Repórter
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 12h48.
As obras da Estação 14 Bis-Saracura, da Linha 6-Laranja do metrô de São Paulo, foram interrompidas após a identificação de novos vestígios arqueológicos no canteiro localizado no Bixiga, na Bela Vista, região central da capital. A concessionária Linha Uni informou que aguarda orientações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) antes de definir quando os trabalhos poderão ser retomados.
Os achados aparecem em um relatório encaminhado ao Iphan, em julho, por uma consultoria especializada em arqueologia responsável pelo acompanhamento das intervenções da Linha 6. O documento registra estruturas como alicerces de alvenaria, pisos de cimento e sistemas de drenagem, assim como objetos cuja disposição e características materiais apontam relação com práticas religiosas de matriz africana.
Os vestígios foram localizados a aproximadamente 2,2 metros de profundidade e incluem indícios da possível existência de um terreiro e objetos associados à religiosidade afro-brasileira, segundo o Iphan. O espaço recebeu a identificação de Área 6 e integra a sequência de áreas submetidas à investigação arqueológica durante as obras.
A Área 6 fica próxima da Área 4, onde escavações anteriores revelaram registros associados ao Quilombo Saracura, comunidade negra que ocupou a região no século XIX. Os achados arqueológicos no terreno começaram a ganhar registro durante as intervenções realizadas para a construção da Linha 6-Laranja.
Novos vestígios arqueológicos foram encontrados no canteiro da Estação 14 Bis-Saracura, no Bixiga; concessionária aguarda orientação do Iphan para retomar as obras (Divulgação)
Em 2022, escavações no local identificaram um sítio arqueológico relacionado ao Saracura. A descoberta ocorreu durante a construção da linha projetada para conectar a Brasilândia, na zona norte, à região central de São Paulo. Posteriormente, a estação antes denominada 14 Bis passou a se chamar 14 Bis-Saracura. O terreno também abrigou a antiga quadra da escola de samba Vai-Vai.
Os trabalhos no trecho chegaram a ser suspensos, em janeiro de 2023, para permitir o resgate de materiais encontrados durante as escavações. O acompanhamento arqueológico passou a integrar as intervenções realizadas no canteiro.
Com os novos achados, a Linha Uni afirma que depende de uma definição do Iphan sobre os procedimentos que deverão ser adotados antes de reorganizar o cronograma das atividades no local. Segundo a concessionária, cabe ao instituto determinar o tratamento dos materiais identificados.
Em nota, a Linha Uni declarou que segue as orientações do órgão federal e mantém contato com autoridades e representantes da comunidade local. O Iphan é a autarquia federal responsável pela preservação e fiscalização do patrimônio cultural brasileiro e atua na avaliação de sítios e materiais arqueológicos encontrados durante obras de infraestrutura.
Movimentos sociais ligados à preservação da memória do Saracura defendem a musealização da estação, processo de preservação e exposição de elementos históricos no próprio espaço. Há estações de transporte integradas a estruturas de preservação arqueológica em países como Grécia, Espanha e Áustria.
O primeiro trecho da Linha 6-Laranja entrou em funcionamento após um cronograma marcado por mudanças desde a contratação original do projeto. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) inaugurou, no mês passado, a primeira etapa da linha, que deverá conectar a zona norte ao centro de São Paulo quando todas as estações estiverem concluídas.
O investimento total previsto para a Linha 6-Laranja é de R$ 19 bilhões, e a conclusão integral do projeto está prevista para o fim de 2027.As estações João Paulo I, Freguesia do Ó, Santa Marina, Água Branca, Sesc-Pompeia e Perdizes compõem o primeiro trecho aberto aos passageiros. Neste momento, elas funcionam em operação assistida, período no qual sistemas e procedimentos são acompanhados antes da ampliação dos horários.
A operação ocorre das 10h às 15h, apenas em dias úteis. Segundo o governo de São Paulo, o intervalo médio entre os trens nesta etapa é de 19 minutos.
A previsão do governo paulista é abrir outras duas estações ainda neste ano: Brasilândia e Itaberaba-Hospital Vila Penteado, ambas na zona norte. Após a conclusão de todo o projeto, a Linha 6 deverá conectar Brasilândia à estação São Joaquim, da Linha 1-Azul, na região central.
O contrato original da Linha 6-Laranja foi assinado, em 2013, durante o governo de Geraldo Alckmin (PSB), atual vice-presidente da República. Naquele momento, a previsão estabelecia a conclusão dos 15,3 quilômetros de extensão e das 15 estações, em 2018.
Pelo cronograma atual, a conclusão completa da Linha 6-Laranja ocorrerá cerca de nove anos depois da previsão estabelecida no contrato original. A abertura de trechos da linha ocorre, em 2026, ano em que Tarcísio de Freitas tentará a reeleição ao governo de São Paulo.