Ciência

Transtorno de Personalidade Borderline: entenda a síndrome abordada em novela

O tema será tratado na nova novela da Globo, Todas as Flores, de João Emanuel Carneiro, que estreou na quarta-feira, 19, na Globoplay

Embora as causas da síndrome ainda não sejam bem definidas, sabe-se que os sintomas costumam aparecer no início da vida adulta (Globplay/Todas as Flores/Reprodução)

Embora as causas da síndrome ainda não sejam bem definidas, sabe-se que os sintomas costumam aparecer no início da vida adulta (Globplay/Todas as Flores/Reprodução)

EC

Estadão Conteúdo

Publicado em 21 de outubro de 2022 às 15h58.

Caracterizada por mudanças repentinas e intensas de sentimentos, além de comportamentos instáveis, o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma doença mental grave caracterizada por extrema instabilidade de humor, afetos, autoestima, relacionamentos e comportamento.

As pessoas diagnosticadas com a síndrome, também chamada de transtorno de personalidade limítrofe, têm medo que as emoções fujam do seu controle e acabam agindo de forma irracional para conter os sentimentos. O tema será tratado na nova novela da Globo, Todas as Flores, de João Emanuel Carneiro, que estreou na quarta-feira, 19, na Globoplay.

Na trama, Joy, personagem vivida por Yara Charry, sofrerá do distúrbio psiquiátrico.

Embora as causas da síndrome ainda não sejam bem definidas, sabe-se que os sintomas costumam aparecer no início da vida adulta. Geralmente, envolve pessoas que sofreram bullying, abuso sexual ou tiveram infância traumática. Ações autodestrutivas, como automutilações e tentativas de suicídio, são frequentes, segundo especialistas.

Confira a seguir mais informações sobre a síndrome:

O que é o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB)?

Doença mental grave caracterizada por extrema instabilidade de humor, afetos, autoestima, relacionamentos e comportamento.

"Geralmente as pessoas que têm esse transtorno apresentam padrões de relacionamento instáveis e intensos, com um medo de abandono muito grande, uma instabilidade da percepção de si mesmas de sua imagem, com sensação de vazio interno, irritabilidade e labilidade emocional, com comportamentos autodestrutivos e impulsivos, podendo apresentar por vezes comportamentos de automatização e flagelação", afirma Israel Montefusco Florindo, chefe da equipe de psiquiatria dos Hospitais Leforte Liberdade e Morumbi.

Por que o transtorno recebeu esse nome (algo no limite)?

Conforme o Ministério da Saúde, o borderline é uma categoria da psiquiatria que descreve uma determinada sintomatologia. A expressão em inglês significa algo que está na fronteira ou no limite.

"Recebeu este nome porque essa doença se situa no limite entre a neurose e a psicose. Dito de outra maneira, fica na borda entre neurose e psicose", explica Valdenir Tofolo, psiquiatra Hospital Samaritano Higienópolis.

Florindo reforça, no entanto, que embora o nome venha de meados do século 20, de origem na teoria psicanalítica, hoje em dia, os critérios são baseados em descrições mais comportamentais.

Em qual idade geralmente costuma surgir?

No início da idade adulta. "Esse diagnóstico não deve ser feito em crianças ou adolescentes, quando a personalidade ainda está em formação. Porém, em alguns casos, podemos dizer que, em tal adolescente, sintomas e sinais ‘lembram’ transtorno borderline", acrescenta Tofolo.

Qual a ligação com as vivências do passado?

Conforme o psiquiatra Hospital Samaritano Higienópolis, costuma haver ligação com passado de conflitos acima da média ou abusos de qualquer tipo sofridos na infância e praticados por adultos.

Para Nina Ferreira, médica psiquiátrica com especialização em neurociência, neuropsicologia e terapia cognitiva-comportamental as vivências da infância sempre têm impacto importante no desenvolvimento da personalidade de qualquer pessoa, portanto também tem relação com o transtorno borderline.

"Os fatores mais comumente presentes na infância desses indivíduos são: má qualidade e instabilidade nas relações com os principais adultos cuidadores, normalmente mãe e pai, como negligência de cuidados básicos e de afeto, e exposição frequente ao estresse e abuso psicológico, assim como abuso físico e abuso sexual", salienta a médica psiquiátrica.

Como diferenciar de doenças como transtorno bipolar e esquizofrenia, por exemplo?

Por meio da história de vida do paciente ou evolução e do exame psíquico. "É muito diferente de transtorno bipolar. O diagnóstico diferencial deve ser feito com esquizofrenia e outros transtornos de personalidade", afirma Tofolo.

Já o chefe da equipe de psiquiatria dos Hospitais Leforte Liberdade e Morumbi esclarece que, para se conseguir fazer o diagnóstico diferencial destas doenças, que possuem quadros e sintomas semelhantes, o fundamental é um seguimento clínico por certo tempo. "Isso ajuda a diferenciar um quadro de outro, ou entender se ambos acontecem ao mesmo tempo. De maneira geral, o padrão de comportamento do transtorno de personalidade borderline é perene, ou seja, mais fixo no decorrer do tempo", disse ele.

Quais os sintomas do Transtorno de Personalidade Borderline?

Os indivíduos parecem estar em estado de crise permanente. O comportamento é altamente imprevisível. Os relacionamentos são muito tumultuados.

"Ações autodestrutivas, como por exemplo automutilações e tentativas de suicídio, são frequentes. Sentimentos crônicos de vazio e tédio. Sentem-se dependentes e costumam odiar aqueles dos quais dependem. Estão sujeitos a episódios de depressão grave e psicose de curtíssima duração, minutos ou poucas horas. Ameaçam com abandono com frequência", alerta Tofolo.

Como é feito o diagnóstico?

Por meio de informações sobre a história de vida e do exame psíquico do paciente. Testes psicológicos estruturados costumam ajudar no diagnóstico.

Ao observar alguns dos sintomas, o paciente deve procurar um médico especialista. Também podem ser solicitados exames fisiológicos que possam ajudar a descartar doenças que tenham sintomas parecidos.

Tem cura? Quais os tratamentos?

Não tem cura, mas melhora bastante com o tratamento. "O tratamento é composto de psicoterapia individual, orientação aos familiares ou conviventes e medicação, tais como antidepressivos e tranquilizantes, sempre com indicação e orientação de um especialista. Por vezes, pode ser necessária a internação em clínica psiquiátrica", acrescenta o psiquiatra Hospital Samaritano Higienópolis.

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