IPCC: os alertas e soluções da ONU para um planeta em crise

Terceira parte do quinto relatório do IPCC, o painel de experts em clima da ONU, traça novos rumos para mitigar as mudanças climáticas

São Paulo – Só uma grande mudança pode salvar o planeta. O alerta vem da terceira parte do quinto relatório do IPCC, o painel de experts em clima da ONU, divulgado neste domingo, em Berlim, na Alemanha.

O novo relatório, focado em soluções para as mudanças climáticas, afirma que a saída para a crise passa por uma mudança institucional e tecnológica, sem a qual será impossível limitar em dois graus centígrados a alta da temperatura no planeta.

Redução de investimentos em combustíveis fósseis, aumento da participação das fontes de energia renovável e adoção maciça de projetos de reflorestamento estão entre as ações de mitigação sugeridas pelos cientistas.

Sem essas mudanças, alerta o estudo, a temperatura global poderá subir entre 3,7 e 4,8 graus centígrados até 2100, em relação aos níveis pré-industriais.

O atraso em agir para reduzir as emissões tornará muito mais difícil e caro o combate às mudanças no clima.

Segundo o documento, esforços ambiciosos de mitigação reduziriam o crescimento econômico em cerca de 0,06 pontos percentuais por ano.

Mas não estão contabilizados aí os benefícios financeiros de evitar os prejuízos, muitas vezes bilionários, dos desastres naturais, nem as melhorias na qualidade do ar e na saúde humana advindos da redução da queima de combustíveis fósseis.

O lançamento da terceira parte do IPCC ocorre duas semanas após a divulgação da parte II (veja abaixo), que fez um diagnóstico do clima extremo e seus efeitos para a vida no planeta.

Veja a seguir as principais conclusões do novo relatório:

Emissões em alta – o vilão

A emissões de gases de efeito estufa (GEE) no período entre 2000 e 2010 foram as mais altas da história. Em média, aumentaram 1 gigatoneladas de CO2 equivalente (GTCO2eq) por ano na primeira década do século XXI, em comparação com o incremento médio de 0,4 GTCO2eq entre 1970 e 2000.

Cerca de 78% dessa alta pode ser atribuída ao uso intensivo de usinas alimentadas por combustíveis fósseis e outros processos industriais. Por trás dessa fome energética está o crescimento econômico e populacional, destaca o IPCC.

Mitigação – a solução

É possível manter o aumento da temperatura global abaixo de 2 graus Celsius e evitar efeitos mais nefastos das mudanças climáticas, desde que as emissões de carbono sejam limitadas a 450 partes por milhão (ppm) até o final deste século. Já registramos 400 partes por milhão. >>


Isso exigiria uma redução das emissões globais de gases de efeito estufa de 40 a 70 %, em relação a 2010, até meados do século, e para perto de zero em 2100, principalmente por meio de mudanças mem larga escala no consumo e energia e uso da terra.

Mudança na rota dos investimentos

Reduções substanciais nas emissões exigem grandes mudanças nos padrões de investimento. E, aí, o setor privado pode desempenhar um papel importante ao lado de governos no financiamento da mitigação da mudança climática.

Até 2030, o investimento anual em projetos convencionais de energia alimentados por combustíveis fósseis deveria diminuir em cerca de 20% em relação a 2010, fechando em US$30 bilhões.

O investimento anual em energias renováveis, por sua vez, cincluindo usinas nucleares e captura e armazenamento de carbono, deverá crescer cerca de US$ 147 bilhões.

Já os investimentos anuais em transportes e indústrias mais eficientes e em edifícios inteligentes deveriam aumentar em cerca de US$ 336 bilhões.

Energia limpa, segura e livre de emissões

As emissões do setor de energia podem triplicar até 2050 em relação a 2010, a menos que esforços significativos de “descarbonização” sejam implementados, diz o IPCC.

A solução passa pela maior utilização de fontes renováveis de energia. Na lista entra até a energia nuclear, que pode dar sua contribuição para regiões com baixa oferta de energia livre de emissões de carbono.

Mas ainda é necessário superar certas barreiras e riscos em torno da gestão de segurança e de resíduos, ponderam os cientistas.

O gás natural também pode agir como uma tecnologia de transição para um setor de energia de baixo carbono, contanto que suas emissões sejam capturadas.


A tecnologia de captura e armazenamento de carbono (CCS) pode desempenhar um papel importante, porém ainda não foi aplicada em escala comercial.

Construção de baixo impacto

O setor de construção civil foi responsável por 32% do consumo final de energia em 2010. Com uma demanda crescente por energia, as emissões de CO2 na área deverão aumentar de 50 a 150% até 2050, segundo o IPCC.

Novos padrões e tecnologias de construção inteligentes poderiam estabilizar, e até mesmo reduzir, as emissões deste setor até 2050.

Indústrias mais eficientes

Sozinho, o setor industrial foi responsável por cerca de 28% do consumo de energia em 2010 e por mais de 30% das emissões globais de GEE.

Para piorar, é esperado um aumento das emissões industriais de 50 a 150% até 2050, considerando-se um cenário de inércia.

A solução proposta pelo IPCC é velha conhecida e atende pelo nome de eficiência energética e atualização de processos.

A intensidade energética do setor poderia ser diretamente reduzida em cerca de 25%, em comparação com o nível atual, com a substituição e implantação de tecnologias mais modernas disponíveis no mercado.

Agricultura, silvicultura e outros usos da terra

Este setor é responsável por cerca de um quarto das emissões de gases de efeito estufa, principalmente oriundas do desmatamento e de mudanças no uso do solo para a pecuária.

Felizmente, as emissões do setor parecem ter diminuído nos últimos anos, como resultado de queda no desmatamento. Segundo o IPCC, as emissões futuras podem cair ainda mais até 2050 em face da possibilidade de alguns setores se tornarem sumidouros de CO2.

A técnica de Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono, ou simplesmente BECCS, na sigla em inglês, por exemplo, pode ajudar na redução das emissões, mas apenas se desenvolvido de forma sustentável e sem impacto sobre a segurança alimentar.

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