Terapia genética com vírus cura cegueira ao tratar olhos e cérebro ao mesmo tempo

Voluntários cegos mostraram melhorias nas vias neurais anos depois de serem submetidos à terapia
 (GettyImages/Pablo Blazquez Dominguez/Stringer)
(GettyImages/Pablo Blazquez Dominguez/Stringer)
Por Giovanna RossinPublicado em 17/07/2015 12:20 | Última atualização em 17/07/2015 12:20Tempo de Leitura: 3 min de leitura

Novas evidências a respeito da terapia genética aplicada em pessoas que sofrem de cegueira demonstraram que essa técnica também é capaz de reorganizar o cérebro dos pacientes – fortalecendo as vias neurais e melhorando ainda mais a capacidade deles de enxergar. A constatação foi feita por um grupo de cientistas da Universidade da Pensilvânia que já havia observado resultados positivos com a técnica anteriormente. 

Por meio de um estudo iniciado em 2007, dez voluntários cegos que sofriam de amaurose congênita de Leber, uma doença genética que provoca a degeneração progressiva da retina, receberam a injeção de um vírus inofensivo em um dos olhos. Todos os pacientes da amostra tinham mutações em um gene chamado RPE65. O vírus agiu inserindo “cópias” saudáveis de RPE65, que foram colocados na retina.

Meses depois, como reportou a New Scientist, alguns voluntários que antes tinham dificuldade em notar uma mão acenando a meio metro de seu rosto conseguiram ler várias linhas em um gráfico. Outros foram capazes até de andar por entre obstáculos em ambiente com baixa luminosidade – algo que seria impossível antes da terapia.

O que ainda não estava claro sobre a terapia eram seus efeitos sobre outros aspectos da visão – sobretudo quão bem as vias neurais associadas à visão haviam se recuperado, mesmo após a função da retina ter melhorado. As conexões no cérebro relativas à visão são compostas por milhões de neurônios conectados. Tais conexões permanecem estimuladas (fortalecidas) quando recebem sinais sensoriais, mas podem, por outro lado, ficar fracas e desorganizadas quando subutilizadas, podendo levar à cegueira. 

Então, cerca de três anos depois da terapia, a equipe realizou uma técnica avançada de ressonância magnética para analisar partes específicas do cérebro. As digitalizações revelaram que as vias neurais associadas com o olho tratado estavam semelhantes às de pessoas que não tinham nenhum problema de visão. Quando comparadas com as vias neurais do olho não tratado, as vias sadias estavam mais “fortes”.

Uma constatação, no entanto, surpreendeu os cientistas. Como a maioria dos voluntários estavam na faixa dos 20 anos (um deles tinha 45), eles esperavam que fosse mais difícil verificar alguma mudança cerebral, já que após uma certa idade na infância (por volta dos sete anos) o cérebro diminui drasticamente sua plasticidade, ou capacidade de se remodelar conforme novas experiências, apresentando resistência para alterar tais vias neurais.

“Pode ser que exista uma época crítica de plasticidade cerebral acelerada, mas mostramos que isso não significa que você perde a capacidade de reestruturar vias como um adulto", disse Manzar Ashtari, neurocientista líder da pesquisa.

A descoberta é importante porque atesta que a plasticidade neuronal tem, em ao menos alguma instância, influência na melhoria da visão. A equipe agora busca aprovação da Administração Federal de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos para a terapia genética ser usada como remédio prescrito para a amaurose congênita de Leber – seria, então, a primeira droga de terapia gênica aprovada daquele país. 

Fonte: New Scientist e Live Science