção consciente de limites sustentáveis.
Ao final da SHRM 2026, fiquei com a sensação de que estamos entrando em uma nova fase da transformação digital.
Durante muitos anos, a principal pergunta foi: qual tecnologia devemos adotar? Agora, a pergunta parece ser outra: nossa cultura está preparada para capturar o valor dessa tecnologia?
A inteligência artificial continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão. Novos modelos de negócio serão criados.
Mas a verdadeira vantagem competitiva continuará sendo profundamente humana: a capacidade de aprender, de se adaptar, de liderar mudanças e de construir culturas capazes de evoluir na velocidade do mundo.
Porque a inteligência artificial pode acelerar uma empresa. Mas continuará sendo a cultura que determinará a direção.