Ciência

Por que o câncer no coração é tão raro? Entenda o que diz a ciência

Características únicas do órgão dificultam o surgimento de tumores e podem ajudar pesquisadores a desenvolver novas estratégias de tratamento

Coração: baixa capacidade de regeneração das células é apontada como uma das principais razões para a raridade do câncer cardíaco (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Coração: baixa capacidade de regeneração das células é apontada como uma das principais razões para a raridade do câncer cardíaco (Imagem gerada por IA/EXAME/Exame)

Publicado em 2 de agosto de 2026 às 09h01.

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O câncer no coração é um dos tipos mais raros da doença. Enquanto tumores em órgãos como pele, pulmão e intestino são relativamente comuns, apenas cerca de uma em cada 50 mil pessoas desenvolve um câncer que se origina diretamente no coração. Na maioria dos casos, os tumores encontrados no órgão são metástases, ou seja, começaram em outra parte do corpo e depois se espalharam.

A explicação para essa resistência está nas características do próprio coração. Um estudo conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Engenharia Genética e Biotecnologia (ICGEB), na Itália, e publicado na revista Science mostrou que o órgão reúne mecanismos naturais que dificultam o crescimento de células cancerígenas.

Outra pesquisa, publicada no Journal of the American Heart Association, também encontrou uma associação entre alterações na função cardíaca e o risco de desenvolver alguns tipos de câncer.

Segundo os cientistas, a baixa renovação das células do coração e a pressão gerada pelos batimentos cardíacos ajudam a explicar por que o órgão é naturalmente menos suscetível ao surgimento de tumores.

Por que o câncer no coração é raro?

O câncer surge quando alterações no DNA fazem as células se multiplicarem de forma descontrolada. Quanto maior a renovação de um tecido, maior também a chance de ocorrerem erros nesse processo e, consequentemente, mutações capazes de dar origem a tumores.

É por isso que órgãos como a pele e o intestino, que renovam suas células constantemente, apresentam incidência muito maior de câncer.

O coração funciona de maneira diferente. As células do músculo cardíaco são substituídas lentamente, em uma taxa estimada em cerca de 1% ao ano. Ao longo da vida, menos da metade das células presentes no nascimento é renovada naturalmente.

Além disso, quando sofre uma lesão, o coração costuma formar tecido cicatricial em vez de produzir novas células musculares. Essa característica reduz ainda mais as oportunidades para que mutações associadas ao câncer se acumulem.

Os batimentos do coração também ajudam a impedir tumores

Além da baixa capacidade de regeneração, os batimentos cardíacos parecem exercer outro papel importante na proteção contra o câncer.

No estudo, pesquisadores do ICGEB transplantaram corações em camundongos para que funcionassem sob uma pressão menor do que a normal. Depois, introduziram células cancerígenas e compararam o crescimento dos tumores com o observado em corações submetidos à pressão habitual.

Os resultados mostraram que as células cancerígenas cresceram mais rapidamente nos corações que batiam sob menor pressão.

Segundo os pesquisadores, a força mecânica produzida pelos batimentos ativa uma proteína capaz de reduzir a atividade de genes ligados ao crescimento do câncer. A descoberta pode abrir caminho para novas terapias que utilizem estímulos mecânicos para retardar a progressão de tumores em determinadas regiões do corpo.

O coração pode ajudar a detectar o câncer mais cedo?

Além de investigar por que o câncer no coração é tão raro, cientistas também estudam se o órgão pode ajudar na identificação precoce da doença em outras partes do corpo.

Pesquisadores acompanharam milhares de pacientes por até 18 anos e observou que alterações discretas na função cardíaca estavam associadas a um risco maior de desenvolver alguns tipos de câncer.

Entre os resultados, pessoas com redução da função do átrio esquerdo apresentaram maior probabilidade de desenvolver câncer de cólon posteriormente.

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