Repórter
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 13h47.
Última atualização em 24 de agosto de 2026 às 13h50.
Uma vacina personalizada de mRNA contra o melanoma reduziu o risco de retorno do câncer em um ensaio clínico de fase III, segundo anúncio feito nesta semana pelas empresas responsáveis pelo estudo. O tratamento utiliza a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), a mesma empregada nas vacinas contra a covid-19, e se tornou o primeiro tratamento oncológico baseado nessa tecnologia a apresentar resultados positivos em um estudo clínico de estágio avançado.
"É algo incrivelmente empolgante", diz Seth Cheetham, cientista especializado em mRNA da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália. "Este é o primeiro ensaio realmente em grande escala" a divulgar dados sobre uma vacina de mRNA personalizada contra o câncer. Segundo Cheetham, os resultados podem aproximar o tratamento de uma avaliação regulatória para uso mais amplo.
Merck e Moderna avançam em vacina contra o câncer e ações disparamMarco Gerlinger, oncologista clínico do Hospital St. Bartholomew, em Londres, afirma que o estudo oferece uma prova de conceito, etapa usada para demonstrar a viabilidade de uma abordagem, para o desenvolvimento de vacinas personalizadas contra o câncer. "Isso é importante, pois elas podem ser desenvolvidas para combater diversos tipos de câncer", acrescenta Gerlinger, pesquisador principal de um estudo sobre uma vacina contra o câncer desenvolvida pela BioNTech, em Mainz, Alemanha.
Os resultados também podem ter efeitos sobre pesquisas fora da oncologia, segundo Sam Barrell, diretora executiva da LifeArc, organização beneficente de pesquisa médica sediada em Londres. De acordo com Barrell, o estudo pode ampliar a confiança em tratamentos personalizados para doenças raras, que em muitos casos estão associadas a mutações genéticas específicas.
A vacina, chamada intismeran, não tem como objetivo impedir o desenvolvimento inicial do câncer. O tratamento foi desenvolvido para reduzir a possibilidade de a doença retornar após o tratamento do tumor.
O ensaio clínico reuniu cerca de 1.100 pessoas com melanoma avançado cujos tumores haviam sido completamente removidos por cirurgia. Os participantes foram divididos entre aqueles que receberam intismeran em combinação com pembrolizumabe, medicamento de imunoterapia utilizado contra o câncer, e aqueles tratados apenas com pembrolizumabe.
A Merck, sediada em Rahway, Nova Jersey, e a Moderna, sediada em Cambridge, Massachusetts, responsáveis pela vacina, anunciaram que os pacientes submetidos à combinação permaneceram por mais tempo sem recidiva do câncer do que os participantes que receberam somente pembrolizumabe. As empresas informaram que pretendem divulgar dados detalhados do ensaio em uma conferência médica.
A produção do intismeran começa com o sequenciamento de uma amostra do tumor de cada paciente. O procedimento permite identificar mutações presentes nas células cancerígenas. Essas alterações podem levar as células a expressar proteínas anormais conhecidas como neoantígenos, que aparecem em sua superfície e podem ser identificadas pelo sistema imunológico.
A partir dos neoantígenos encontrados no câncer de cada pessoa, os pesquisadores produzem uma vacina de mRNA específica. Após a aplicação, o tratamento fornece instruções para que o organismo produza esses neoantígenos e prepare o sistema imunológico para reconhecer células associadas ao tumor. "Nunca antes havíamos conseguido treinar o sistema imunológico de um paciente específico para combater seu próprio tumor", afirma Adnan Khattak, oncologista clínico e pesquisador do estudo realizado no Hollywood Private Hospital, em Nedlands, Austrália.
Até então, abordagens personalizadas para o tratamento do câncer costumavam identificar alterações específicas presentes no tumor e associá-las a medicamentos disponíveis. Um exemplo é a mutação BRAF, alteração genética encontrada em cerca de 50% dos melanomas. No estudo com intismeran, um tratamento específico foi produzido para cada participante, segundo Cheetham.
Apesar da redução observada no risco de recidiva, os participantes ainda precisarão ser acompanhados durante vários anos para que os pesquisadores determinem se a vacina também aumenta a sobrevida, segundo Khattak.A fabricação individual representa um dos obstáculos para ampliar o uso desse tipo de vacina, segundo Cheetham. Depois da retirada de uma amostra do câncer, a produção do tratamento específico para cada paciente pode levar vários meses. Em casos de câncer em estágio avançado, alguns pacientes podem não sobreviver durante o período necessário para receber a vacina, afirma o pesquisador.
A Moderna utiliza ferramentas de inteligência artificial para identificar quais neoantígenos apresentam maior probabilidade de provocar uma resposta do sistema imunológico, segundo Khattak. Após a seleção experimental dos candidatos, os pesquisadores escolhem um conjunto limitado de neoantígenos para integrar a formulação individual destinada a cada paciente.