Todos contaminados por covid-19? O risco da imunidade de rebanho

A estratégia funcionaria, em tese, para fazer o novo coronavírus parar de circular, mas ao custo de vidas e do colapso do sistema de saúde brasileiro

No começo da pandemia do novo coronavírus no Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson acreditava que o fenômeno da “imunidade de rebanho” poderia ajudar a combater a doença a longo prazo. Ele logo mudou de ideia e, atualmente, o país é o terceiro no maior número de infectados, com 238.001 doentes.

A Suécia, que adotou um modelo mais flexível como prevenção à covid-19, tem tido resultados negativos: o número de mortes por milhão de pessoas é maior do que o do Brasil. Por lá, são 11 milhões de habitantes, mais de 3 mil mortes e 29.207 infectados, segundo o monitoramento em tempo real da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.

A teoria da imunidade consiste no efeito de proteção que surge nas pessoas quando grande parte se vacinou contra uma doença — assim, mesmo quem não tomou a vacina fica protegido. Muitos acreditam que o indivíduo, ao contrair a SARS-CoV-2, se torna imune a ela. Assim, quanto mais gente for infectada, maior a chance de todos se tornarem imunes. É daí que vem o termo “imunidade de rebanho”. Com ela, todos estariam protegidos. No caso da covid-19, fica difícil imaginar que a situação possa ser resolvida dessa forma, já que ainda não existe uma vacina.

Nenhum estudo comprovou ainda se a imunidade após o contágio do novo coronavírus realmente acontece. Mesmo se acontecer, em outras variações do vírus (como a OC43 e a HKU1), as pessoas ficam imunes por um período determinado de tempo. A imunidade só dura até que surja uma nova cepa do vírus, uma vez que a mutação é inerente a ele. É o que nos faz pegar gripe mais de uma vez, por exemplo.

Fora isso, a estratégia da imunidade teria um custo social alto: a perda de vidas, não só de pessoas em grupos de risco, mas também de jovens e pessoas aparentemente saudáveis.

Em países como o nosso, o tamanho da população, de mais de 200 milhões, poderia causar um grande número de mortes, dada a atual taxa de letalidade de 6,7% do novo coronavírus no Brasil. Em um estudo no começo da quarentena, o Imperial College de Londres, um dos institutos de pesquisa mais respeitados do mundo, estimou que as medidas de distanciamento social poderiam poupar mais de 1 milhão de vidas no Brasil.

Além da atuação insuficiente de profissionais de saúde qualificados, das deficiências na infraestrutura de hospitais e das falhas no acesso aos serviços de saúde num país, outro fator que causa o aumento da taxa de mortalidade do vírus é a subnotificação de casos assintomáticos ou com sintomas leves, como ressaltou o biólogo, pesquisador e divulgador científico Atila Iamarino, em entrevista concedida à Exame em abril.

Para médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, ex-presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a estratégia da imunidade de rebanho não funciona no Brasil porque o sistema de saúde não teria capacidade para lidar com o grande número de internações que seriam necessárias para que o vírus parasse de circular.

“Se toda a população de uma cidade, país, ou do mundo, tiver coronavírus, o vírus deixa de circular. Mas não é preciso que todos seja infectados. Há uma regra que indica que, se o contágio chega a 70% das pessoas, o vírus não consegue achar os outros 30% e deixa de circular, desaparece. Mas ele pode voltar um tempo depois, quando aumentar a população que não foi infectada, por nascimento ou imigração. Isso é o que se chama de imunidade de manada. No caso da covid-19, 40% de quem tem a doença nem percebe que teve, 15%  precisam de internação em hospital e 5% vão para a UTI. Se precisarmos internar 20% da população, seriam mais de 29 milhões de internações. Isso causaria colapso no sistema de saúde brasileiro”, afirma Vecina Neto, em entrevista à Exame.

“Se 0,36% das pessoas morrerem, vão morrer mais de 529 mil pessoas no Brasil. A imunidade de manada é muito cara. No resto do mundo, o mesmo aconteceria”, diz.

Por conta do custo de vidas da estratégia, pesquisadores e médicos reforçam a importância da quarentena e das medidas de distanciamento social para evitar a propagação do vírus e causar um achatamento da curva do número de contágios para que o sistema de saúde global não enfrente um colapso, no qual os hospitais teriam que atender o máximo de pessoas possível e deixar as demais em uma fila de espera, onde certamente haveria muitas mortes.

Portanto, a esperança para o fim da pandemia se concentra no desenvolvimento de uma vacina eficaz contra o coronavírus. Na revista Exame, informamos que existem cerca 100 vacinas e 200 medicamentos em fase de testes no mundo. Ainda assim, a taxa de aprovação de novos medicamentos nos últimos anos foi de apenas 16%, o que demonstra a complexidade do desenvolvimento de estratégias eficazes no combate a novas doenças infecciosas.

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