Quem já foi infectado pela covid-19 tomará a vacina?

A resposta pode estar na observação de comportamentos de outras vacinas e nos dados observados até o momento

Diversas vacinas contra o novo coronavírus apresentaram bons resultados nesta semana. Em caso de aprovação, é claro que as doses alcançarão a população — a começar pelos profissionais de saúde, idosos, crianças, grávidas, puérperas, indígenas, professores, doentes crônicos, entre outros, e, no final, chegará ao restante dos cidadãos. Mas a pergunta que não quer calar é: quem já foi infectado pela covid-19 vai precisar tomar a vacina?

A resposta pode estar na observação de comportamentos de outras vacinas. Quando uma pessoa já contraiu o sarampo, ela não precisa ser imunizada contra a doença pois seu corpo já foi capaz, por si só, de criar uma imunidade em relação ao vírus — que não sofre mutações. O mesmo não é verdade para a gripe, por exemplo, que necessita de doses anuais, uma vez que o vírus Influenza é capaz de passar por várias mutações ao longo do tempo.

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Ainda não se sabe se o mesmo é verdade em relação à covid-19. Até o momento, o vírus não apresentou mutações em suas cepas para indicar que diversas vacinas com variações infinitas serão necessárias para atacar cada uma das mutações. A duração dos anticorpos do novo coronavírus também não é clara, pelo fato de a doença ainda ser relativamente nova. Alguns estudos apontam que a imunidade à covid-19 pode durar anos, enquanto outros acreditam que eles desaparecem rapidamente após a infecção.

Para a pesquisadora Ester Sabino, do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP), ainda é muito cedo para tentar adivinhar se quem já foi infectado precisará ou não tomar uma dose da vacina quando for aprovada. “Qualquer resposta sobre isso será opinião e não baseado em dados . Muitos protocolos de vacina foram feitos sem excluir a presença de anticorpos para vacinar os voluntários. Este tipo de análise deve ser investigada nesses estudos, e aí sim teremos uma resposta baseada em dados”, afirma.

Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do Incor, discorda de Sabino e acredita que “quem esteve doente já está protegido”. “Casos de reinfecção são raros. Não se sabe se estão protegidos por tempo limitado. Somente a observação científica nos dirá. Assim, quem ficou doente, não precisa tomar a vacina. Mas, se tomar, não haverá problema”, diz.

O que se sabe é que farmacêuticas como a Moderna e a Sanofi não aceitaram pessoas que já haviam contraído o SARS-CoV-2 para participar da fase de testes clínicos de suas vacinas, uma vez que os dados poderiam aparecer alterados de alguma forma. A Novavax, por sua vez, não aceitou nenhum voluntário que havia sido exposto ao vírus.

A resposta para a pergunta feita no início da reportagem, então, não é nem um pouco simples. E como muitas coisas da vida humana, só o tempo dirá.

As vacinas e as boas notícias

Nesta quarta-feira, a vacina desenvolvida pela farmacêutica Pfizer em parceria com a alemã BioNTech apresentou uma eficácia de 95% em testes de fase 3. Segundo a companhia, a taxa de eficácia tem como base 170 casos de covid-19 que foram observados no estudo, sendo que 162 pessoas infectadas estavam recebendo doses de placebo e não da vacina. O resultado, segundo a Pfizer, foi similar em indivíduos apesar de sua faixa etária, raça ou etnia.

O novo resultado traz ainda mais esperança para acabar com uma pandemia que já matou mais de 1,3 milhão de pessoas no mundo todo. A Moderna afirmou nesta segunda-feira, que sua vacina foi capaz de reduzir as infecções em 94,5%. Se em alguns casos ambas as vacinas forem tomadas em conjunto, as chances de uma proteção mais eficaz podem aumentar ainda mais.

Outro estudo publicado na The Lancet apontou que a Coronavac, também testada no Brasil, é segura e foi capaz de criar anticorpos em 97% de 700 voluntários que participaram da fase de testes 1 e 2 na China.

Quem terá prioridade para tomar a vacina?

Nenhuma vacina contra a covid-19 foi aprovada ainda, mas os países estão correndo para entender melhor qual será a ordem de prioridade para a população uma vez que a proteção chegar ao mercado. Um grupo de especialistas nos Estados Unidos, por exemplo, divulgou em setembro uma lista de recomendações que podem dar uma luz a como deve acontecer a campanha de vacinação.

Segundo o relatório dos especialistas americanos (ainda em rascunho), na primeira fase deverão ser vacinados profissionais de alto risco na área da saúde, socorristas, depois pessoas de todas as idades com problemas prévios de saúde e condições que as coloquem em alto risco e idosos que morem em locais lotados.

Na segunda fase, a vacinação deve ocorrer em trabalhadores essenciais com alto risco de exposição à doença, professores e demais profissionais da área de educação, pessoas com doenças prévias de risco médio, adultos mais velhos não inclusos na primeira fase, pessoas em situação de rua que passam as noites em abrigos, indivíduos em prisões e profissionais que atuam nas áreas.

A terceira fase deve ter como foco jovens, crianças e trabalhadores essenciais que não foram incluídos nas duas primeiras. É somente na quarta e última fase que toda a população será vacinada.

Em entrevista ao MIT Technology Review, o epidemiologista Marc Lipsitch, de Harvard, afirmou que faz mais sentido vacinar os mais velhos primeiro, a fim de evitar mais mortes, e depois seguir em frente para outros grupos mais saudáveis ou para a população geral.

Um estudo realizado em setembro deste ano, por exemplo, fez um modelo de como a covid-19 poderia se espalhar em seis países — Estados Unidos, Índia, Espanha, Zimbábue, Brasil e Bélgica — concluiu que, se o objetivo é reduzir as taxas de mortalidade, adultos com mais de 60 anos devem ser priorizados na hora da vacinação.

Quão eficaz uma vacina precisa ser?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia. Para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social. Mas não é tão simples assim.

Isso porque a eficácia de uma vacina é diretamente proporcional à quantidade de pessoas que a tomam, ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da covid-19.

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que 75% da população mundial esteja vacinada.

Os países que já pediram suas doses

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