O Ipef, de Piracicaba, é um polo de inovação sobre floresta

Como o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais aproximou pesquisadores e indústrias — e com isso ajudou a fazer do Brasil o campeão em produtividade de madeira

São Paulo - Em 2008, técnicos do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais (Ipef), de Piracicaba, no interior pau­lista, foram chamados por produtores de eucalipto preocupados com o aparecimento de um inseto. A praga causava a queda das folhas e levava as árvores à morte.

O mais assustador: espalhava-se rapidamente, pondo em risco florestas das quais os fabricantes de painéis de madeira e celulose extraem matéria-prima. Os estudos mostraram que o inimigo era o percevejo-bronzeado, de origem australiana.

Em poucos meses, o Ipef se tornou o quartel-general de um grupo de pesquisadores brasileiros, funcionários de empresas e cientistas ligados a instituições internacionais. Eles esboçaram um plano para atacar a praga com base em um micro-organismo natural da Austrália que infecta o inseto e impede sua reprodução.

“Em 2012, quando testamos essa forma de combate, a infestação causou prejuízo de 288 milhões de reais”, afirma Luiz Barrichelo, diretor executivo do Ipef. “De lá para cá, o avanço do percevejo foi contido.” 

Coordenar o combate às pragas que ameaçam a cadeia florestal é só um dos trabalhos do Ipef. O principal papel do instituto é aproximar pesquisadores acadêmicos e o setor privado — algo importante e raro num país em que esse relacionamento é quase inexistente. Os estudos do Ipef ajudaram a fazer do Brasil o país com as florestas de pínus e de eucalipto mais produtivas do mundo.

A Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas calcula que cada hectare no país gere, em média, 41 metros cúbicos de madeira por ano, 30% mais do que a China, o segundo mais produtivo.

“Em nossa empresa, as inovações do Ipef geram 18 milhões de reais ao ano em ganhos de produtividade”, diz Antonio Joaquim de Oliveira, presidente da fabricante de painéis de madeira Duratex.

Em parte, os resultados se devem ao modelo do Ipef. O instituto funciona como um centro onde pesquisadores na área de engenharia florestal podem encontrar patrocinadores privados para seus projetos. Em outras ocasiões, ocorre o oposto: as empresas pedem ao Ipef soluções para problemas de produtividade.

Para diminuir o peso dos investimentos em pesquisa, os custos são divididos entre as companhias interessadas. No ano passado, 27 indústrias, como Suzano, Duratex e International Paper, bancaram quase todo o orçamento do Ipef, que chegou a 5 milhões de reais. Nem sempre a origem dos recursos para pesquisa foi exclusivamente privada.

Até 2007, o instituto era um departamento da Esalq, escola de agronomia da USP mantida pelo governo paulista. “Embora já recebêssemos recursos das empresas, a burocracia do setor público atrapalhava”, diz Barrichelo. “Viramos uma instituição privada e hoje somos mais ágeis.”

Outra frente de trabalho do Ipef se dá com as novas fronteiras. Nos anos 80, seus pesquisadores começaram a colaborar com a Suzano no desenvolvimento de variedades adaptadas ao solo e ao clima do Maranhão.

Há um mês, a empresa inaugurou em Imperatriz, no sul do estado, uma fábrica com capacidade de produzir 1,5 milhão de toneladas de celulose ao ano. “Estamos cultivando no Maranhão um tipo de eucalipto desenvolvido com a ajuda do Ipef”, diz Alexandre Chueri, diretor florestal da Suzano.

 O modelo de consórcio entre empresas para bancar pesquisa em conjunto tem suas limitações. Algumas associadas reclamam da falta de entusiasmo do Ipef para conduzir estudos com plantas geneticamente modificadas, de onde se esperam os próximos saltos de produtividade.

Mas outras acham que esse tipo de pesquisa, de uma tecnologia considerada altamente estratégica, deve ser tocada na base do cada um por si. Mesmo com essas restrições, o papel do Ipef talvez nunca tenha sido tão importante para as empresas que plantam florestas.

O aumento nos custos da terra e da mão de obra vem abatendo a competitividade do setor. Produtores russos, indonésios e americanos, com custos mais baixos, estão diminuindo rapidamente as vantagens comparativas que o Brasil ainda tem graças à produtividade no campo. Para enfrentá-los, será preciso pôr a cabeça para funcionar — e compensar com tecnologia o custo que o país impõe.

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