Sem a ajuda de exoesqueleto

Laboratório do Hospital das Clínicas da Unicamp usa impulsos elétricos para fazer com que paraplégicos voltem a andar — trabalho único no Hemisfério Sul

Quando a Copa do Mundo começar, no dia 12 deste mês, o paratleta Rodolfo Cano poderá ver pela televisão de sua casa um paraplégico chutar a bola oficial da Fifa com o auxílio de um exoesqueleto. Mas o que os outros 700 milhões de pessoas que também assistirão às imagens diretamente da Arena Corinthians não sabem é que Cano é capaz de dar passos sem a ajuda de próteses robóticas. Ele não é paciente do projeto Andar de Novo, liderado pelo neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, mas do Laboratório de Biomecânica e Reabilitação do Aparelho Locomotor do Hospital das Clínicas da Unicamp, em um trabalho único no Hemisfério Sul, que usa impulsos elétricos na recuperação de pessoas com lesões na medula.

Rodolfo Cano, 27 anos, ficou paraplégico ao sofrer um acidente de moto, em 2006, quando ia para o trabalho, entre Valinhos e Campinas, no interior de São Paulo. Em 2007, ele começou o tratamento no laboratório da Unicamp, chefiado pelo cientista Alberto Cliquet Junior, que é também professor de engenharia elétrica na USP de São Carlos.

Dois anos depois, Cano conseguiu dar os primeiros passos com a ajuda de eletrodos colocados em pontos estratégicos de suas pernas. “Foi uma sensação de liberdade que me deu vontade de sair correndo”, diz. Desde então, os resultados só melhoram. Além dos movimentos artificiais, Cano consegue dar passos com o aparelho desligado. Algo surpreendente, já que sua lesão é na altura do peito, o que impediria qualquer movimento voluntário. “Pode ser difícil perceber o movimento. Muitas vezes é mais fácil sentir meu músculo trabalhando. Sei que o tratamento é de longo prazo. Tudo isso ajuda a me preparar para o futuro”, diz Cano.

Décimo quinto colocado no ranking mundial do esporte parabadminton, Cano tem motivos para ficar animado. Dos pacientes do laboratório, 90% ficam em pé e dão passos apenas artificialmente, enquanto 3% voltaram a andar voluntariamente. “Damos impulsos elétricos que vão até a medula. Isso provoca as contrações musculares. Trata-se de um estímulo neural”, afirma Cliquet. O que o professor da Unicamp faz é aplicar pulsos repetitivos, sempre associados a uma tarefa, como andar, no caso de pacientes paraplégicos, ou levar um objeto até a região da boca, para pacientes tetraplégicos.

Essa repetição é capaz de gerar um reaprendizado da medula, pois os sinais elétricos reorganizam os neurônios, evitando contrações involuntárias. O tratamento faz o paciente pisar no chão, algo importante para a melhora da função cardiopulmonar, a reconfiguração óssea e o combate à osteoporose. As pernas de Cano não são atrofiadas; têm músculos fortes e boa porcentagem de gordura.

Os pacientes que conseguiram caminhar sem a ajuda dos eletrodos tiveram uma reconexão, mesmo que mínima, entre o cérebro e a região lesionada da medula. “É mentira dizer que o sistema nervoso não cresce. Com os estímulos elétricos, ele pode crescer aos poucos até uma hora em que encosta novamente no cérebro”, afirma o pesquisador Cliquet.

Cada paciente tem um tempo de recuperação. Pode ser cinco, dez ou 20 anos, e, em alguns casos, a reconexão pode nunca acontecer. Mesmo nesses casos, Cliquet não acredita que um exoesqueleto seja a solução mais indicada. Segundo ele, todos os estímulos passariam pelo metal e nada seria recebido pelos ossos, além de aumentar as chances de fratura por queda com o equipamento, ainda muito pesado.

“O movimento é realizado por uma máquina, diferentemente do que acontece com nossos pacientes, que chutam qualquer bola. Dá para montar um time aqui no laboratório”, diz Cliquet.     

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