Ciência

Telescópio Roman: quem foi a mulher que ajudou a criar o Hubble e dá nome à missão da Nasa

Astrônoma foi a primeira mulher a ocupar um cargo executivo na Nasa e teve papel central na viabilização do Hubble

Nancy Grace Roman enfrentou resistência na carreira científica e ajudou a transformar o Hubble em uma missão da Nasa (Nasa/Divulgação)

Nancy Grace Roman enfrentou resistência na carreira científica e ajudou a transformar o Hubble em uma missão da Nasa (Nasa/Divulgação)

Mateus Omena
Mateus Omena

Repórter

Publicado em 1 de setembro de 2026 às 11h02.

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O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, lançado ao espaço neste domingo, 30, leva o nome da astrônoma que ocupou o primeiro posto de chefia da astronomia na Nasa e participou da articulação que levou à criação do Telescópio Espacial Hubble.

Antes de se tornar um dos principais instrumentos de observação espacial da Nasa, o Telescópio Espacial Hubble enfrentou resistência para sair do papel. Em meados do século XX, a agência espacial americana lidava com restrições orçamentárias, enquanto o governo dos Estados Unidos, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, ainda avaliava a construção de um observatório de grandes dimensões no espaço.

Nesse cenário, Nancy Grace Roman teve participação na articulação necessária para transformar o projeto em uma missão da Nasa. A astrônoma defendeu a criação de um telescópio espacial e atuou na interlocução entre pesquisadores, a agência e representantes do governo.

O trabalho de Roman para viabilizar o projeto que posteriormente se tornaria o Hubble fez com que ela recebesse o apelido de "Mãe do Hubble". A iniciativa avançou até resultar no primeiro grande telescópio espacial da agência.

Mais de três décadas após chegar à órbita, o Hubble acumula milhares de descobertas e observações que passaram a integrar pesquisas sobre diferentes regiões do Universo. Décadas depois desse trabalho, a Nasa escolheu o nome da cientista para batizar uma nova missão espacial, desenvolvida ao longo de cerca de dez anos e com custo estimado em US$ 4,3 bilhões.

Quem foi Nancy Grace Roman?

Primeira mulher em cargo executivo na Nasa, Nancy Roman teve papel decisivo na criação do Hubble

Primeira mulher em cargo executivo na Nasa, Nancy Roman teve papel decisivo na criação do Hubble (Nasa/Divulgação)

Nancy Grace Roman construiu sua carreira em um período no qual a presença de mulheres em postos científicos era limitada nos Estados Unidos. Ao longo de sua formação, a astrônoma relatou ter enfrentado resistência à decisão de seguir uma profissão ligada à ciência.

"Disseram-me desde o início que mulheres não podiam ser cientistas", afirmava ao recordar sua trajetória.

Os episódios começaram ainda na escola. Uma orientadora questionou sua decisão de estudar álgebra no lugar de latim. Mais tarde, durante a universidade, Roman contou ter ouvido de um professor que "talvez" pudesse ter sucesso como mulher na física — comentário que ela descreveu como o maior elogio que havia recebido naquele período.

Roman manteve os planos de trabalhar com astronomia e, anos depois, tornou-se a primeira mulher a ocupar um cargo executivo na Nasa.

Nascida em 16 de maio de 1925, Roman era filha do geofísico Irwin Roman e da professora de música Georgia Smith Roman. O trabalho do pai fez com que a família passasse por diferentes regiões dos Estados Unidos durante sua infância, incluindo Nashville, Reno e Baltimore.

O contato com a natureza também fazia parte da rotina familiar. Sua mãe costumava levá-la para observar pássaros e árvores, mas Roman direcionou seu interesse para o céu. Na sexta série, reuniu amigos para criar um clube de astronomia. Um ano depois, já havia decidido que pretendia estudar o cosmos profissionalmente.

A formação acadêmica começou no Swarthmore College, onde concluiu a graduação em astronomia, em 1946. Três anos depois, em 1949, recebeu o título de doutora em astronomia pela Universidade de Chicago.

Após o doutorado, Roman trabalhou com ensino e pesquisa de estrelas no Observatório Yerkes, ligado à Universidade de Chicago, mas identificou limitações para avançar profissionalmente dentro da carreira acadêmica. Segundo seu relato, nenhuma mulher ocupava uma posição permanente no departamento de astronomia da instituição, apesar da experiência acumulada por pesquisadoras.

Naquele período, havia apenas uma astrônoma com um posto permanente desse tipo nos Estados Unidos. Diante das perspectivas de progressão profissional na universidade, Roman decidiu deixar a academia.

A mudança levou a cientista ao Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, onde passou a trabalhar com radioastronomia, área dedicada ao estudo de objetos e fenômenos do Universo por meio das ondas de rádio que eles emitem. A transição antecedeu sua entrada na Nasa e a atuação que posteriormente a colocaria entre as responsáveis pela articulação do projeto que deu origem ao Telescópio Espacial Hubble.

Chegada à Nasa

A entrada na Nasa ocorreu em 1959. Segundo o relato sobre sua trajetória, uma funcionária da agência perguntou se Roman conhecia alguém interessado em desenvolver programas de astronomia. A própria cientista se candidatou ao trabalho.

Em 1960, Roman assumiu o cargo de chefe de Astronomia e Relatividade da agência. A função colocou a astrônoma em contato com pesquisadores e representantes do governo em um período no qual a Nasa buscava viabilizar projetos de observação espacial.

Durante as duas décadas seguintes, Roman trabalhou pela aprovação e pelo financiamento do projeto que daria origem ao Telescópio Espacial Hubble, com atuação como interlocutora entre a comunidade de astrônomos e o governo dos Estados Unidos.
Nancy Grace Roman: cientista participou da articulação que tirou o Hubble do papel e agora dá nome a uma missão de US$ 4,3 bilhões

Nancy Grace Roman: cientista participou da articulação que tirou o Hubble do papel e agora dá nome a uma missão de US$ 4,3 bilhões (Nasa/Divulgação)

O Congresso aprovou a missão do Hubble em 1980. O telescópio se tornaria um dos principais observatórios da Nasa e acumularia um milhão de observações ao longo de três décadas de operação. A participação de Roman na viabilização do projeto levou ao apelido de "Mãe do Hubble".

A astrônoma havia deixado a Nasa, em 1979, para cuidar da mãe. Em 1981, voltou ao trabalho no Centro de Dados Astronômicos do Goddard Space Flight Center. Em 1995, tornou-se diretora do centro e, em 1997, aposentou-se novamente.

Nancy Grace Roman morreu em 25 de dezembro, em Maryland, aos 93 anos. Quinze meses depois, a Nasa anunciou que uma de suas próximas missões espaciais receberia o nome da cientista.

Telescópio Roman terá foco em energia e matéria escuras

O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman foi projetado para realizar levantamentos de grandes regiões do céu. A Nasa afirma que sua capacidade de mapeamento será mais de mil vezes superior à do Telescópio Espacial Hubble.

Durante os próximos cinco anos, o observatório deverá ser usado em pesquisas sobre energia escura, associada à expansão acelerada do Universo, e matéria escura, componente que exerce influência sobre a formação e a estrutura do cosmos.

A missão também amplia a estratégia de observação espacial iniciada por projetos anteriores da agência. Enquanto o Hubble realizou observações de regiões específicas do espaço durante mais de três décadas, o Roman foi desenvolvido para observar áreas maiores do céu em cada levantamento.

O projeto consumiu cerca de uma década de desenvolvimento. O custo estimado do Telescópio Roman é de US$ 4,3 bilhões.

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