Tubarões: animais ameaçados são criados para ajudar na recuperação da espécie (Mark Erdmann)
Redatora
Publicado em 24 de agosto de 2026 às 21h03.
Um programa de conservação está adotando uma estratégia incomum para tentar recuperar uma população de tubarões ameaçada de extinção. Filhotes são criados em aquários, recebem cuidados de profissionais treinados e passam por uma preparação específica antes de serem levados de volta ao oceano.
A iniciativa é coordenada pela organização ReShark e tem como alvo o tubarão-leopardo do Indo-Pacífico, também conhecido como tubarão-zebra (Stegostoma tigrinum). A espécie desapareceu quase completamente de algumas áreas de Raja Ampat, na Indonésia, após décadas de sobrepesca e destruição de habitat.
O projeto começou a soltar os animais em águas protegidas da Indonésia e da Tailândia. Desde 2023, 82 filhotes foram libertados, de acordo com informações da CNN.
A estratégia começa ainda nos aquários. Ovos considerados viáveis são enviados para instalações especializadas da ReShark em Raja Ampat e Phuket, na Tailândia. Nesses locais, profissionais acompanham o desenvolvimento dos animais desde a eclosão. Eles monitoram os filhotes, cuidam da alimentação e ajudam os tubarões a desenvolver comportamentos necessários para a vida no ambiente natural.
Esses profissionais são chamados informalmente de “babás de tubarões”. Apesar do apelido, o trabalho envolve treinamento técnico em manejo de animais e pode levar meses de preparação.
Uma das etapas é adaptar os filhotes à maneira como encontrarão alimento no oceano. Em aquários, tubarões jovens costumam receber peixes picados e enriquecidos com vitaminas. No programa, os animais também são incentivados a retirar amêijoas e caracóis de suas conchas. A intenção é fazer com que desenvolvam habilidades de alimentação antes de serem libertados.
A espécie apresenta uma característica que facilita a criação em cativeiro: é ovípara. Ou seja, as fêmeas colocam ovos, em vez de dar à luz filhotes vivos.
O tubarão-leopardo do Indo-Pacífico também está entre os maiores tubarões que se reproduzem dessa maneira. Segundo David Ebert, pesquisador da Universidade Estadual de San Jose, essa característica pode tornar a espécie mais adequada para um programa de reintrodução. Além disso, os animais são considerados inofensivos para seres humanos.
A população, porém, sofreu forte redução nas últimas décadas. Segundo estimativas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o número de indivíduos caiu entre 50% e 79% nas últimas três gerações, que correspondem a cerca de 57 a 72 anos. A espécie é classificada como ameaçada de extinção.
Os filhotes não são imediatamente levados para o mar. Eles permanecem nos berçários até atingir cerca de um metro de comprimento e demonstrar capacidade de buscar alimento por conta própria.
Antes da soltura, os animais recebem identificação para que possam ser acompanhados posteriormente. As liberações ocorrem em áreas consideradas protegidas. Raja Ampat, por exemplo, possui um santuário de tubarões e raias-manta com aproximadamente 46 mil quilômetros quadrados, segundo a CNN.
A equipe utiliza dados de satélite para acompanhar os animais depois da soltura. Segundo a ReShark, os filhotes monitorados permanecem, em média, entre 100 e 150 quilômetros do local onde foram libertados. Esse acompanhamento permite verificar como os animais se deslocam e se permanecem nas regiões protegidas.
Apesar dos primeiros resultados, pesquisadores destacam que ainda é cedo para determinar o impacto da estratégia sobre a população da espécie. Um dos principais pontos de dúvida é saber se os animais criados em cativeiro sobreviverão por tempo suficiente para chegar à idade reprodutiva.
Os tubarões-leopardo podem levar entre cinco e 12 anos para atingir a maturidade. Por isso, a ReShark deverá começar a verificar se os primeiros animais libertados estão se reproduzindo a partir de 2028. David Ebert considera o projeto inovador, mas ressalta que seu efeito sobre a população ainda precisa ser demonstrado.
Outro desafio é a pressão da pesca. Mesmo quando os animais são libertados em áreas protegidas, eles podem se deslocar para regiões onde a atividade pesqueira continua ocorrendo. Por isso, o programa também busca envolver comunidades locais na proteção dos tubarões.
Segundo a ReShark, 15 tubarões-leopardo saudáveis foram avistados em Raja Ampat neste ano. Para a organização, os registros, somados ao monitoramento dos animais libertados, representam sinais iniciais positivos para o programa.
Apesar disso, o resultado definitivo dependerá de um período maior de monitoramento. A capacidade dos animais de sobreviver, permanecer protegidos e se reproduzir será fundamental para avaliar se a criação em aquários pode contribuir, de fato, para a recuperação da população na natureza.